Polêmica

Eleição de Portugal não é exemplo, é lição para o Brasil

Articulista celebra vitória do imperialismo como se tivesse sido vitória da esquerda

O artigo O que a derrota estrondosa da extrema-direita em Portugal pode nos ensinar, publicado pelo portal Brasil 247 e assinado por Oliveiros Marques, é um exemplo acabado de como a esquerda pequeno-burguesa perdeu completamente a bússola da realidade material. Ao classificar a eleição de António José Seguro à presidência de Portugal como uma “derrota acachapante da extrema-direita” e uma “vitória da esquerda”, o autor não apenas distorce os fatos, mas presta um desserviço ao entendimento da luta de classes na Europa. O que foi visto neste domingo (8) não foi o triunfo da esquerda, mas sim uma operação de salvamento de emergência montada pelo grande capital e pelo imperialismo para manter Portugal sob o jugo das instituições financeiras internacionais.

Para entender por que Marques está errado, é preciso primeiro desmascarar a figura de António José Seguro. O artigo afirma que ele é o “candidato de esquerda”, mas omite que Seguro é, historicamente, o homem de confiança da burguesia dentro do Partido Socialista. Durante os anos de intervenção da Troika, Seguro foi o principal avalista da austeridade, garantindo que o pagamento dos juros aos banqueiros alemães e franceses passasse por cima do bem-estar do povo português. Chamar Seguro de esquerda é o mesmo que chamar o sistema financeiro de filantropia. Ele é o símbolo da “oposição responsável”, aquela que não contesta o regime, mas o protege. Quando Marques escreve que Seguro representa a “reafirmação de valores democráticos”, ele está, na verdade, celebrando a blindagem de um regime imperialista que utiliza a fachada democrática para impor políticas de fome.

A análise de Marques comete um erro primário ao ignorar a mecânica por trás da votação. Marques celebra a “composição da vitória” e o apoio de setores do centro, mas o que ele chama de “união em torno da institucionalidade” foi, na prática, um gigantesco aparato de repressão política e de imprensa. O sistema agiu em bloco: da direita tradicional de Cavaco Silva e Carlos Moedas até as instituições da União Europeia. A declaração de apoio de Ursula von der Leyen e Emmanuel Macron antes mesmo do fechamento das urnas não é um sinal de “maturidade democrática”, como sugere o texto, mas sim uma intervenção do grande capital internacional para garantir que um lacaio do sistema permanecesse no poder.

Mais grave ainda é a forma como o artigo subestima o desempenho de André Ventura e do Chega. Ao dizer que a “maioria expressiva rejeitou o projeto de radicalização”, Marques fecha os olhos para o fato de que, em apenas seis anos, uma força política saltou do zero para um terço do eleitorado nacional. Mesmo enfrentando todo o peso do Estado, da União Europeia e da imprensa capitalista, Ventura conquistou 33,2% dos votos. Onde o autor vê uma “derrota estrondosa”, qualquer analista sério deveria enxergar um sinal de alerta máximo. A extrema direita não cresce por um passe de mágica ou por uma “sedução do extremismo”, mas porque a esquerda oficial, da qual Seguro é o maior expoente, abandonou a defesa dos trabalhadores para se tornar a gerência do neoliberalismo.

O crescimento de Ventura é alimentado justamente pela “estabilidade institucional” que Marques tanto elogia. Enquanto Seguro promete a continuidade do regime, Ventura, ainda que de forma demagógica e distorcida, é o único que fala sobre o custo de vida insuportável, a crise habitacional e o colapso dos serviços públicos. Quando a esquerda se recusa a combater o sistema, a extrema direita sequestra a indignação popular.

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