É incrível a capacidade dos identitários para subverter qualquer assunto, inclinar, desviar do foco e tirar conclusões equivocadas, como no artigo “Quem manda no esporte brasileiro e desenha de fato suas políticas e diretrizes?”, de Djamila Ribeiro, publicado na Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (9).
O texto inicia dizendo que “se ‘escravos de US$ 40 milhões’ têm pouco ou nenhum poder sobre a própria carreira, quem desenha as diretrizes, a política e a gestão do esporte brasileiro? Vimos na coluna passada como a ascensão de atletas negros não se traduz em poder de decisão e como o fosso é ainda mais profundo para as mulheres. Ficou a promessa de avançar para as políticas de Estado.”
Para começar, isso só pode ser uma hipérbole, pois dificilmente algum atleta que receba 40 milhões de dólares poderá ser considerado um escravo, por menos que tenha poder sobre sua carreira, sempre condicionada por contratos e num mundo empresarial extremamente ditatorial.
Todos sabem que quem desenha as diretrizes do esporte é o grande capital, e este é mais incisivo conforme o esporte seja mais relevante, como no futebol.
No mundo dos negócios, nenhum atleta terá poder de decisão, e aqui importa muito pouco a cor da pele. As mulheres, também é sabido, recebem bem menos que os homens, mesmo as de elite. O mercado esportivo masculino gera receitas de direitos de transmissão e patrocínios infinitamente maiores do que o feminino devido à demanda do público, daí os salários.
A autora diz adiante que “para prosseguir, [teve] que transcender um pessimismo particular. Foi inevitável pensar: de que adianta escrever sobre políticas de Estado quando um pensamento masculinista e entreguista dá as cartas no país?” O “masculinismo” no esporte é dado pela própria biologia, visto que é necessário, além da habilidade, muita força na maioria deles. Quanto ao entreguismo? A pergunta não faz sentido.
Subitamente, Djamila Ribeiro dá uma guinada e escreve o seguinte parágrafo: “Infelizmente, não é exagero. As revelações sobre as relações de Daniel Vorcaro com homens do poder produziram em mim um profundo desânimo. Mulheres reduzidas a garotas de programa, aliciadoras e testas de ferro. Bilhões de reais pulverizados, e muitos dos envolvidos ainda pedindo votos para a reeleição. Como discutir compromisso com o futuro do país num cenário desses?”
Qual é o tema agora, o “masculinismo”, a corrupção? E que isso tem a ver com os escravos de 40 milhões? O leitor fica completamente perdido.
Adiante, escreve ainda que “no debate público, a misoginia também cumpre sua função. Onde há uma caixa de comentário, haverá homens para desqualificar a crítica antes mesmo de ler. Já em relação a quem ocupa o poder no esporte, em especial no futebol, mas não só, não há adoção, de fato, de qualquer medida capaz de desafiar
a estrutura patriarcal e racista.” De modo que já não se sabe qual é o objetivo do texto.
A farsa do identitarismo
A escola identitária fez surgir uma série de “intelectuais” que precisavam pouco de argumentação, lhes bastava o “lugar de fala” e chavões que pudessem ser repetidos em momentos oportunos.
Mesmo assim, é claro que dificilmente o leitor estará preparado para algo como “frente à Matrix, o pensamento crítico é abafado. Como escreveu o poeta Thomas Gray no século 18, ‘onde a ignorância é uma bênção, é tolice ser sábio’. Por isso, o desânimo. Todavia, é ano de eleição. Em breve, candidatos estarão enfileirados em debates.”
Djamila Ribeiro diz que “deve parecer a leitores uma querela menor discutir esporte, sobretudo sob a lente feminista, quando o país está em chamas.” Mas, o problema é que ela ainda não discutiu nada.
Segundo ela, “talvez [seja] um mero capricho refletir sobre o setor que emprega milhões, financia o império das apostas, dita os horários da nação para exibir uma seleção que não pertence ao povo, e, como se isso não bastasse, escancara o fosso racial e salarial com a naturalidade de quem respira.” O assunto agora, pelo jeito, serão as bets, uma vez que o assunto está na moda e ninguém pode ficar fora disso.
A falta de sentido no texto é gritante. A autora diz que confia que “a ironia desperte alguns gatos-pingados.” E que, “desânimos à parte, seguimos. Estamos vivas hoje. Amanhã, outras virão e teremos semeado a terra.”
Nessa altura do campeonato, o leitor começa a acreditar que o problema é com ele, pois, afinal, se trata de uma filósofa. Enquanto ele é um simples mortal.
Colcha de retalhos
Não se sabe se o texto é uma crítica ou uma “lista de compras” de tópicos quentes do momento — misturando termos que geram engajamento fácil nas redes sociais (como “patriarcado”, “misoginia”, “matrix”, “entreguista”) e sem aprofundar nenhum deles. É a “escola do jargão”, onde o uso de palavras serve mais como uma espécie de sinalizador de posicionamento ideológico, não como ferramentas reais de análise.
A falta de um fio condutor é clara. A autora começa falando de poder no esporte, pula para o desânimo pessoal com um escândalo de corrupção específico (o caso do banqueiro Daniel Vorcaro), passa pela misoginia nos comentários da internet, cita o poeta Thomas Gray no século XVIII, faz referência ao filme Matrix, fala de eleições, menciona as bets e a desigualdade salarial.
O uso de clichês intelectuais, citar poetas clássicos ou fazer analogias de cultura pop (como a “Matrix”) são recursos batidos para tentar dar um verniz de profundidade ao texto.
De qualquer maneira, vale ressaltar o penúltimo parágrafo que diz literalmente o seguinte: “Para finalizar, os atletas e o futuro: quais são suas propostas para reduzir a desigualdade salarial e de investimento entre o futebol masculino e o feminino?”
A autora abre o texto usando a provocação de que os atletas (mesmo os que ganham US$ 40 milhões) são “escravos” modernos — ou seja, peças de engrenagem sem autonomia, sem poder de decisão sobre as próprias carreiras e reféns do sistema corporativo que comanda o esporte.
No encerramento, porém, muda o alvo e exige ações para reduzir a desigualdade salarial entre homens e mulheres e para pensar na transição de carreira dos atletas. Se os atletas não têm poder nem sobre o próprio destino profissional dentro dessa máquina, como se pode esperar que eles liderem ou resolvam distorções salariais gigantescas impostas pelo mercado global?





