Bolsonaro se apresenta ao eleitorado como “antissistema” – é o cara que afronta o STF –, mas curiosamente, à maneira de um defensor desse mesmo sistema, não hesita em tentar manchar a imagem de Lula atribuindo-lhe a pecha de “ex-presidiário”. O problema é que o Lula, preso sob a insólita acusação de “fatos indeterminados”, foi a verdadeira vítima desse sistema. Bolsonaro, por sua vez, foi o beneficiário direto do golpe de Estado perpetrado pela burguesia “com Supremo, com tudo”.
É claro que gostaríamos de ver Lula se defender dos ataques baixos de Bolsonaro no próximo debate, que se dará às vésperas da eleição. Para isso, no entanto, Lula teria de contar a história que não saiu nos jornais, todos tão preocupados com mensalões e petrolões. Explicar à população, tim-tim por tim-tim, o que foi o golpe, que começou com a deposição de Dilma Rousseff e continua a passos largos, infelizmente não é uma tarefa simples para a campanha de Lula – exatamente porque as sacrossantas instituições do Estado burguês, defendidas em recentes manifestos e abaixo-assinados, participaram dele.
Assim, Bolsonaro posa de antissistema, embora se beneficie das injustiças que o sistema cometeu contra Lula. A burguesia, por sua vez, tira proveito das acusações de Bolsonaro contra Lula, que em nada diferem daquilo que o PSDB fez por ocasião da deposição de Dilma Rousseff. Bolsonaro é a voz da burguesia, emanada diretamente da sarjeta. Para Lula, resta – aparentemente – defender a “democracia”, essa mesma democracia que lhe retirou 580 dias de liberdade.
Lula volta sem rancores. Vamos fazer de conta que houve um erro, que o Sergio Moro, por uma escolha pessoal, perseguiu e prendeu o Lula. Vamos fazer de conta que nem mesmo houve golpe. Bolsonaro teria, então, saído de um disco voador que pousou no meio do cenário eleitoral de 2018 e, graças a uma certa “mamadeira de piroca”, que teria nocauteado o adversário, ganhou o pleito. O problema é que a realidade conspira contra essa versão cor-de-rosa da história recente do país. O juiz ladrão, que roubou dois anos da vida do ex-presidente Lula, não só foi ministro do Bolsonaro como agora se elegeu sem nenhum impedimento, como se nada tivesse acontecido.
Lula, de fato, está livre dos processos e continua sendo o candidato mais popular do país. Mesmo assim, a imprensa, sempre tão solerte quando se trata de pedir o mea-culpa alheio, jamais reconheceria que fez campanha difamatória contra o PT para influenciar o eleitorado. Mesmo precisando de Lula para deter Bolsonaro, a burguesia não abre mão de manter de pé sua versão dos fatos, segundo a qual Lula seria tudo aquilo de que o acusa Bolsonaro.
Desmentir essa farsa implicaria mostrar que Lula não foi preso por suas ações, mas por representar um projeto político inconveniente para a burguesia. Lula não fará isso agora, mas esperamos que, depois da eleição – independentemente do resultado –, o PT se dedique com mais afinco a contar para o povo a verdadeira história.





