Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou nesta sexta-feira (8), em entrevista à TV 247, que os Estados Unidos são “o pior parceiro possível” para o Brasil.
A entrevista tratou do encontro entre Lula e Donald Trump, das negociações sobre terras raras, da aproximação entre Brasil e Estados Unidos no chamado combate ao crime organizado, do caso Banco Master e da crise do regime político brasileiro.
Sobre o encontro entre Lula e Trump, Pimenta afirmou que a reunião pareceu transcorrer sem incidentes, mas avaliou que não existia motivo para a comemoração feita por setores que apoiam o governo.
“Lula foi tranquilo, aparentemente, sem sobressaltos, apesar de que a gente não sabe nada do que aconteceu lá. Pareceu tranquilo. Eu vi que o pessoal que apoia a candidatura dele festejou muito, não vi muito motivo para tanta festa assim. Até porque Trump é uma personagem meio negativa, tem um agir negativo, mas me pareceu tranquilo. Nem um grande acontecimento, mas também nada de ruim”, disse.
Questionado sobre o efeito eleitoral do encontro, o dirigente do PCO afirmou que setores da burguesia brasileira podem ter recebido a reunião como um sinal positivo. Segundo ele, ainda não existe uma decisão definitiva da classe dominante em favor de Flávio Bolsonaro, embora a situação pareça caminhar nessa direção.
“Eu acho que os setores da burguesia que estão acompanhando devem ter visto a reunião como positiva. Agora, é difícil dizer se isso vai se traduzir em apoio. Poderia ser um ponto a favor do apoio de algum setor da burguesia indeciso. Eu acho que não há uma decisão clara da burguesia até o momento de apoiar o Flávio Bolsonaro, embora pareça que a maré está virando desse lado”, afirmou.
Um dos principais temas da entrevista foi a possibilidade de um acordo entre Brasil e Estados Unidos no setor de terras raras. Pimenta afirmou esperar que o governo não avance nesse sentido. Para ele, os Estados Unidos não realizam acordos que beneficiem países como o Brasil.
“Pode ter tido discussão sobre as terras raras, é possível. O PT já deu várias indicações de que estaria disposto a negociar. Não está claro qual seria o parâmetro de trabalho com a questão das terras raras. E os Estados Unidos são o pior parceiro possível imaginável”, declarou.
Em seguida, Pimenta explicou sua avaliação sobre a relação com os Estados Unidos.
“Os Estados Unidos, como o principal país imperialista do mundo, não fazem negócios que sejam positivos para os outros. Tudo é na base da imposição, da força. É sempre um negócio leonino”, disse.
Ao comentar os investimentos estrangeiros no Brasil, Pimenta diferenciou a especulação financeira do investimento produtivo. Segundo ele, os investimentos chineses no País têm sido voltados, em maior medida, para atividades produtivas, enquanto o capital imperialista norte-americano e europeu atua de maneira predatória.
“Tem gente que põe dinheiro aqui para especulação financeira. E há uma outra parte que é investimento produtivo, digamos assim, a pessoa abre aqui uma indústria ou investe numa indústria já existente, amplia os negócios. Eu não estou vendo isso em grande medida nem dos Estados Unidos, nem da Europa. O que eu tenho visto nesse sentido de investimento produtivo é a China. Está construindo uma fábrica da BYD. Entre outros exemplos, tem muito investimento na área de energia também no Brasil”, afirmou.
Para Pimenta, os fundos financeiros imperialistas atuam principalmente por meio de privatizações, comprando empresas já existentes e retirando altos dividendos.
“Os negócios deles são todos predatórios e altamente especulativos. Não contribuem para desenvolver o País. Veja as empresas estatais privatizadas. O que o Brasil ganhou com essas privatizações? Absolutamente nada. A Eletrobrás, a maior rede de eletricidade provavelmente do mundo. Pegaram de graça. Enfiam a faca nos brasileiros, não investem, não ampliam. Se você tiver que fazer uma hidrelétrica, quem vai ter que fazer é o governo. Ninguém vai fazer. Eles não fazem absolutamente nada. Petrobrás é a mesma coisa”, declarou.
O presidente do PCO defendeu que o setor de terras raras seja controlado pelo Estado brasileiro. Segundo ele, o País deve desenvolver sua própria capacidade de mineração e processamento. Caso existam parcerias internacionais, elas devem ocorrer com países dispostos a acordos benéficos ao Brasil.
“Eu acho que deveria ser tudo estatal. O Brasil não poderia processar isso daí? Não poderia ter uma atividade industrial ligada à mineração dessas terras raras? Poderia. Mas, se fosse necessário, fazer uma parceria com países que estão dispostos a fazer um investimento que seja benéfico para o País”, disse.
Pimenta também criticou a possibilidade de participação dos Estados Unidos em programas de combate ao crime organizado no Brasil. Segundo ele, esse tipo de acordo abre caminho para a ingerência imperialista nas instituições brasileiras, como ocorreu com a Lava Jato.
“Também, na minha opinião, é uma má notícia. Eu acho que o Brasil não deveria fazer esses acordos com os Estados Unidos. Isso termina em ingerência do imperialismo na política brasileira. Para que fazer isso? Qual é a necessidade? Se você tem realmente um problema com o crime organizado, monta uma operação local. Para que precisa dos Estados Unidos? Nós vimos: essa aproximação do aparato policial e judiciário brasileiro com os Estados Unidos resultou na Lava Jato. É uma experiência amarga que o Brasil teve. Acaba com ingerência”, afirmou.
