Se não é Fora Bolsonaro, é “fica Bolsonaro”

A derrubada do atual governo pelo movimento democrático das massas populares está na ordem do dia, e não se trata aqui da defesa de um desejo injustificado, uma quimera, mas da constatação real do anseio popular, demonstrado em grandes mobilizações e sistemáticas manifestações populares de repúdio ao conjunto da política e das personalidades deste governo.  

A questão do fora Bolsonaro, por conseguinte, impôs-se de forma natural e como questão central da situação política nacional, não podendo, portanto, ser negligenciada. Da parte da esquerda é preciso ter uma política independente, que atenda os interesse populares, caso contrário, a esquerda contribuirá de maneira decisiva para que a própria burguesia golpista de uma solução à sua imagem e semelhança para crise política evidente, que naturalmente estará diametralmente oposta aos interesses populares.

O governo reacionário e ilegítimo do fascista Bolsonaro, à cinco meses empossado, encontra-se a olhos vistos em profunda crise, e podemos dizer, em desagregação. Isso, fundamentalmente devido ao fracasso da política econômica do governo, do ponto de vista da própria burguesia e a falta de base social do governo, que não encontra apoio popular como, na verdade, gigantesco repúdio popular.

O governo não fora capaz de dar uma solução minimamente adequada a crise econômica, pelo contrário está aprofundando-a. Não pôde conter o desemprego, importante fator de crise social, ou a forte tendência a depressão econômica a que o país se caminha, etc., nem pôde até o momento aprofundar significativamente a política neoliberal, sendo até agora um continuador, ainda que mais nefasto, do golpista Temer. Somasse a isso a inabilidade política e administrativa da extrema-direita, que fica evidente pela quantidade e pelo grau de desclassificados que compõem o governo e que torna o governo uma espécie de desgoverno, o que contribui sobremaneira para acirrar os ânimos.

Isso levou todo um setor importante da burguesia golpista, que conduziu Bolsonaro ao poder, a adotar uma atitude ambígua em relação a ele, pretendem salvaguardar a política neoliberal, que consideram uma conquista do golpe, mesmo que tenham que sacrificar o governo que acabaram de colocar no poder, o que em si é uma pequena derrota. Procuram controlá-lo via Congresso, Militares e STF, mas a cada momento o governo torna-se mais odiado pela população e menos eficiente do ponto de vista da burguesia, ou seja, põem em risco todo regime edificado recentemente pelo golpe. A crise se abateu também nos de cima, na classe dominante, que está profundamente dividida e, portanto, enfraquecida.

Contudo, o governo Bolsonaro para o povo brasileiro é extremamente nocivo do ponto de vista econômico, social e político. O próprio caráter improvisado e amador, em certo sentido, do governo, constituiu para a população um elemento ainda mais negativo. Para se firmar o governo Bolsonaro (ou Mourão) terá de evoluir para uma verdadeira ditadura fascista, sua política exterior colocará o país de joelhos perante as potências e sua política econômica deixará a população com a barriga totalmente vazia por um longo e tenebroso período.

Para o movimento popular, operário, camponês, democrático, para a esquerda é uma questão vital a derrubada do governo, pois não é possível a convivência de ambos, necessariamente um deve destruir o outro. Da parte do movimento operário, popular democrático, da esquerda, não das direções, mas das bases e das massas, essa verdade fora compreendida. As massas demonstraram seu desejo e se encaminham para a luta contra o governo, pelo fora Bolsonaro.

Curiosamente, as direções de um amplo setor da esquerda, que deveriam ser a vanguarda deste movimento, se negam a chamar o fora Bolsonaro, constituindo, do ponto de vista real parte da pequena base de sustentação do governo. Formam uma frente única não oficial com o bolsonarismo e a extrema-direita contra o movimento revolucionário das massas que quer a derrubada do governo. Ao mesmo tempo, fazem uma aliança com setores da burguesia que aventam a possibilidade de uma mudança conservadora de governo via institucionalidade.

Muitas e também curiosas foram as explicações, uns afirmam que fora Bolsonaro é: “entra Mourão”, o que seria trocar seis por meia dúzia, e que, portanto: “fica Bolsonaro”. Essa conclusão evidentemente é falsa, da parte de uns por confusão, da parte de outros uma política estratégica. Muitas das direções que se recusam a levantar a palavra de ordem de fora Bolsonaro, trabalham em conjunto com um setor da burguesia para justamente chegar a esse resultado, a substituição de Bolsonaro por Mourão, trata-se assim de desarmar o movimento popular de uma alternativa independente e deixar que a burguesia resolva a crise pelas sua próprias instituições de maneira “pacífica” tendo como horizonte as futuras eleições.

O fora Bolsonaro deve ser concebido como parte de uma política democrática das massas populares, do seu programa democrático; em que esta palavra de ordem é apenas um dos aspectos, ainda que central. As massas devem também dar a solução democrática para o problema na medida em que tenham força para isso, como por exemplo, eleições gerais.

Todavia, seja como for, a derrubada do governo efetuada pelas massas fortalece e dá ânimo o movimento democrático das massas e enfraquece a burguesia golpista e o regime golpista de conjunto. Ainda que as manobras da burguesia, auxiliados pela esquerda surtam efeito e levem o desfecho a institucionalidade, as massas vitoriosas odiaram tanto o novo governo, quanto o anterior, pois a política será a mesma e a crise se dará com maior intensidade, pois embalada pela vitória popular.

Contudo, o “fica Bolsonaro”, ou seja, não impulsionar a mobilização das massas populares na luta pela derrubada do governo pode resultar na desorganização do movimento popular e de sua perspectiva independente e com isso o auxilio a manobra da burguesia, se essa se efetivar, ou permitir com um impasse prolongado que o governo Bolsonaro se reagrupe e se articule com a burguesia de conjunto por detrás de uma saída fascista, com uma agressividade maior contra os trabalhadores. O momento é agora: fora Bolsonaro! Por uma saída democrática decidida pelo povo: eleições gerais já! Lula candidato!

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