Eleições 2026

Único caminho para derrotar a direita é aliar-se a ela?

Maurici de Morais transforma acusações contra Flávio Bolsonaro em defesa da reeleição de Lula, mas ignora as concessões do governo à direita

Lula e Alckmin

Em artigo publicado na segunda-feira (19), no Brasil 247, intitulado Só existe um caminho para o Brasil do futuro: Lula 13, o deputado estadual Maurici de Morais (PT-SP) apresentou sua avaliação do debate presidencial realizado pela Band no domingo (18). O parlamentar dedicou praticamente toda a coluna a criticar Flávio Bolsonaro, enumerar denúncias contra o candidato do PL e exaltar a campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

O título promete uma discussão sobre o futuro do Brasil. O conteúdo, porém, é dominado por acusações de corrupção, provocações do debate televisivo e elogios ao presidente. As propostas para um novo mandato quase não aparecem.

Maurici apresenta Lula como o único caminho para o País, mas deixa de responder a uma pergunta fundamental: que política o presidente pretende aplicar nos próximos quatro anos?

O deputado descreve Flávio Bolsonaro como um candidato despreparado, arrogante e incapaz de responder aos questionamentos feitos por Lula. Critica suas provocações e as tentativas de produzir frases de efeito para as redes sociais. Em seguida, passa às investigações relacionadas ao Banco Master, às suspeitas envolvendo o INSS e às acusações de irregularidades financeiras.

O debate da Band foi marcado justamente por esse tipo de confronto. Os candidatos trocaram acusações envolvendo familiares, corrupção e investigações policiais, enquanto temas como segurança pública, condições de trabalho, endividamento da população e política econômica ficaram subordinados à disputa pessoal.

As checagens publicadas pela Folha de S.Paulo e pelo UOL também identificaram informações falsas, exageradas ou imprecisas nas declarações dos dois candidatos. Maurici, entretanto, concentra sua atenção nas acusações contra Flávio Bolsonaro e deixa de lado os problemas da atuação de Lula.

Um dos casos apresentados pelo deputado é o financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Maurici afirma que Flávio teria recebido R$134 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, em operações suspeitas de lavagem de dinheiro.

A afirmação mistura valores diferentes. Segundo a apuração publicada pelo UOL, R$134 milhões foram solicitados para financiar o projeto cinematográfico, enquanto R$61 milhões foram efetivamente encaminhados ao empreendimento. As investigações sobre a destinação dos recursos e possíveis irregularidades continuam, sem que os valores possam ser simplesmente apresentados como dinheiro recebido pessoalmente pelo senador.

Denúncias graves não precisam ser exageradas para merecer apuração. Tampouco podem substituir a discussão política sobre as candidaturas.

O deputado também destaca o desafio feito por Lula para que os candidatos e seus familiares abrissem seus sigilos bancários, fiscais e telefônicos. O episódio ocupou espaço importante no debate, assim como as acusações envolvendo o chamado Careca do INSS e o advogado Willer Tomaz.

O problema é que esse tipo de confronto foi transformado em um dos principais elementos da campanha presidencial. O debate sobre o futuro econômico e político do País acaba reduzido a uma disputa sobre quem possui mais acusações contra o adversário.

Maurici afirma que existem dois projetos completamente distintos em disputa. Mas não explica quais compromissos econômicos e sociais diferenciariam esses projetos em questões fundamentais para a população.

A ausência é particularmente significativa quando se examina a posição adotada por Lula na reta final da campanha.

Na quinta-feira (15), durante sabatina na TV Globo, o presidente declarou ser favorável à redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos. Lula ressalvou que a medida deveria ser discutida separadamente da PEC da Segurança Pública, mas confirmou sua concordância com a redução.

A redução da maioridade penal permite examinar concretamente a relação entre a campanha petista e o programa da direita. O problema não se resolve apenas afirmando que Flávio Bolsonaro representa um projeto perigoso. É necessário esclarecer por que o governo Lula decidiu incorporar uma proposta que anteriormente combatia.

A política econômica constitui outro ponto praticamente ausente do artigo de Maurici.

O deputado apresenta a reeleição como a continuidade de um caminho para o desenvolvimento nacional, mas não discute a composição do governo, suas alianças com partidos da direita e os compromissos econômicos que poderiam ser mantidos em um novo mandato.

Lula chegou à Presidência com Geraldo Alckmin como vice e constituiu uma ampla coalizão envolvendo representantes de diferentes setores da burguesia. Essa aliança impõe questões sobre a política econômica, os gastos públicos, as privatizações e a relação do governo com o capital financeiro.

Para os trabalhadores, são problemas concretos. O salário, a jornada de trabalho, o preço dos alimentos, o endividamento e a situação dos serviços públicos não podem ser substituídos por declarações gerais sobre o futuro do País.

A reindustrialização, por exemplo, exige discutir investimentos estatais, o papel da Petrobrás, a situação das empresas privatizadas, o financiamento da produção nacional e a dependência econômica diante dos países imperialistas.

O artigo também recorda a atuação de Jair Bolsonaro durante a pandemia, incluindo sua oposição a medidas sanitárias e o apoio a tratamentos sem eficácia comprovada. Mas a crítica à atuação do governo anterior não elimina a necessidade de apresentar uma política de saúde para os próximos quatro anos. O financiamento do SUS, as filas de atendimento, os baixos salários e as condições de trabalho dos profissionais continuam exigindo medidas concretas.

O deputado prefere concentrar sua argumentação no contraste entre os candidatos, sem desenvolver esses compromissos.

Na parte final, Maurici exalta as manifestações de apoio à reeleição de Lula. Apresenta os atos públicos como demonstração de que a população estaria mobilizada em torno do presidente.

A mobilização eleitoral, contudo, não se confunde com a organização permanente dos trabalhadores.

Uma manifestação organizada para apoiar uma candidatura possui objetivos diferentes de uma greve por aumento salarial, de uma ocupação de terras por camponeses ou de um protesto estudantil contra cortes na educação. Todas são formas de ação política, mas atendem a necessidades distintas.

Ao anunciar que existe apenas um caminho para o Brasil, Maurici fecha a discussão justamente onde ela precisaria começar: nas medidas que serão adotadas, nos interesses sociais que orientarão o governo e nas condições necessárias para que os trabalhadores defendam suas reivindicações.

A disputa de decidirá quem ocupará a Presidência da República. Não decidirá, por si só, os conflitos entre capital e trabalho, a política de repressão estatal, a dependência econômica brasileira ou as condições de organização dos movimentos populares.

Esses problemas permanecerão na ordem do dia, assim como a divergência entre a conciliação com os partidos burgueses e a construção de uma política independente dos trabalhadores.

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