Congelamento salarial

E-mails para parlamentares, sinal de total perda de rumo

A corrente sindical Unidade Classista, vinculada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), lançou a seguinte proposta para barrar o ataque aos servidores: o envio de e-mails.

No dia 4 de maio, a corrente sindical Unidade Classista, vinculada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), publicou, em seu sítio, uma matéria que chamou a atenção de nossa redação. Sob o título de “Congelamento salarial dos servidores federais, estaduais e municipais: mais uma vez quem paga a conta são as/os trabalhadoras/es”, o texto apresenta a seguinte proposta diante da operação criminosa da direita golpista para roubar o salário dos servidores:

Nesse momento, nossas capacidades de reação estão muito limitadas por conta da necessidade de cuidarmos da nossa saúde.

Por isso, a Unidade Classista conclama a todos aqueles que tiverem condições, enviem e-mails aos deputados para que sejam contrários à essa medida.

A medida em questão, contestada pela Unidade Classista, é o congelamento dos salários dos servidores, aprovado em votação do Senado Federal no último sábado (2). Levando isso em consideração, propomos debater ao menos três problemas que surgem da política proposta:

1 – Qual a capacidade de um e-mail impedir que a medida seja levada adiantes?

2 – Por que a capacidade de reação estaria limitada?

3 – A que se deve tamanho retrocesso político?

Um problema de classe

Não é necessário grande esforço para entender a natureza do ataque do Senado Federal, referendando a medida do presidente ilegítimo, Jair Bolsonaro, aos servidores. Trata-se de uma ofensiva da classe dominante, dos capitalistas, que detêm o suficiente controle do regime político para impor sua política ao Executivo e ao Legislativo. Bolsonaro chegou ao poder por meio de uma fraude eleitoral financiada pela burguesia, enquanto os parlamentares pegaram carona na mesma operação. Além disso, ambos são diuturnamente chantageados e corrompidos pelos capitalistas, como foi visto em todo o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff.

A burguesia já se deu conta da gravíssima ameaça que paira sobre seus negócios diante da profunda crise econômica mundial. Por isso, está buscando organizar, no Brasil e no mundo, um programa que permita a mais completa pilhagem à custa dos trabalhadores e da população em geral. O congelamento do salário dos servidores — em favor dos bancos, obviamente — é apenas uma dessas medidas, às quais se somam a carteira verde-amarela, as privatizações etc.

Compreendido esse problema, é necessário colocar a seguinte questão: Como é que um conjunto de e-mails seria capaz de barrar tamanha ofensiva? A resposta mais honesta que pode ser dada a essa pergunta é também a mais simples: de forma alguma!

A luta que precisa ser travada pela sobrevivência da população contra a ofensiva neoliberal não é uma luta para convencer a classe dominante de que suas crueldades devem conhecer um limite, mas sim uma luta para forçar os inimigos da humanidade a recuarem de seus ataques perante a mobilização revolucionária das massas. Não importam os argumentos contidos em um e-mail: o mais eloquente dos escritores será facilmente derrotado pela corrupção incessante da burguesia.

Esse caso, considerado apenas para expormos nossos argumentos, sequer, na verdade, existe. Afinal de contas, como acontece em qualquer burocracia do paquidérmico Estado burguês, esses e-mails nem chegam a ser abertos. Dizer a um coveiro, que ganha R$1,5 mil por mês, que enviar e-mails irá garantir o descongelamento de seu salário é o mesmo que lhe ensinar o caminho do matadouro!

Uma nova lenda urbana

Com a pandemia de coronavírus, surgiu, sobretudo no meio da esquerda nacional, uma nova lenda urbana: a de que seria impossível — ou, no mínimo, irresponsável e imprudente — organizar manifestações de rua enquanto o coronavírus estivesse rondando o Brasil. A lenda foi tomada como lei de maneira imediata por toda a esquerda pequeno-burguesa, que cancelou atos, congressos e eventos e decidiu enterrar-se debaixo da cama no momento em que a direita abre uma gigantesca cova para a classe trabalhadora.

A Unidade Classista embarca de cabeça nessa lenda, ao afirmar que “nesse momento, nossas capacidades de reação estão muito limitadas por conta da necessidade de cuidarmos da nossa saúde”. No entanto, a essa altura dos acontecimentos, tal colocação já não deveria ser mais permitida. Afinal de contas, já foi superada pela própria experiência dos trabalhadores.

Talvez por pura ignorância, ou pela estreiteza política típica dos agrupamentos pequeno-burgueses, desde o início da pandemia, a esquerda nacional se conformava com o demagógico isolamento social imposto pelos governadores e o utilizava como argumento para não fazer o seu trabalho — isto é, organizar o povo para reagir aos ataques da direita. No entanto, depois desse primeiro de maio, em que o PCO, no Brasil, e outras organizações pelo mundo foram para as ruas celebrar o Dia Internacional do Trabalhador, esse debate se tornou ultrapassado. É possível mobilizar o povo, mesmo em tempos de pandemia. Basta ter vontade política para isso. Na verdade, a maior imprudência que a esquerda poderia cometer — e está cometendo intensamente — é a de não organizar os trabalhadores, deixando seu destino nas mãos da classe dominante.

Uma política dependente

A insistência do PCB em, por um lado, insistir em um erro superado pela experiência da luta de classes, e, por outro, retroceder à política do lobby parlamentar do mais baixo nível — que precede às mobilizações que o País registra desde 2013 — não é, contudo, uma peculiaridade da legenda. É, na verdade, resultado da própria luta de classes — isto é, da incapacidade de agrupamentos pequeno-burgueses, desvincilhados de um programa revolucionário, acompanhar a tendência dos trabalhadores a se chocarem com o regime.

O caminho no sentido inverso — isto é, voltar para o envio de e-mails, quando a situação se encaminha para uma guerra aberta entre a população e a burguesia, entre a luta pela sobrevivência até as últimas consequências — demonstra a total dependência da esquerda pequeno-burguesa em relação à burguesia e, portanto, sua completa perda de rumo diante do desenvolvimento da situação política.

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