O segundo dia de atividades do XII Congresso Nacional do Partido da Causa Operária (PCO) contou com o debate sobre o informe político nacional e o informe político internacional. O evento contou com duas extensas exposições de representantes da Direção do Partido.
No informe político nacional, o presidente do Partido, Rui Costa Pimenta, apresentou um detalhado panorama histórico para fundamentar a tese de declínio do atual arranjo institucional brasileiro.
“O ponto de partida da análise que nós estamos fazendo da situação política é a caracterização do esgotamento do regime político”, afirmou o presidente do PCO, apontando o golpe de 2016 como o marco inicial desse processo que já dura dez anos. Segundo ele, o arranjo nascido com a Constituição de 1988 foi um pacto orquestrado para conter o ascenso operário da década de 1970, preservando a estrutura essencial da ditadura militar sob uma nova roupagem. Para ele, os direitos conquistados na transição funcionam apenas como “uma espécie de verniz sobre o edifício político da ditadura”, resultando em um regime pseudo-constitucional de alternância controlada.
O dirigente explicou que o crescimento da extrema direita reflete essa falência estrutural e que a reação do grande capital tem sido o uso de expedientes autoritários. Ele argumentou que as medidas de força adotadas pelo Judiciário não são uma reação defensiva da “democracia” em abstrato, mas sim uma tentativa de sobrevivência do próprio sistema.
“A burguesia não está trabalhando no sentido de substituir o regime. Ela está trabalhando no sentido de recauchutar o regime”, explicou, apontando o superpoder concedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) como o eixo dessa estratégia. Ele previu que essa engenharia institucional vai fracassar, tensionando a situação política até que se coloque de forma aberta o embate entre a contrarrevolução e a revolução.
A análise do cenário nacional reservou duras críticas ao Partido dos Trabalhadores (PT) e ao balanço do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Rui Costa Pimenta afirmou que o PT, outrora integrado ao regime para garantir estabilidade, hoje compartilha do mesmo esgotamento. “O balanço do terceiro governo mostra um esgotamento total da política do PT. O governo Lula não foi nem social, nem nacional e nem democrático. Ele foi exatamente o oposto de tudo isso”, disparou o presidente do PCO, citando as reformas fiscais, as concessões ao setor privado e o apoio governamental a medidas de restrição da liberdade de expressão.
A falta de personalidade da esquerda tradicional foi apontada como um fator de decomposição política. Rui ironizou o fato de setores progressistas adotarem discursos sobre a “segurança pública” e a busca por cooperação com agências dos Estados Unidos. “Quando um partido como o PT tem como uma das suas principais bandeiras eleitorais o combate ao crime organizado, nós estamos diante de uma decomposição política total do partido”, criticou. O dirigente alertou que as eleições de 2026 trarão uma nova ofensiva neoliberal de austeridade, independentemente do vencedor, e que o PCO não deve encarar o pleito como uma busca pragmática por votos. “Nós entramos na eleição para ampliar a nossa influência eleitoral, ou seja, a nossa influência política, ou seja, a influência do nosso programa político”, definiu.
Na segunda metade do dia, João Jorge Caproni Pimenta assumiu a tribuna para apresentar o informe internacional, defendendo que o imperialismo enfrenta sua maior crise desde o período entre as duas guerras mundiais, perdendo a capacidade de manter a estabilidade nas colônias e nos países centrais. Ele destacou que o posicionamento na política internacional funciona hoje como um teste definitivo para as organizações operárias. “Você pode saber do que é feito uma organização só de olhar as posições deles sobre a política internacional. É fácil”, pontuou João Pimenta, emendando que a esquerda pequeno-burguesa falha em compreender que a contradição fundamental da nossa época é a luta entre a classe trabalhadora e o imperialismo.
Para ilustrar o enfraquecimento das potências, o dirigente mencionou a instabilidade crônica na América Latina, citando a rapidez com que governos neoliberais entram em crise, e a desorganização interna nos Estados Unidos sob o segundo governo de Donald Trump. Segundo João Pimenta, essa perda de controle tem levado as potências imperialistas a transformarem suas democracias de fachada em regimes abertamente ditatoriais, marcados pelo cerceamento do direito de greve, de organização e de expressão na Europa. Ele denunciou a perseguição a movimentos de solidariedade ao povo palestino na Alemanha e no Reino Unido, acusando a esquerda identitária de pavimentar o caminho para a censura estatal. “Eles foram fazer toda uma agitação, uma campanha para proibir o chamado discurso de ódio para colocar na ilegalidade determinadas visões. E aí, quando a gente menos esperava, a luta contra o racismo virou a defesa do Estado de Israel”, criticou.
João Pimenta caracterizou a esquerda institucional como meros “gestores da política neoliberal” e apontou o surgimento de uma resistência a essa burocracia por meio de novas organizações independentes na Europa. No fechamento do informe, os dois dirigentes convergiram na tese de que a atual paralisia das massas é temporária e decorre de um frágil equilíbrio econômico global que caminha para uma ruptura iminente.
Ambos reiteraram que a tarefa primordial do PCO no próximo período não é o fetiche por ações isoladas, mas o fortalecimento da organização partidária. João Pimenta concluiu definindo a linha de atuação para o período de crise que se avizinha:
“A nossa função, e essa é a função da esquerda revolucionária internacionalmente, é travar o combate de ideias, organizar o partido, liquidar dentro da esquerda essa infiltração imperialista e, a partir daí, organizar um movimento mais amplo que permita a libertação dos povos e a revolução”.




