Sob os ataques da burguesia

As tendências revolucionárias se manifestam nas Artes

Sob a liderança da classe operária paulista que, em 1917, lidera a primeira greve geral do País, uma situação de características revolucionárias toma até do mundo das artes

Há exatamente 100 anos, no dia 13 de fevereiro de 1922, iniciava-se — sob intensos ataques da imprensa burguesa — a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, no Teatro Municipal da cidade.

Os novos artistas viram-se, em um primeiro momento, intimidados pela recepção negativa e os duros ataques da sempre conservadora e reacionária imprensa capitalista à arte modernista, que fariam das atividades realizadas até o dia 17 daquela Semana, a maior expressão da maior revolução estética de nossa história.

Nos próximos dias, vamos publicar uma serie de artigos sobre o tema. Iniciamos hoje com uma abordagem dos antecedentes da gloriosa Semana, cuja importância só veio a ser percebida (e segue sendo questionada por setores conservadores) nos anos posteriores.

O renomado escritor, poeta e crítico de arte, música e literatura Mário de Andrade, por exemplo, só se manifestaria em 1926 sobre a exposição de Anita Malfatti. Sua personalidade e educação fizeram dele um homem tímido e recatado, pouco movido para debates e polêmicas, o que fez com ele só despertasse para a importância do ocorrido diante das críticas e a pressão que começaram a cair sobre ele mesmo.

Antecedentes: a I Grande Guerra e a crise do café

A semana é precedida por uma situação de gigantesca crise, que vai se aprofundar nos anos seguintes. A Primeira Grande Guerra (1914-1918) provocou um grande prejuízo financeiro para o setor cafeeiro. Mesmo com o Brasil tendo apoiado o conflito, num primeiro momento, fornecendo alimentos para a Tríplice Entente, os navios do Lloyd Brasileiro eram sistematicamente torpedeados por submarinos alemães. Isso prejudicava as exportações de café e, para piorar as coisas, a Alemanha deixou de pagar o café já comprado do Brasil. Em outubro de 1917, o país declarou guerra à Alemanha.

Com a Revolução de Outubro de 1917, na Rússia, e o armistício decretado pelo governo revolucionário, os adversários da Alemanha sofreram uma grande baixa. O governo operário, comandado pelos bolcheviques, combatia ferozmente a guerra imperialista, se opondo a que os operários de diferentes países se matassem mutuamente para defender os interesses dos abutres capitalistas, que falavam em “defesa da pátria”, mas “lutavam” (por meio dos soldados operários e camponeses) pelos seus próprios interesses, como na maioria das guerras.

A acertada decisão dos bolcheviques serviu de exemplo para a classe trabalhadora de todo o mundo, mostrando que a paz era mais vantajosa para os povos, ao mesmo tempo em que evidenciava que a classe operária e seus partidos podiam chegar ao poder e mantê-lo em favor da maioria da nação de cada país, bem como da paz e do progresso mundial.

Essa situação animou a classe operária de todo o mundo. No Brasil, uma grande greve operária, iniciada em São Paulo, espalhou-se por todo o País e foi o estopim do avanço da organização da classe operária que levaria à fundação do Partido Comunista (PCB), também em 1922.

Por conta da guerra e da política de submissão do Brasil aos interesses do imperialismo (que se vê intensificada nos dias atuais), houve um crescimento das exportações, nos primeiros anos da guerra, para os países da Entente, e ocorreu uma falta de produtos alimentícios no Brasil. Esse fato, aliado com a recorrente desvalorização da moeda, parte da política de defesa do café, fez com que o custo de vida subisse 189% entre 1914 e 1923, enquanto o salário subiu apenas 71%. Ou seja, uma profunda desvalorização salarial em favor do enriquecimento dos capitalistas nacionais e estrangeiros.

O salário médio da classe operária brasileira era naqueles anos de cerca de 100 mil réis, o que representava a metade do valor necessário para manter as despesas de uma família operária média, estimadas em 200 mil réis. Essa situação serviu de estopim para a espetacular greve geral, iniciada entre os operários têxteis da região da Mooca e que se espalhou por toda a cidade, paralisando mais de 70 mil operários. A mobilização foi duramente reprimida pelas forças de repressão, inclusive, com a morte do operário anarquista e sindicalista espanhol José Martinez, e se espalhando por várias regiões do País, no que foi a sua primeira greve geral.

Em seguida, foi organizado o Comitê de Defesa Proletária. A polícia não conseguia conter os trabalhadores. A sedição se espalhou e o governo foi obrigado a abandonar a Cidade. A greve logo atingiria outros Estados. No Rio Grande do Sul a greve foi geral e os trabalhadores tiveram suas reivindicações atendidas. O mesmo ocorreu em São Paulo devido à enorme força do movimento de massas. A greve deu lugar a uma ação inédita da vanguarda operária que, em poucos anos, formaria o Partido Comunista. Organiza-se a primeira tentativa de insurreição proletária, que fracassa naturalmente devido à imaturidade da organização proletária e pelas condições políticas, mas que vive como um marco na evolução da luta de classe do proletariado brasileiro.

A greve deu lugar a um avanço na organização proletária e indicava a evolução da situação do País em um sentido revolucionário. A burguesia procurava se reorganizar para enfrentar o ascenso operário diante do perigo da situação, com o regime político assumindo características ainda mais reacionárias, de intensa repressão sobre o movimento operário e com o governo seguinte colocando o País em Estado de sítio.

