O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de mortes violentas intencionais desde 2012. Foram 40.775 vítimas, ou 19,1 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23).
O índice caiu 8% em comparação com 2024 e 31% diante do primeiro ano da série histórica. Considerados apenas os homicídios dolosos, a taxa chegou a 15,4 por 100 mil habitantes. O resultado ficou abaixo da meta de 16 homicídios prevista pelo governo federal para 2027.
Também diminuíram os furtos e roubos de celulares registrados pelas autoridades. O total passou de 855.113 ocorrências em 2024 para 792.284 em 2025, uma redução de 7,7%. Os roubos, que envolvem violência ou ameaça, caíram 18,6%. Em 2019, no ponto mais alto da série, foram contabilizados 1.053.433 aparelhos subtraídos.
Esses números não indicam que a violência deixou de ser um problema para a população. Mostram, porém, que a campanha segundo a qual o Brasil estaria mergulhando numa explosão incontrolável de crimes não corresponde aos próprios dados divulgados pelas instituições burguesas.
Enquanto assassinatos e roubos recuam, a violência praticada pelo Estado cresce. As polícias mataram 6.602 pessoas em 2025, aumento de 5,4% em um ano e de 55,7% durante a última década. Foram 18 vítimas por dia.
A campanha permanente do medo
A burguesia brasileira repete diariamente que o crime organizado tomou conta do País, que ninguém pode sair de casa e que as cidades estão entregues a criminosos. Cada ocorrência é transformada em prova de uma suposta situação de guerra.
Programas policiais exibem perseguições, cadáveres e pessoas presas durante horas. Jornais publicam listas das cidades mais violentas, mapas de roubos e entrevistas com policiais, promotores e defensores do endurecimento penal. Governadores disputam quem anuncia a operação mais numerosa e a compra do armamento mais pesado.
A repetição produz um estado permanente de medo entre setores da classe média. O cidadão passa a acreditar que está cercado por assaltantes e que qualquer restrição aos poderes da polícia representa uma ameaça à sua família.
Os dados gerais ficam escondidos. A queda de 31% na taxa de mortes violentas desde 2012 recebe menos destaque que um assalto filmado por uma câmera de segurança. A redução de quase 19% nos roubos de celulares desaparece diante da repetição de um vídeo registrado numa rua movimentada.
A burguesia não precisa provar que a violência aumentou. Basta repetir a afirmação até transformá-la numa certeza para o público.
O objetivo é político. O medo serve para conquistar apoio a mais repressão, mais prisões, mais vigilância, mais armas e mais dinheiro para as corporações policiais. A classe média assustada torna-se a base social de medidas dirigidas principalmente contra os trabalhadores pobres.
Quem comete e quem sofre com os crimes
O retrato apresentado pelo anuário também desmente a ideia de que toda a população está submetida do mesmo modo à violência. Oito em cada dez mortos são negros. As vítimas concentram-se entre trabalhadores pobres e moradores das periferias.
São esses setores que enfrentam principalmente as chacinas policiais. A burguesia utiliza o medo da classe média para justificar uma repressão que recai sobre uma parcela muito diferente da população.
Os mesmos agentes que deveriam proteger a população, pela propaganda da burguesia, foram responsáveis por uma em cada seis mortes violentas registradas no País em 2025.
A classe média, por sua vez, é convencida de que a ocupação policial das periferias garantirá sua segurança. Entrega seu apoio a operações de extermínio e acredita que a violência ficará confinada aos bairros pobres.
O fortalecimento do aparelho repressivo, entretanto, nunca permanece limitado ao alvo inicialmente anunciado. A polícia utilizada contra moradores das periferias também será empregada contra greves, manifestações, ocupações de terra e qualquer mobilização que ameace os interesses dos capitalistas.
Pelas mesmas estatísticas usadas para alimentar a campanha do medo, houve uma redução de 7,7% no número geral e de 18,6% nos roubos entre 2024 e 2025.
Um negócio político
A segurança pública movimenta verbas bilionárias. Empresas vendem armas, viaturas, câmeras, programas de reconhecimento facial, aparelhos de escuta e bancos de dados. Quanto maior o medo, maior a facilidade para aprovar novas compras e contratos.
A campanha também beneficia políticos que se apresentam como administradores enérgicos. Governadores divulgam vídeos de operações e prometem “caçar bandidos”. Parlamentares propõem penas maiores para crimes que já possuem punições severas.
Nenhuma dessas medidas enfrenta as causas sociais da violência. O desemprego, os baixos salários, a falta de moradia e a destruição dos serviços públicos permanecem intocados.
A burguesia não pretende acabar com as condições que empurram setores da população para os crimes. Pretende utilizar esses crimes como justificativa para aumentar seu controle sobre o conjunto dos trabalhadores.
A classe média é convidada a financiar e apoiar esse mecanismo. Paga impostos para sustentar um aparelho policial que raramente recupera seus bens, mas mata milhares de jovens pobres todos os anos.
A violência que aumenta
O dado mais revelador do anuário está na direção oposta à campanha dos jornais. A violência privada diminuiu em vários dos principais indicadores, enquanto a violência estatal aumentou.
Os homicídios dolosos recuaram 10%. Os roubos de celulares caíram 18,6%. As mortes provocadas por policiais cresceram 5,4%.
A polícia, apresentada como solução, é o setor que aumenta sua participação na matança. Em vez de questionar esse resultado, a burguesia exige mais poderes para os mesmos organismos. Ela faz o papel que é esperado dela.
A propaganda sobre uma explosão geral da violência serve para ocultar esse fato. O mantra do medo transforma a classe média em defensora de uma polícia que mata 18 pessoas por dia e mantém a população pobre sob ocupação permanente.





