Paulo Marçaioli

Formado em direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e dono do blog Esperando Paulo

Coluna

Esperando Godot – Samuel Beckett

Resenha Livro #41 Esperando Godot – Samuel Beckett – Ed. Cosacnaify

Diálogos e Contranssensos

O cenário da peça é extremamente simples: há uma árvore retorcida no centro do palco, fumaça e neblina ao fundo. Poucos personagens em cena: uma dupla de miseráveis como atores principais (Estragon e Vladimir) que, enquanto aguardam Godot, deparam-se com personagens que estão apenas de passagem – o aristocrata Pozzo, o enigmático Lucky e o(s) menino(s) que dá os recados de Godot. (não se sabe rigorosamente se o menino do primeiro ato é o mesmo menino do segundo ato).

A espera de Godot torna-se o motivo central da peça do autor irlandês Samuel Beckett. A história é, nesse sentido, uma peça revolucionária por não se tratar de um relato com as temporalidades tradicionais de uma narrativa, por não se tratar daquelas histórias contadas em teatro eivadas de um ou vários confitos, turning points, clímax e um desenlace final com uma eventual “moral da história”. A sensação (intencional) é que o fim de “Esperando Godot” seja inconcluso. A peça não retrata uma história, mas um intervalo, ou seja, a narrativa de uma espera cujos marcos temporais podem se expandir ao infinito – a espera de um Godot que jamais surge ou retorna.

Sobre a história

Vladimir e Estragon são dois viventes miseráreis e aparentemente abandonados pelo restante do mundo – a sensação é a de que cada um depende do outro, remetendo os diálogos è existência de um amor não homossexual, havendo uma relação de aparente dependência entre ambos. (Estragon não consegue abandonar Vladimir e Vladimir não consegue abandonar Estragon, conquanto ambos persistem esperando Godot).
Os diálogos entre os protagonistas, outrossim, mereceriam um destaque especial: a comunicação parece estar eivada de falhas, como-se ambos não falassem coisa com coisa. Por outro lado, algumas passagens remetem relação de complementaridade entre as falas: isso faz com que ambos em certas passagens surjam como um “personagem comum”. Em outras palavras: o que cada um fala como diálogo poderia ser um monólogo de um “sujeito síntese” de Estragon e Vladimir, tamanho é o grau de intimidade e ligação entre ambos.

Seja como for, Vladimir e Estragon dialogam no sentido de expressar suas inquietações enquanto aguardam Godot. Não se sabe o que significa Godot e a que se refere a sua espera. O fato desta informação não estar presente na peça não é, por suposto, involuntário. Diversas teses foram então levantadas, apresentando Godot como um messisas a ser aguardado,como a morte, como a restauração de vida, como o totalitarismo em Alemanha e Itália: as possibilidades são infinitas, e é, mais uma vez, o caráter radicalmente polissêmico da história e das falas de “Esperando Godot” que fez da peça um marco no teatro mundial.

Passagem final

VLADIMIR

Não percamos tempo com palavras vazias. (Pausa. Com Veemência). Façamos alguma coisa, enquanto há chance!Não é todo dia que precisam de nós. Ainda que, a bem da verdade, não seja exatamente de nós. Outros dariam conta do recado, tão bem quanto, senão melhor. O apelo que ouvimos se dirige antes a toda a humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não. Aproveitemos enquanto é tempo. Representar dignamente, uma única vez que seja, a espécie a que estamos desgraçadamente atadas pelo destino cruel. O que me diz? (Estragon não fala nada). Claro que, avaliando os prós e contras, de cabeça fria, não chegamos a desmerecer a espécie. Veja o Tigre que se precipita em socorro aos seus congêneres, sem a menor hesitação. Ou foge, salva sua pele, embrenhando-se no meio da mata. Mas não é esse o xis da questão. O que estamos fazendo aqui, essa é a questão. Foi-nos dada uma oportunidade de descobrir. Sim, dentro desta imensa confusão, apenas uma coisa está clara: estamos esperando que Godot venha.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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