Enquanto os ajustes fiscais não param de acontecer e os trabalhadores vêem seus direitos sendo aniquilados e os preços de itens básicos aumentando cada vez mais, o governo de Jair Bolsonaro continua concedendo regalias e mantendo privilégios para apenas uma parte da população brasileira, no caso os militares. Estima-se que no próximo ano, os recursos destinados ao Ministério da Defesa, pasta comandada pelo general Fernando Azevedo, superem aqueles destinados à Educação, e o governo segue tirando até mesmo recursos de outras áreas para destinar aos militares, como é o caso da proposta do adiamento, o segundo seguido, da realização do Censo, em que grande parte dos R$2 bilhões que seriam utilizados para a pesquisa deverão ser destinados ao Ministério da Defesa.
Mas estas não são as únicas regalias que os militares estão recebendo do governo. Ao mesmo tempo em que o Ministério da Economia e todo o governo defendem os cortes de gastos em áreas importantíssimas para a população como a Educação e a Saúde – que apesar do governo fingir não ver, ainda estamos em meio a uma pandemia – quando se trata das alas privilegiadas e prestigiadas do presidente não há nenhum rombo orçamentário e nenhuma necessidade de cortes de gastos. Enquanto o salário mínimo não terá aumento real para os trabalhadores em 2021, o Ministério da Defesa conseguiu um aval para que integrantes do governo que pertencem às Forças Armadas, ou seja, a grande maioria dos integrantes do governo, possam acumular remunerações que ultrapassem o teto do funcionalismo público, que é de R$39 mil, o equivalente ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Com a regra antiga, aqueles que fizessem parte do governo e tivessem mais que uma fonte de renda deveriam ter todos seus rendimentos limitados á R$39 mil, mas com a nova regra o teto seria para cada fonte de renda, ou seja, cada salário recebido não poderia ultrapassar o teto estipulado, podendo assim acumular ainda mais, como seria o caso de Bento Albuquerque, militar e Ministro de Minas e Energia, que passaria a receber R$65 mil de salário bruto apenas com as remunerações básicas.
Vale ressaltarmos que os oficiais das Forças Armadas comandam nove ministérios e são a maioria do Planalto, e os integrantes das Forças Armadas tiveram recentemente um reajuste que pode chegar a 73%, com a bonificação concedida por cursos feitos ao longo da carreira, o chamado “adicional de habilitação” que somente entre os meses de julho, quando entrou em vigor, até o fim do ano deverá custar aos cofres públicos um custo de R$1,3 bilhão, isso em meio a uma pandemia e crise econômica mais críticas dos últimos tempos e enquanto os servidores públicos de outras categorias são recorrentemente atacados com ameaças de congelamentos de salários entre outras medidas de austeridade.
O tratamento que Bolsonaro faz com os militares e as Forças Armadas reforçam duas constatações, primeiro que a preocupação da direita com as contas públicas e o então rombo orçamentário não passam de uma grande demagogia para atacar os trabalhadores e ao mesmo tempo garantir privilégios de classe no meio da crise, como é o caso dos militares além dos grandes capitalistas como os banqueiros e todos aqueles do sistema financeiro. Por outro lado, mostra também que nunca houve e não há discordâncias entre os militares e Bolsonaro, muito pelo contrário do que se chegou a acreditar a esquerda pequeno burguesa, de que os militares poderiam derrubar Bolsonaro ou colocá-lo na linha, na verdade o que vemos é uma total concordância com as suas políticas genocidas e todos os ataques contra os trabalhadores, tudo isso para garantir suas regalias e benefícios a custo do sofrimento do povo.
Neste sentido, vemos que a derrubada de Bolsonaro não deve ser pautada na crença de que instituições como o Judiciário, a Câmara, os Militares, entre tantos outros devam fazer alguma coisa para modificar o quadro político brasileiro, pois estas alas estão em comum acordo de deixar Bolsonaro no poder, a queda do governo se dará apenas através de uma frente única contra a extrema direita e com a mobilização dos trabalhadores pelo Fora Bolsonaro e todos os golpistas.



