Duas notícias divulgadas nesta semana mostram até onde os governos pretendem levar o controle sobre a população.
A primeira diz respeito ao acesso estatal às comunicações realizadas por aplicativos de mensagem. A segunda envolve a instalação obrigatória de câmeras voltadas para o motorista em veículos produzidos na União Europeia.
Nos dois casos, a justificativa apresentada procura tornar a medida aceitável. A vigilância das mensagens seria necessária para combater crimes. A câmera dentro do carro serviria para detectar sonolência e impedir acidentes.
A comunicação entre duas pessoas por telefone deveria ser protegida contra a interferência do Estado.
Uma mensagem enviada a um familiar, amigo, advogado, jornalista ou companheiro político não é uma declaração pública. Ela pertence aos participantes daquela conversa.
Quando o governo cria mecanismos para acessar esse conteúdo, dissolve-se a separação entre vida privada e espaço público.
A pessoa passa a comunicar-se sabendo que uma autoridade pode ler, registrar, armazenar e interpretar suas palavras.
Isso altera a própria comunicação.
O cidadão começa a escolher termos, omitir assuntos e evitar posições que possam ser mal interpretadas. Não é necessário prender todos. A consciência de que há vigilância já produz autocensura.
O poder estatal cresce justamente porque ninguém sabe quando uma conversa será examinada, quem terá acesso a ela ou como determinada frase será utilizada no futuro.
A promessa de que os dados serão consultados apenas em situações excepcionais não oferece garantia alguma. Todo mecanismo criado para casos restritos tende a ampliar sua utilização.
Uma ferramenta de investigação criminal pode ser usada contra adversários políticos, organizações sindicais, movimentos populares e jornalistas.
A história dos serviços de informação mostra isso de maneira repetida.
A vigilância dentro dos automóveis leva o problema a outro nível.
Quem controla as imagens? Elas serão armazenadas? Por quanto tempo? Empresas terão acesso? Seguradoras poderão utilizá-las? A polícia poderá requisitá-las? Sistemas de reconhecimento poderão identificar o motorista e seus acompanhantes?
A simples existência do equipamento abre todas essas possibilidades.
A justificativa de segurança não responde ao problema político.
Seria possível colocar uma câmera em qualquer espaço sob o argumento de que ela poderia salvar uma vida. No banheiro, caso alguém sofra um ataque cardíaco. No quarto, caso uma pessoa passe mal durante a noite. Na sala, para registrar uma invasão.
Levado até o fim, esse raciocínio elimina completamente a vida privada.
Os trabalhadores sofrem com baixos salários, aumento do custo de vida, destruição dos serviços públicos e guerras. A revolta social cresce em diversos países.
Os governos não respondem a essa crise melhorando as condições de vida. Reforçam a repressão.
A vigilância digital permite acompanhar greves, manifestações, organizações políticas e movimentos de oposição. Também ajuda a identificar lideranças e mapear relações entre militantes.
O controle da informação procura impedir que a revolta se transforme em organização.
Essa política é dirigida pelo imperialismo porque as principais empresas de tecnologia, os centros financeiros e os maiores serviços de informação estão concentrados nos países imperialistas.





