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Trabalhador não vota na esquerda porque esquerda se comporta como direita

Articulista ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT), Emir Sader apresenta tese oportunista sobre a distinção entre os dois espectros da política

Lula

No artigo intitulado Esquerda e direita, publicado em seu blog no portal Brasil 247 no dia 4 de junho de 2026, o sociólogo Emir Sader tenta traçar uma linha divisória para definir os dois campos políticos no Brasil atual. O texto, contudo, revela a profunda falência teórica da esquerda pequeno-burguesa ao substituir a análise científica da sociedade por um moralismo superficial e por critérios puramente institucionais.

O argumento central de Emir Sader repousa sobre uma série de oposições binárias que reduzem a política a uma escolha de comportamento. Segundo o autor, “A esquerda está a favor dos direitos de todos os cidadãos; a direita está a favor da mercantilização de todas as relações sociais”. A partir dessa premissa, Sader elenca critérios absurdos para carimbar quem é de esquerda, chegando a afirmar que “A esquerda está a favor do Pix; a direita tenta desconhecer o Pix” e que “A esquerda está a favor da urna eletrônica; a direita está a favor da contagem manual dos votos”.

O erro fundamental dessa abordagem é a completa liquidação do critério de classe. A esquerda se define pela sua posição em relação à defesa da independência política dos trabalhadores e pela luta pela derrubada do sistema capitalista. Ao transformar o “Pix” — uma ferramenta de circulação monetária criada pelo Banco Central burguês sob a gerência de um neoliberal — ou a defesa da “urna eletrônica” em divisores de águas ideológicos, Sader rebaixa o horizonte político dos trabalhadores.

O autor prossegue em seu esvaziamento teórico ao adotar um tom sentimentalista e anticlerical de salão, afirmando que “a esquerda considera os feminicídios como um dos casos mais graves de violação dos direitos das mulheres. A direita protagoniza situações de feminicídio”, e que “a esquerda defende as crianças (…) a direita desconhece as crianças”.

Esse argumento não resiste a um minuto de honestidade intelectual. A direita não se define psicologicamente por “odiar crianças” ou por “protagonizar crimes”, mas por representar politicamente os interesses dos banqueiros, dos latifundiários e do imperialismo. A miséria, a fome e a violência que atingem as mulheres e as crianças da classe operária são subprodutos diretos da exploração capitalista. A esquerda não se diferencia da direita por ter “bons sentimentos” ou por “gostar das pessoas”, mas por apontar que a única forma de salvar as crianças e as mulheres da barbárie é organizando a força revolucionária dos trabalhadores para destruir o Estado burguês.

Essa desidratação do conceito de esquerda serve para justificar a ausência de um programa de luta. Se para ser de esquerda basta defender o gerenciamento técnico do Estado, a estabilidade das instituições democrático-burguesas e o uso de aplicativos bancários, então o Partido dos Trabalhadores (PT) não precisa combater a política neoliberal e não precisa romper com o imperialismo.

É precisamente aqui que reside a explicação para a paralisia das massas. Elas não vão sair às ruas para se mobilizar em defesa do “Pix”. Ao transformar a esquerda em uma grife de defesa do status quo institucional, intelectuais como Emir Sader desarmam o proletariado e abrem o caminho para que a extrema direita canalize, de forma demagógica, a revolta popular contra o sofrimento social.

O segundo bloco de antíteses de Emir Sader tenta desenhar uma separação absoluta entre a gestão pública e o interesse privado. Em seu diagnóstico, o autor afirma categoricamente que “a esquerda está a favor do Estado; a direita está a favor do mercado”, acrescentando logo em seguida que “a esquerda está a favor das políticas sociais; a direita está a favor dos ajustes fiscais” e que “a esquerda está a favor da esfera pública; a direita está a favor da esfera mercantil”.

Essa oposição abstrata ignora a própria natureza do Estado capitalista. O Estado não é um ente neutro que paira acima das classes sociais; ele é o balcão de negócios da burguesia. Estar “a favor do Estado” burguês, sem questionar qual classe detém o controle real de suas instituições, não é uma postura de esquerda, mas uma capitulação total diante da corrupção capitalista.

Ao afirmar que a direita é a favor dos ajustes fiscais e a esquerda das políticas sociais, o autor finge esquecer que o atual governo federal formulou, defendeu e aprovou o chamado Arcabouço Fiscal. Sob as regras desse próprio mecanismo, a equipe econômica liderada por Fernando Haddad — e agora por seu pupilo — passa os dias contingenciando e cortando orçamentos da saúde, da previdência e da educação para cumprir metas de superávit que beneficiam apenas os detentores da dívida pública.

Atribuir a defesa dos ajustes fiscais exclusivamente à direita é uma manobra retórica para esconder que o reformismo adotou a mesma cartilha econômica neoliberal, sacrificando o sustento da classe trabalhadora no altar da “responsabilidade fiscal”.

Sader escreve como se houvesse uma muralha intransponível erguida pelo governo contra o avanço do capital privado. No entanto, os fatos demonstram o oposto.

Nenhuma das grandes entregas do patrimônio nacional realizadas nos governos anteriores foi revertida. A privatização da Eletrobrás, o desmonte da Petrobrás e a entrega de refinarias continuam intocados, sem qualquer iniciativa real de reestatização. Além disso, o governo atual tem batido recordes na promoção de leilões para concessões privadas de rodovias, portos, aeroportos e ferrovias. 

Sader define a esquerda por aquilo que o governo de conciliação ataca na prática. Essa discrepância profunda entre o discurso e a ação econômica real é o que desorganiza a classe trabalhadora. O operariado não se mobiliza porque percebe que, por trás da retórica em defesa das “políticas sociais”, a estrutura econômica de espoliação e privatização montada pela direita continua operando sem sobressaltos.

No terreno da política internacional, Emir Sader tenta desenhar um cenário idílico onde a diplomacia do governo representaria uma ruptura automática com a dominação global. Segundo o colunista, “a esquerda está a favor da integração latino-americana; a direita está a favor da integração com os Estados Unidos”, arrematando com a fórmula simplista: “a esquerda está a favor dos Brics; a direita está contra”.

A tese de Sader desmorona quando confrontada com a política submissa da diplomacia lulista. O autor quer convencer o leitor de que existe uma barreira intransponível entre o atual governo e os Estados Unidos, mas esconde que, ao longo do último período, o presidente Lula passou meses flertando abertamente com o governo de Donald Trump nos Estados Unidos, adotando uma postura de conciliação, troca de gentilezas e declarações amistosas.

Quem busca a simpatia do chefe do imperialismo norte-americano não está fazendo política externa de esquerda. Está capitulando diante da pressão da maior máquina de guerra e espoliação do planeta para garantir a aceitação de seu governo pelas finanças internacionais.

O governo não adota uma postura soberana de ruptura com as imposições do capital estrangeiro. Pelo contrário, mantém o pagamento religioso dos juros da dívida externa, preserva a autonomia do Banco Central — que atua como uma sucursal de Wall Street no Brasil — e abre os recursos naturais e a infraestrutura do país para a exploração de consórcios transnacionais por meio de concessões privadas.

Enquanto Sader afirma que “a esquerda está preocupada com a situação grave que vive a Argentina”, a classe operária brasileira está preocupada com a situação grave que vive na sua própria realidade: a inflação dos alimentos e o esmagamento do salário mínimo pelo Arcabouço Fiscal.

A paralisia das massas não é um acidente; é o resultado inevitável da política de conciliação de classes que Emir Sader tenta teorizar.

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