Para o dirigente do PCO, a chamada guerra às drogas fracassou. Ele defendeu a legalização como forma de acabar com a base econômica do tráfico.
“Essa guerra às drogas é uma guerra sem vitória nenhuma. Reagan inaugurou a guerra às drogas. De lá para cá, não só o comércio de drogas não diminuiu e o número de dependentes não diminuiu, como aumentou exponencialmente em todos os lugares. Basta ver o caso do fentanil hoje também nos Estados Unidos”, declarou.
Ao comentar a possibilidade de intervenção norte-americana no Brasil sob qualquer pretexto, Pimenta foi taxativo.
“Não sou favorável a que os Estados Unidos intervenham no Brasil nem para distribuir comida. Nada. Eu quero ver os Estados Unidos longe daqui. Esse Estado norte-americano é uma entidade maligna”, disse.
A entrevista também tratou do caso Banco Master e das denúncias que envolvem figuras do sistema político brasileiro. Pimenta afirmou que o caso revela a decomposição do regime político. Segundo ele, o problema não está restrito a uma figura isolada.
“O sistema político brasileiro está podre e nós sabemos que o caso do Banco Master envolve um número muito grande de pessoas do sistema político. No Congresso, nos governos, e no Judiciário já apareceram as denúncias do Alexandre de Moraes e do Toffoli. É um sistema podre. Isso é absolutamente claro. Uma coisa que eu gostaria que acontecesse é que o maior número de notícias e informações viessem à tona para que a população percebesse o nível de podridão do regime político brasileiro”, afirmou.
Pimenta também comentou a atuação do ministro André Mendonça no caso. Para ele, a transferência do inquérito pode ter feito a investigação avançar, mas não por uma razão positiva. O dirigente afirmou que Mendonça age em meio a uma disputa entre setores da burguesia, principalmente os grandes bancos.
“Surpresa, sim; positiva, não diria. A coisa é que ele está disposto a levar o negócio adiante. Mas não é por boas intenções. Eu acho que ele está fazendo a política das pessoas que estão por detrás desse inquérito, que são os bancos. Os grandes bancos nacionais”, afirmou.
Ao tratar das denúncias contra Ciro Nogueira, Pimenta avaliou que elas atingem a candidatura de Flávio Bolsonaro, mas não com a mesma força que a associação entre o PT, o governo Lula e o Supremo Tribunal Federal atinge o presidente.
“Eu acho, mas não tão poderosamente como a questão do STF está atingindo a candidatura do Lula. Tem muito menor impacto do que a questão do STF, infelizmente. Na imaginação popular, já são três anos de aliança do PT, Lula, dos ministros do Lula com o STF. Lula indicou Flávio Dino, que foi uma espécie de braço direito de Alexandre de Moraes”, disse.
Para Pimenta, a crise atual expressa o esgotamento do regime político surgido com a Constituição de 1988. Segundo ele, o desgaste não atinge apenas Lula ou o governo, mas o conjunto das instituições.
“Primeiro, eu acho que a população é muito desconfiada já do sistema político. Existe muita indicação disso. Apesar de toda a propaganda que foi feita para mostrar o STF como salvador da democracia, o STF é muito mal visto pela população. Os problemas que Lula está enfrentando na eleição têm a ver com o desprestígio do regime político de conjunto. Não é só com problemas dele, do governo dele especificamente”, afirmou.
O dirigente do PCO afirmou que uma mudança real do sistema político não virá do Congresso nem de operações judiciais. Para ele, a resposta à crise deve vir da mobilização popular.
“O que precisaria aqui é que algum fato econômico grave viesse a colocar a população em movimento. O regime não aguentaria essa mobilização porque está em verdadeira decomposição. Eu acho que nós chegamos ao fim do ciclo do regime político de 1988”, disse.
Em outro momento, Pimenta afirmou que a crise institucional só pode ser enfrentada com a ação das ruas.
“Então, eu acho que a resposta ao regime político tem que vir das ruas, não tem outro jeito. Esse cidadão do MBL vai levar adiante uma proposta que é dar poder ao Ministério Público para perseguir um ou outro desafeto político. Isso não muda nada. Precisa de uma mudança radical nas instituições do sistema eleitoral brasileiro, que é viciado, uma mudança em muitos aspectos”, afirmou.
Pimenta também comentou as acusações de antissemitismo feitas contra ele após críticas ao uso político do Holocausto por organizações sionistas. Segundo ele, sua declaração reconheceu expressamente o assassinato em massa de judeus pelo nazismo, mas criticou sua utilização para defender os crimes de “Israel”.
“Novamente acusado de antissemitismo. Eu fiz uma declaração dizendo que eles estão usando o Holocausto para propósitos políticos ilegítimos. Aí me acusaram de negacionismo do Holocausto, sendo que eu falei explicitamente que aconteceu, que a matança de judeus aconteceu, que não era falsa. Eu critiquei a instrumentalização política do fato. E eu falei que aconteceu porque eu acredito que aconteceu. Porque, se eu acreditasse que não aconteceu, eu falaria também”, declarou.





