Em artigo publicado na segunda-feira (19), no Brasil 247, intitulado O porquê do voto em Lula. Descontentamento e lucidez, o ex-deputado federal Cândido Vaccarezza, antigo líder dos governos Lula e Dilma na Câmara, procurou justificar seu apoio à reeleição do presidente. Para ele, o eleitor pode estar descontente com Lula, pode reconhecer os erros do governo, pode até admitir a ausência de um programa, mas deve deixar tudo isso de lado e votar no presidente para impedir a vitória de Flávio Bolsonaro.
Vaccarezza recorre a uma declaração da cantora Ivete Sangalo para sustentar que é possível estar descontente e, ao mesmo tempo, agir com lucidez. Mas que lucidez é essa que exige dos trabalhadores o abandono de suas reivindicações para apoiar um governo que, na reta final da campanha, está incorporando abertamente o programa da direita?
O próprio Vaccarezza reconhece que faltou um projeto para o Brasil no primeiro turno. O ex-líder petista admite que o governo passou quatro anos no poder e chegou à disputa pela reeleição sem apresentar uma saída para os grandes problemas nacionais.
Mas, em vez de tirar as consequências dessa constatação, pede mais quatro anos para o mesmo governo, sustentado pelas mesmas alianças e submetido às mesmas pressões da burguesia.
O que mudaria em um novo mandato? Vaccarezza não responde.
O ex-deputado fala em reindustrialização, investimentos em infraestrutura, desenvolvimento tecnológico, educação e soberania nacional. São necessidades evidentes.
Mas quem fará isso? Um governo aliado a Geraldo Alckmin, Simone Tebet e aos representantes diretos dos grandes capitalistas? Um governo que mantém a política econômica subordinada aos banqueiros e não enfrenta o domínio do capital financeiro sobre o País?
Não basta anunciar que o Brasil precisa ser soberano. É necessário enfrentar aqueles que impedem o País de exercer sua soberania.
A reindustrialização exige um gigantesco investimento estatal, a reestatização das empresas privatizadas, o controle nacional dos setores estratégicos e o rompimento com a política de austeridade imposta pelo imperialismo. Exige colocar a Petrobrás a serviço do desenvolvimento nacional, recuperar o controle da Eletrobrás, enfrentar os bancos e interromper a sangria dos recursos públicos para o pagamento da dívida.
Nada disso aparece como compromisso efetivo da candidatura de Lula. Ao contrário, o presidente procura convencer os grandes capitalistas de que continuará administrando seus interesses. Sua campanha está cada vez mais preocupada em conquistar a confiança da direita do que em mobilizar os trabalhadores.
A capitulação ficou escancarada na quinta-feira (15), quando Lula declarou, durante sabatina na TV Globo, que é favorável à redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos.
Trata-se de uma proposta fascista, defendida há décadas pelos setores mais reacionários da política brasileira. Uma medida que ampliaria o encarceramento da juventude pobre, entregando ainda mais jovens à máquina repressiva do Estado.
Lula não apresentou essa posição por acaso. Na reta final do segundo turno, decidiu disputar com Flávio Bolsonaro quem oferece a política mais dura de repressão contra a população.
É a demonstração de onde leva a política da frente ampla: para conquistar os votos da direita, a esquerda passa a defender as posições da própria direita.
Vaccarezza publicou seu artigo quatro dias depois dessa declaração. Mesmo assim, apresenta a reeleição de Lula como uma necessidade para defender a “democracia”.
Mas que defesa da “democracia” é essa que passa pela adoção de uma das principais bandeiras da extrema direita?
A redução da maioridade penal não é uma concessão secundária. É um ataque direto à juventude trabalhadora. É fortalecer o mesmo aparelho repressivo que massacra diariamente a população das periferias.
Uma política de esquerda deveria caminhar no sentido oposto: acabar com as polícias, enfrentar a política de encarceramento em massa, legalizar as drogas e defender o direito da população trabalhadora de se organizar e se proteger contra a violência estatal.
O combate à direita não pode ser feito adotando o programa da direita.
Essa é precisamente a questão que os defensores do voto em Lula procuram esconder.
Vaccarezza também se preocupa com a situação internacional. Destaca a importância das relações comerciais com a China, critica a política de Donald Trump e aponta os riscos que a ofensiva norte-americana representa para o Brasil.
Mas não é possível enfrentar o imperialismo mantendo o País subordinado aos bancos internacionais, aos monopólios estrangeiros e aos interesses políticos dos Estados Unidos. Tampouco é possível defender a soberania nacional sem enfrentar a presença do imperialismo na política interna brasileira.
Vaccarezza lamenta, ainda, que a campanha eleitoral tenha sido dominada por acusações de corrupção, ataques pessoais e denúncias de toda espécie. Tem razão em identificar o problema. Mas é justamente a política adotada pela campanha petista que contribuiu para transformar a eleição nessa disputa sem programa.
Em vez de apresentar reivindicações capazes de mobilizar os trabalhadores, Lula aceitou disputar a eleição no terreno escolhido pela direita.
A direita acusa o PT de corrupção. O PT responde acusando a família Bolsonaro de corrupção. A direita promete mais polícia e mais prisões. Lula responde oferecendo a redução da maioridade penal. A direita fala em combater a criminalidade. O governo procura demonstrar que também pode ser implacável na repressão. É uma corrida para ver quem consegue agradar mais aos setores reacionários.
Nesse terreno, a direita leva vantagem. Afinal, a defesa da repressão, da polícia, das prisões e da autoridade do Estado é parte essencial de seu programa. Quando a esquerda abandona suas próprias reivindicações para disputar essas bandeiras, apenas fortalece seus adversários.
O resultado é uma eleição na qual os trabalhadores são chamados a escolher entre duas candidaturas que, em questões fundamentais, procuram conquistar o apoio dos mesmos setores da burguesia.
Para Vaccarezza, a solução é aceitar essa situação e votar em Lula. Para os trabalhadores, no entanto, essa política representa a continuidade de uma armadilha que já produziu sucessivas derrotas.





