O escritor Ricardo Mezavila publicou nesta terça-feira (20), no Brasil 247, um artigo intitulado Se Flávio Bolsonaro vencer, a milícia sobe a rampa do Planalto. Nele, anuncia uma verdadeira catástrofe caso o candidato do PL vença o segundo turno das eleições presidenciais. O crime organizado tomaria conta do governo federal, seus integrantes seriam beneficiados por anistias, as instituições seriam entregues aos criminosos e o País mergulharia em uma onda de ataques aos direitos da população.
Para sustentar sua campanha de terror, Mezavila recorre às investigações da Polícia Federal sobre as relações entre políticos, policiais e organizações criminosas no Rio de Janeiro. O problema é que os próprios fatos apresentados pelo escritor desmentem sua argumentação. As milícias não precisam esperar a eleição de Flávio Bolsonaro para ocupar o aparelho de Estado. Elas já estão dentro dele, apoiadas em setores da polícia, da administração pública e da própria burguesia.
Na quinta-feira (15), a Polícia Federal desencadeou a oitava fase da Operação Unha e Carne, que resultou na prisão de seis pessoas, incluindo o deputado estadual Márcio Canella, do União Brasil, e o ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro Marcus Amim.
A investigação apura a atuação de uma organização criminosa que teria utilizado uma rede de postos de combustíveis para lavar dinheiro. Segundo informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), empresas investigadas movimentaram mais de R$7,6 bilhões em seis anos. A Justiça determinou bloqueios patrimoniais e a suspensão das atividades de dezenas de empresas.
A Polícia Federal também investiga relações entre Canella, integrantes de milícias e membros do Comando Vermelho. O político é apontado pelos investigadores como possível responsável pela proteção política de parte do esquema. As acusações ainda dependem de apuração judicial.
Canella também possui relações políticas conhecidas com o bolsonarismo. Em fevereiro, Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio Bolsonaro, chegou a ser anunciada como suplente de sua pré-candidatura ao Senado. A composição acabou não se concretizando.
Os fatos mostram que o crime organizado não está aguardando autorização do próximo presidente para penetrar nas instituições. Ele já possui relações com setores importantes do aparelho estatal, especialmente com as forças policiais.
A ligação entre agentes da repressão estatal e organizações criminosas é um problema muito mais profundo do que uma disputa entre duas candidaturas.
O Rio de Janeiro é a demonstração mais evidente. As milícias cresceram a partir da atuação de policiais e ex-policiais que utilizaram armas, treinamento, informações privilegiadas e relações políticas para controlar territórios e explorar economicamente a população.
Esse poder não nasceu de uma eleição presidencial. Foi construído por décadas de atuação de grupos criminosos com participação ou proteção de integrantes do próprio Estado.
Mas Mezavila não pretende discutir seriamente o problema. Seu artigo transforma uma investigação sobre a presença do crime organizado dentro das instituições em uma advertência sobre aquilo que supostamente acontecerá depois de 25 de outubro.
O escritor chega a afirmar que Canella, Rodrigo Bacellar e Marcus Amim serão anistiados ou indultados caso Flávio Bolsonaro vença. Não apresenta, entretanto, qualquer compromisso anunciado pelo candidato nesse sentido.
Flávio defende a anistia aos condenados pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. Isso é conhecido. Afirmar que ele concederá benefícios específicos aos investigados da Operação Unha e Carne é outra coisa.
Mezavila também anuncia privatizações, perseguições às universidades, censura à cultura e destruição de programas sociais. Reúne uma série de ataques possíveis em um único cenário catastrófico e apresenta tudo como consequência da derrota de Lula.
Depois de descrever o futuro com tamanha certeza, declara que não está fazendo uma previsão.
O artigo inteiro consiste em anunciar acontecimentos futuros para convencer o eleitorado de que não existe alternativa senão apoiar o candidato petista. O problema dessa política é que ela substitui a luta contra a direita pela defesa incondicional do atual governo.
Lula está há quase quatro anos na Presidência. Governa em aliança com Geraldo Alckmin e com representantes diretos da burguesia. Seu governo não acabou com as milícias, não extinguiu as polícias militares e não desmontou o aparelho repressivo responsável por massacres nas periferias.
Pelo contrário, na reta final do segundo turno, o presidente passou a defender a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos, incorporando uma das principais reivindicações da direita em matéria de segurança pública.
É uma concessão à política repressiva que, no lugar de combater as organizações criminosas, amplia o poder do Estado de encarcerar a juventude pobre.
O combate às milícias exige enfrentar suas bases materiais e institucionais. Não basta trocar o presidente da República enquanto permanecem intactas as forças policiais que alimentam essas organizações.
É necessário acabar com as polícias militares, instituições responsáveis por uma política de repressão permanente contra a população trabalhadora. É preciso defender o direito dos trabalhadores à organização e à autodefesa diante da violência policial e dos grupos armados.
Também é necessário acabar com a política de guerra às drogas, utilizada como justificativa para a militarização dos bairros populares. A legalização de todas as drogas retiraria uma das principais bases econômicas da atividade clandestina e da repressão associada ao seu combate.
Nenhuma dessas medidas aparece na campanha de terror eleitoral promovida por Mezavila.
O escritor pede que a população confie na eleição como instrumento para impedir o fortalecimento das milícias. Mas não explica como um governo que preserva o atual aparelho repressivo poderia eliminar as organizações que se desenvolveram dentro dele.
As milícias não desaparecerão por causa do resultado de uma votação.
O verdadeiro problema político está na necessidade de organizar os trabalhadores contra esse regime, defender seus direitos e construir uma força capaz de enfrentar os capitalistas e seu Estado.