Nessas condições de intensa crise do conjunto do regime político, era preciso que todas as ideias novas fossem combatidas, uma vez que representavam ou podiam representar um perigo aos olhos da classe dominante, como uma expressão das tendências presentes a que a situação evoluísse no sentido de uma revolução social. Esse combate da burguesia às novas ideias precisava ser feito em todos os terrenos e as ideias dos artistas modernistas não podiam ser bem recebidas por aqueles que representavam o passado e a vontade de que tudo permanecesse como era antes.

Oswald de Andrade e o “futurismo”

As ideias inovadoras extrapolavam os limites estabelecidos pelos de cima e pelos seus críticos da venal imprensa capitalista.

Pela sua amplitude, as expressões do novo, da mudança, do sentimento revolucionário que se desenvolvia na sociedade, se manifestava, ainda que embrionariamente, em diversos setores das artes. Contudo, sem dúvida alguma, e pelo seu caráter mais amplo, então, o principal foco de descontentamento com a ordem estabelecida no mundo cultural se deu no campo da literatura. 

Um caso destacado foi o de Oswald de Andrade, que trouxera da Europa, havia alguns anos, a “novidade” do futurismo. Em 1912, ele retorna da Europa, influenciado pelo futurismo, afirmando que “estamos atrasados cinquenta anos em cultura, chafurdados ainda em pleno parnasianismo”.

Oswald publicou, em maio de 1921, no Jornal do Comércio, um artigo intitulado “Meu poeta futurista”, a respeito do livro inédito de Mário de Andrade, Paulicéia desvairada, que expressa a radicalização do movimento da arte moderna. Trata-se de um poema inovador que Oswald de Andrade o classificaria como futurista, com ritmo estranho, forma nova e frase arrojada, comparável aos poemas de Paul Fort, Claudel, Vildrac e Goldoni.

O artigo, além de elogiar o autor, ressalta a nova estética e serve para dar fama ao novo poeta, levando o para a história de nossa literatura, apesar dos resultados desastrosos para o poeta, quase que imediatamente.

Os leitores foram instigados pela direita obscurantista a verem no artista um verdadeiro maluco. Mário de Andrade, que era professor no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, depois de ser insultado por setores da burguesia paulistana, por outros artistas e até pela própria família, começou a perder seus alunos, quase todos filhos da classe dominante que não queriam ver seus herdeiros influenciados por aquele “futurista”.

Mesmo diante de uma tentativa de retratação de Mário de Andrade, que escreveu uma resposta ao artigo de Oswald intitulado  “Futurista?!”, no qual pede para que o deixem em paz, pois ele aspira apenas ao silêncio e não teve intenção de ofender ninguém, Oswald de Andrade não se detém. Passa a defender a existência de um futurismo paulista. E passa a divulgar poemas que ele considera futuristas como “Canções gregas” de Guilherme de Almeida; “Os pássaros de aço” de Agenor Barbosa; “Angústia de Don Juan”, de Menotti del Picchia.

Mário de Andrade e Oswald de Andrade, vão se tornar amigos e ser dois grandes líderes da primeira geração do modernismo brasileiro.

São muitos os outros antecedentes do movimento modernista que vai ganhar corpo na Semana de 22, dentre outros, destacamos os mais conhecidos:

Em 1913, Lasar Segall, pintor lituano radicado no Brasil, realiza – nas palavras de Mário de Andrade – “a primeira exposição de pintura não acadêmica em nosso país”;

Em 1914, realiza-se a primeira exposição de pintura de Anita Malfatti, que trouxe da Europa influências pós-impressionistas;

Em 1917, o próprio Mário de Andrade, sob o pseudônimo de Mário Sobral publica “Há uma gota de sangue em cada poema”, protestando contra a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), No mesmo ano, Manuel Bandeira lança o livro “A cinza das horas” e Menotti Del Pichia publica “Moisés” e “Juca Mulato”, poemas regionalistas que alcançam sucesso junto ao público.

Surgem expressões do que viria a ser chamado de Modernismo por todos os lados da atividade cultural. O  músico francês Darius Milhaud, que vive no Rio de Janeiro, entusiasma-se com maxixe, samba e os chorinhos de Ernesto Nazareth, se encontra com Villa-Lobos. O então jovem compositor, já impressionado com a descoberta de Stravinski, entra em contato com a moderna música francesa.

Em 1919, é publicado “Carnaval”, de Manuel Bandeira, contendo os “criminosos” versos livres.

Modernismo

O “futurismo”, principalmente, paulista, passa a ser chamado por muitos artistas de Modernismo.

Já em 1921, no Banquete no Palácio Trianon (em São Paulo), em homenagem ao lançamento de “As máscaras”, de Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade faz um inflamado discurso, saudando a chegada da revolução modernista em nosso país.

Nele, Oswald celebra que São Paulo, “a cidade que… ulula uma desconhecida harmonia de violências humanas… de lutas… o riquíssimo material das suas sugestões e a persuasão imperativa das suas cores e linhas”, é a cidade “que pede romancistas e poetas, que impõe pasmosos problemas humanos e agita… as profundas revoluções criadoras de imortalidade.” “E se São Paulo pode neste dia fazer a tua festa… é porque São Paulo atingiu a primeira inquietação de uma etapa vencida. Daqui, para diante!”

Na próxima edição desse Diário, seguimos com as importantes iniciativas que vão resultar na realização da Semana de Arte Moderna, em São Paulo.

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