Polêmica

Trump, o bicho-papão conveniente

Donald Trump apesar de todos os defeitos, não é pior que seus antecessores, que se escondiam atrás da máscara da democracia

Trump-papão

O artigo Os Estados Unidos não elegeram um estadista, mas um gerente dos negócios dos bilionários, de Laurez Cerqueira, publicado no Brasil247 nesta quarta-feira (28) traz uma visão da política americana que mascara a realidade. Além disso, como disseram Marx e Engels no Manifesto Comunista, “O executivo do Estado moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia”. Ou seja, o Estado Burguês é um balcão de negócios.

Quando Cerqueira afirma que “a grande contradição de cidadãs e cidadãos dos Estados Unidos, ao escolherem, pela segunda vez, um presidente que colocou por terra os valores da democracia e a segurança das instituições republicanas do país, está exposta à luz do meio-dia”, acaba deixando de lado todos os presidentes anteriores.

Os ataques dos valores democráticos começaram desde cedo. No final do século XVIII, John Adams já tornava crime criticas ao governo.

Abraham Lincoln chegou a suspender o direito ao habeas corpus; Roosevelt colocou em campos de concentração 120 mil japoneses após o ataque à Pearl Harbour, sendo que cerca de 80 mil eram nascidos nos EUA. Houve ainda a remoção forçada de indígenas para o Mississipi; perseguições políticas a opositores, o macartismo etc.

Não pode ser deixado de lado o Ato Patriota de George W. Bush, ampliado pelo “democrata” Barack Obama. O ato, na prática, atinge o coração da Quarta Emenda, que protege os cidadãos contra “buscas e apreensões arbitrárias” e exige que mandados judiciais sejam baseados em “causa provável”. Entre as mudanças causadas pelo Ato Patriota, citamos:

  1. Mandados de “Espreitadela” (Sneak and Peek). Antes dessa lei, a polícia era obrigada a avisar o proprietário imediatamente ao executar um mandado de busca. O Ato Patriota permite que o governo realize buscas secretas em casas e escritórios e só notifique o alvo semanas ou meses depois. Isso fere o princípio da transparência e defesa da propriedade garantido pela Quarta Emenda.
  2. Cartas de Segurança Nacional (NSLs) – o FBI passou a poder emitir “cartas” para exigir que provedores de Internet, bancos e bibliotecas entregassem dados de clientes e não precisam de aprovação de um juiz e geralmente vêm com uma “ordem de mordaça” (gag order), impedindo que a empresa avise o usuário que ele está sendo vigiado. A Quarta Emenda exige a supervisão judicial, que aqui é ignorada.
  3. Coleta de Metadados em Massa – Edward Snowden, em 2013, revelou que o governo usou a Seção 215 do Ato Patriota para coletar registros telefônicos de milhões de americanos que não eram suspeitos de crime algum. Sendo que a Quarta Emenda diz que buscas devem ser específicas sobre pessoas ou lugares. A coleta em massa é considerada uma “busca geral”, algo que os fundadores dos Estados Unidos queriam evitar a todo custo ao redigir a Constituição.

Com os exemplos acima, o parágrafo que diz que “isso ocorre num momento em que os Estados Unidos já não elegem estadistas, líderes de espírito público elevado, que sempre defenderam os valores e as instituições do modelo democrático da sociedade norte-americana”, não faz o menor sentido.

Interesses em jogo

Laurez Cerqueira sustenta que “os últimos acontecimentos protagonizados por Trump mostram um conluio do poder empresarial de bilionários, que atuam em função de seus negócios, com uma estrutura de poder funcionando acima do Estado oficial”. Mas se esquece de citar que seu imediato antecessor, Joe Biden, fez muito pior em conluio com o grande capital financeiro e o falcões da guerra. Trump se elegeu justamente porque tinha em sua plataforma o fim das guerras eternas que penalizam o contribuinte e drena as riquezas para meia dúzia de corporações.

A porção social que Donald Trump representa, apesar de ser rica, é mais fraca, pois é formada pelo grande capital doméstico.

Por isso é errado afirmar que “o mais grave é que as instituições estão sendo subordinadas a esse poder paralelo, com a conivência do Deep State, principalmente das Forças Armadas. Não que isso seja novidade. É tão antigo quanto os Estados Unidos”. Os noticiários mostraram a dificuldade de Trump em mexer nas estruturas do Estado, e o tal “Estado profundo” continua praticamente fora de seu alcance. Quanto às forças armadas, estão no bolso do capital financeiro e estão forçando Trump a contrariar seu programa eleitoral, se indispor com sua base eleitoral, e se meter em empreitadas militares. A promessa que fez, a de que acabaria com guerra da Ucrânia em 24 horas, não chegou nem perto de se realizar, pois existem interesses muito poderosos por trás do conflito.

O articulista reclama que “Trump avança na construção de estruturas de poder empresarial paralelo, desprezando a Organização das Nações Unidas (ONU)”, mas a ONU serve para quê? Apenas para dar suporte a todo tipo de crimes praticados pelo imperialismo.

Cerqueira diz que “o fato novo é que a imoralidade, a violência e a indiferença em relação ao Estado Democrático de Direito e às suas instituições estão expostas sem nenhum pudor”. Fato novo é apenas que a coisa está sendo feito de maneira escancarada. De resto, continua idêntica. Biden, por exemplo, extraditou sem o menor pudor, mas não causa tanta indignação.

Cerqueira finaliza dizendo que “o mundo corre perigo com a ascensão dos fora da lei. Para eles, vale a lei do mais forte, que tem sob seu comando o maior poder bélico-nuclear do planeta”. É verdade, mas Trump herdou essa situação de Joe Biden, aquele que forçou a guerra na Ucrânia, o avanço contra a China e colocou a OTAN em marcha. É por isso que “os negócios militares no mundo atingiram US$ 1,5 trilhão em gastos com armamentos”. E guerra caminha a passos largos.

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