Toda a campanha contra Flávio Bolsonaro apoiada pela esquerda mostra-se, na realidade, uma campanha a favor da chamada terceira via e contra os candidatos mais populares. O interesse das instituições da burguesia e do imperialismo é eleger um candidato próprio, que não seja nem Flávio Bolsonaro nem Lula. Caso não consigam, procuram colocar uma arma na cabeça do próximo presidente, mantendo investigações e processos que possam ser utilizados contra ele depois da eleição.
Nesse sentido, não estranha que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tenha autorizado nessa quinta-feira (30) a abertura de um inquérito autônomo para investigar suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A decisão atendeu a um pedido da Polícia Federal (PF).
Oficialmente, a apuração pretende verificar se o filho do presidente utilizou sua proximidade com o Palácio do Planalto e o Ministério da Saúde para favorecer interesses privados ligados ao mercado de cannabis medicinal. A suspeita é de que ele tenha intermediado contatos com integrantes do governo para facilitar a liberação e a comercialização de produtos à base de canabidiol em programas públicos de saúde.
A defesa de Lulinha classificou a abertura do inquérito como “estranha” e levantou a hipótese de uma “pesca probatória”. O advogado Marco Aurélio Carvalho afirmou que seu cliente não recebeu pagamentos por negócios de empresários com o governo Lula e disse ter recebido a decisão “com tranquilidade”.
O novo procedimento foi separado da investigação sobre as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A PF havia encaminhado o pedido à presidência do STF com sugestão de distribuição livre, mas o caso foi remetido a André Mendonça sob o argumento de que havia conexão com a apuração anterior.
Os próprios investigadores, porém, concluíram que as suspeitas relacionadas a Lulinha não possuíam ligação direta com os desvios contra aposentados e pensionistas. Por isso, solicitaram a abertura de um inquérito independente.
O nome de Lulinha apareceu nas investigações no fim de 2025, depois que um ex-funcionário de Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado “Careca do INSS”, declarou à PF que os dois seriam sócios e que o filho do presidente receberia R$300 mil mensais do lobista.
A afirmação partiu de um único depoimento e não foi confirmada publicamente por outros elementos. Antunes está preso desde setembro de 2025, acusado de atuar como um dos principais operadores do esquema de cobranças fraudulentas contra aposentados.
Lulinha reconheceu que viajou a Portugal em novembro de 2024 com passagens e hospedagem pagas por Antunes. Segundo sua defesa, o objetivo foi conhecer um possível empreendimento de cannabis medicinal na região de Aveiro. Houve uma proposta de sociedade, mas o negócio não teria avançado.
A aproximação entre os dois foi intermediada pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e proprietária da RL Consultoria. Ela recebeu R$1,5 milhão de Antunes, mas negou em depoimento à PF ter repassado dinheiro ao filho do presidente. Também declarou que Lulinha não prestou serviços relacionados ao mercado de canabidiol e, por isso, não recebeu pagamentos.
Documentos apreendidos apontaram que Antunes negociou a compra de um galpão em Aveiro por 2,7 milhões de euros e pagou 100 mil euros de entrada. A PF diz pretender apurar se o empreendimento fazia parte de uma tentativa de entrar no mercado brasileiro por meio de contatos com servidores do Ministério da Saúde e integrantes do gabinete presidencial.
Para isso, a filial da CIA no Brasil pediu o compartilhamento de provas da Operação Sem Desconto, incluindo registros de contatos entre investigados e funcionários públicos.
Em fevereiro, Mendonça já havia autorizado a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha. A defesa sustenta que o material não revelou pagamentos ilícitos e usa esse argumento, além do depoimento de Roberta Luchsinger, para pedir o encerramento do caso.
O momento não é casual
A abertura do inquérito ocorre durante as convenções partidárias, iniciadas em 20 de julho e previstas para terminar em 5 de agosto. O prazo para o registro das candidaturas termina no dia 15, e a propaganda eleitoral começa em 16 de agosto. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro.
Não há motivo para tratar essa coincidência como um fato sem importância.
Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro também passou a enfrentar uma sequência de iniciativas judiciais, policiais e eleitorais. André Mendonça autorizou a PF a investigar repasses ligados ao filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro. A suspeita é de que recursos do banqueiro Daniel Vorcaro tenham sido usados para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e articulações de aliados junto ao governo norte-americano.
Flávio também foi alvo de uma representação da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, por declarações contra as urnas eletrônicas. O pedido apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral exige multa e retirada de publicações. O candidato ainda deveria prestar depoimento à PF em outra apuração, por uma suposta calúnia contra Lula.
A esquerda procura apresentar essas medidas como uma defesa das urnas e da democracia. Essa explicação não se sustenta.
Não se trata de combater o “fascismo”, proteger o sistema eleitoral ou punir a corrupção. Se esse fosse o objetivo, a ofensiva não estaria avançando ao mesmo tempo contra o principal candidato da direita e contra o filho do presidente que lidera as pesquisas.
Os ataques a Flávio Bolsonaro e a Lula estão diretamente ligados. A pressão contra um serve para legitimar os instrumentos que serão usados contra o outro.
Fracasso da campanha pela terceira via
Durante meses, bancos, fundos de investimento, grandes empresas e órgãos da imprensa fizeram campanha para que Flávio Bolsonaro desistisse da candidatura. Em seu lugar, promoveram Ronaldo Caiado e Romeu Zema como alternativas mais aceitáveis para o mercado.
Até o momento, a pressão não produziu o efeito esperado.
Segundo o Datafolha divulgado em 24 de julho, Lula aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% de Flávio. Em uma disputa direta, o presidente tem 48%, enquanto o candidato do PL alcança 43%. Flávio permaneceu estável mesmo depois da campanha para retirá-lo da disputa.
A burguesia pode ter concluído que será muito difícil impedir sua chegada ao segundo turno. Diante disso, uma das possibilidades é que a ofensiva esteja agora se deslocando para Lula, na tentativa de tirar o presidente da etapa final da eleição e abrir espaço para um candidato da terceira via.
Outra possibilidade é manter os dois sob ameaça. Processos contra Flávio, investigações sobre Lulinha, decisões do STF e operações da PF poderiam ser utilizados para chantagear qualquer um deles depois da posse.
Desde o início, o grande capital procura evitar um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Não porque os dois sejam iguais, mas porque ambos possuem milhões de eleitores e uma força política que não depende inteiramente da imprensa, dos bancos e dos acordos entre os partidos burgueses. No caso de Flávio, o apoio de Jair Bolsonaro é o que lhe dá sustentação popular na base da extrema-direita.
Caiado, Zema e os demais candidatos promovidos pelos banqueiros não possuem essa base. Para colocá-los na disputa, é necessário atacar quem efetivamente aparece nas pesquisas.
A esquerda, ao apoiar o cerco contra Flávio Bolsonaro, ajudou a legitimar os mecanismos que agora se voltam contra Lula. O inquérito sobre Lulinha deixa claro que a operação nunca foi dirigida apenas contra o bolsonarismo. Seu objetivo é impedir um segundo turno entre os dois candidatos mais populares e entregar a eleição a um representante direto da burguesia.





