A burguesia começa cada vez mais a sua campanha contra o presidente Lula. Os editoriais dos principais jornais da imprensa burguesa falam em tragédia. É o caso de Demétrio Magnoli, antigo articulador da campanha do golpe de Estado. Ele publicou o artigo Tragédia sem fim, no qual já começa a mostrar o tipo de campanha que existia em 2014-2016 e que levou a derrubada do governo do PT.
Ele começa: “‘é melhor um fim trágico que uma tragédia sem fim’, decretou Jaques Wagner diante da devolução da MP do PIS/Cofins pelo presidente do Senado. Ao que parece, Lula aplaudiu o gesto de Rodrigo Pacheco, ralhando com seu círculo mais próximo por um erro político crasso cometido com seu aval. O evento rocambolesco assinala o encerramento da primeira etapa de Lula 3. Começa, agora, Lula 3.2”. Ou seja, para Magnoli, Lula não pode ter um plano econômico que não seja neoliberal.
Ele continua: “não foi um equívoco circunstancial, mas o fruto de uma estratégia geral. Lula vive no passado: o mundo do dinheiro farto de seus mandatos anteriores. Ancorado nas suas memórias e hipnotizado pela crença arrogante de que sua genialidade pariu aquele mundo, o candidato Lula pregou a restauração da política econômica exercitada numa era de ilusões. A dura prova da realidade tardou meros 18 meses”. Ou seja, o primeiro governo do PT, que não foi nenhum grande momento desenvolvimentista, já seria uma era de ilusões. A “dura realidade” seria quero governo ou é de direita, ou é direita.
Então apresenta o ponto principal: “na campanha, o candidato entregou-se à quadratura do círculo. De um lado, praticando a sabedoria, firmou uma aliança com o centro político, expressa na cooptação de Alckmin, Tebet e Marina Silva. De outro, praticando uma teimosia que reflete suas convicções profundas, prometeu repetir a orientação econômica sintetizada por Dilma Rousseff pelo refrão ‘gasto é vida’. Não funcionou: o presidente perdeu a confiança dos eleitores de centro, mesmo conservando, como enfeites natalinos, os três representantes desse setor do eleitorado”.
Ou seja, mesmo com o governo totalmente incapaz de realizar a sua política de esquerda, em grande parte por culpa de Tebet, e em outras questões de Alckmin e Marina Silva, Magnoli acredita ser completamente absurdo a questão do gasto, como se um governo não pudesse investir em nada. É o neoliberalismo em sua condição mais extrema. Não basta ter o neoliberal no governo, é preciso que o próprio presidente seja neoliberal. Neste momento, quem viveu o ano de 2015 começa a ter um déjà vu.
O argumento continua: “mas, sobretudo, a nau encheu-se de água nos porões da economia. O ‘gasto é vida’ foi adotado tanto pelo Executivo quanto por um Congresso com poderes típicos do parlamentarismo, mas sem as responsabilidades correspondentes. O ministro Haddad, um santo com vaga garantida no paraíso, tentou o impossível para conciliar os impulsos de gastança com a meta elusiva do equilíbrio fiscal. Seu dom de iludir chegou ao limite, algo que ele mesmo admitiu ao declarar, resignado, após a devolução da MP, não dispor de Plano B para compensar as perdas arrecadatórias”.
Aqui se demonstra o direitismo total do articulista da Folha e do próprio jornal. O Congresso seria do mesmo bloco do governo Lula. O mesmo congresso que está impedindo Lula de governar que transforma a dívida pública em entidade sagrada que não pode ser trocada por um investimento em saúde ou em educação. A única medida aprovada foi a da taxação dos importados baratos, algo que não beneficiará a indústria, mas sim os empresários bolsonaristas. É impressionante que a Folha consiga criticar o Congresso pela direita.
Como se fosse o neoliberalismo em pessoa, Magnoli afirma: “Qualquer governo eleito pelo povo beneficia-se de um período de graça. O arcabouço fiscal do ministro santificado, junto com a ortodoxia monetária do BC, propiciou uma lua de mel entre o governo e os agentes econômicos. O afeto, porém, encerrou-se. Como de hábito, os economistas heterodoxos, Gleisi Hoffmann e o ‘gabinete do ódio’ petista culparão os suspeitos de sempre, agravando a crise de comunicação do governo. Não se superam impasses políticos de fundo por meio de retórica balofa”.
A “lua de mel” entre o governo e os “agentes econômicos” foi um ano e meio de governo travado por uma camisa de força que foi essa alta taxa de juros imposta por um bolsonarista abertamente inimigo do governo. Com esse conceito de “lua de mel” fica claro porque a direita defende o governo FHC. O governo vai mal por culpa da direita e essa mesma direita ainda pressiona o governo para endireitar ainda mais a sua política. É o mesmo processo do golpe de 2016.
Ele conclui: “Lula 3 foi inaugurado à sombra gloriosa do fracasso do golpismo bolsonarista. ‘Nós’ contra ‘eles’: o antibolsonarismo sedimentou-se como ferramenta propagandística crucial do lulismo. Entretanto, por sua própria natureza, a polarização funciona melhor para a oposição que para o governo. Se Lula 3.2 revelar-se incapaz de romper o tabu econômico presidencial, será sucedido por um bolsonarismo 2.0. Ou seja, pela proverbial ‘tragédia sem fim’.”
É a tese principal da burguesia para paralisar o PT: a polarização é ruim. Ou seja, invés de tratar a polarização como um fato, algo que existe e, portanto, a política deve ser traçada com base nisso. Ele trata a polarização como uma opção. O governo Lula deve crescer se fizer a campanha “antibolsonarista” e mais ainda se fizer uma campanha contra os principais setores da direita. Contra Joe Biden, contra Macron, contra Campos Neto e os neoliberais do Brasil. Se esse for Lula 3.2 será um governo vitorioso, caso vá mais à direita como Magnoli deseja o Brasil caminhará para o “bolsonarismo 2.0”.



