Rui Costa Pimenta, presidente do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou, nesta terça-feira (5), durante o programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, que a tentativa de organizar uma chamada terceira via para as eleições de 2026 parte diretamente dos interesses do imperialismo e do grande capital.
A análise teve como ponto de partida um artigo publicado pela revista inglesa The Economist, que apresentou a tese de que haveria espaço no Brasil para uma alternativa entre Lula e Bolsonaro. Para Pimenta, a publicação atua como porta-voz do capital financeiro internacional e procura orientar a política dos setores dominantes no País.
“Estamos vendo que a política da terceira via, nem Lula, nem Bolsonaro, é uma política que vem diretamente do imperialismo. Quer dizer, é o mercado financeiro internacional, a The Economist é porta-voz desse mercado financeiro internacional. Está chamando a atenção dos políticos brasileiros de que seria possível essa terceira via, que há uma demanda, que as pessoas estão procurando esse caminho que é falso. Essa é uma invenção, que existe essa demanda”, afirmou.
Segundo Pimenta, a situação política brasileira não caminha para o centro, mas para uma polarização cada vez maior. O dirigente do PCO afirmou que o PT contém uma tendência popular à esquerda, enquanto o bolsonarismo contém uma tendência de direita, impedindo que essas tendências apareçam de forma ainda mais aberta.
“O que existe é uma tendência muito forte à esquerda que o PT segura. Ao invés de dar expressão a essa tendência à esquerda, ele segura essa tendência. Há também uma tendência à direita que, num certo sentido, também é segurada pelo bolsonarismo. Porque as tendências à polarização se revelariam muito mais extremas se não tivessem se materializado nesses dois partidos, nesses dois blocos políticos”, disse.
Pimenta também analisou a derrota do governo Lula na indicação de Jorge Messias ao Senado. Para ele, o episódio revelou o isolamento do PT e abalou uma das bases da candidatura de Lula, que seria a ampla rede de alianças com setores do Congresso Nacional e dos partidos de centro.
“Foi um golpe muito duro contra a candidatura do Lula. Um golpe muito duro e, segundo a imprensa, o Lula estaria, nesse momento, isolado, só com os aliados tradicionais dele, vamos dizer assim. Que seria o PCdoB, o PSOL, a Rede e o PSB do Geraldo Alckmin”, afirmou.
O presidente do PCO comparou o quadro atual com a eleição de 2018, quando a burguesia insistiu na candidatura de Geraldo Alckmin, mesmo quando ela já não apresentava condições reais de vencer. Segundo Pimenta, os grandes capitalistas podem tentar novamente sustentar uma candidatura própria.
“Bom, a gente viu na eleição de 2018 que a burguesia foi até o fim com a candidatura do Geraldo Alckmin. Mesmo quando tudo parecia e estava efetivamente perdido. O candidato não ia para lugar nenhum. Por que eles insistiram tanto numa coisa que todo mundo olhou e falou: ‘isso aí não vai dar certo nunca’? Bom, a burguesia é uma força poderosa. E, sendo assim, há uma certa dose de arrogância política”, disse.
Entre os nomes que podem cumprir esse papel, Pimenta citou Ronaldo Caiado e Romeu Zema, mas avaliou que essas candidaturas disputam mais diretamente o espaço de Flávio Bolsonaro. Caso Lula saísse da disputa, afirmou, a burguesia teria de procurar uma figura com aparência mais liberal e mais próxima da esquerda, como Ciro Gomes.
Para Pimenta, a situação do PT é agravada pelo fato de que a propaganda econômica do governo não convenceu a população. Segundo ele, o próprio lançamento de um novo programa de negociação de dívidas mostra que o governo percebeu a gravidade da situação.
“O quartel-general do PT deu vários sinais de que a situação está complicada. Por exemplo, a propaganda que o Lula vinha fazendo era a propaganda de que a economia era uma maravilha. Agora ele entrou na política de estabelecer um plano, esse plano Desenrola de negociação das dívidas da população. Quer dizer, ele passou do ‘é um mundo maravilhoso’ para ‘vamos tirar o pessoal do sufoco’. Essa mudança mostra que eles perceberam que a situação é complicada”, afirmou.
O dirigente do PCO criticou a tentativa de Lula aparecer como candidato antissistema apenas por meio de frases de campanha. Para ele, sem medidas concretas contra os grandes capitalistas, esse tipo de fala não terá grande efeito sobre os trabalhadores.
“Não acho que o pessoal vai botar fé num discurso desse, simplesmente. Isso aí teria que ser acompanhado de medidas. Ele teria que mostrar que ele vai fazer alguma coisa antissistema se ele for eleito. Tradicionalmente, ano de eleição é a época dos favores, principalmente à população trabalhadora. Lula, no entanto, esse desenrola é um desenrola bem moderado”, afirmou.
Pimenta também afirmou que tanto a base de Lula quanto a base de Bolsonaro querem uma política mais combativa. Segundo ele, a orientação para que os candidatos se aproximem do centro atende aos interesses da burguesia, mas não ao sentimento predominante entre os eleitores.
“O eleitorado quer radicalismo. Tanto o eleitorado do Lula como do Bolsonaro querem radicalismo. O pessoal está com o saco cheio do candidato bem comportado. Porque todo mundo sabe que o candidato bem comportado come na mão dos poderosos. Eles gostariam que o candidato fosse lá e soltasse o verbo, atacasse”, disse.
Na parte final do programa, Pimenta comentou a situação da guerra contra o Irã. Para ele, os Estados Unidos chegaram a um impasse: Trump não quer sair da guerra apresentando uma derrota, mas não tem condições de vencê-la.
“Olha, eu acho que o problema se reduziu a um problema político interno nos Estados Unidos. O Trump não quer sair da guerra apresentando como resultado uma derrota, mas ele também não tem como ganhar essa guerra. Então a situação fica num impasse. Na verdade, nós já temos uma situação que é praticamente o fim da operação militar norte-americana. Eles foram obrigados a interromper. O Trump tinha dado 48 horas, depois deu uma semana, depois deu dois meses”, afirmou.
Pimenta afirmou que a operação norte-americana fracassou politicamente e que o Irã demonstrou grande capacidade militar diante da ofensiva imperialista. “Pode haver novos enfrentamentos militares? Pode. Mas o fato é que a operação que os Estados Unidos levaram adiante fracassou. É impressionante isso, porque o Irã mostrou que tem uma capacidade militar extraordinária”, disse.
O presidente do PCO também explicou a posição do Partido sobre o apoio aos países oprimidos diante do imperialismo. Segundo ele, apoio incondicional não significa concordância total com um governo, mas a recusa a impor exigências para defender um país atacado.
“Quando a gente fala apoio, é preciso entender as expressões. Quando fala apoio incondicional, significa que nós não estamos colocando nenhuma condição para apoiar. Para defender um país oprimido do imperialismo, nós não colocamos condições de nenhum tipo. Porque isso já seria uma capitulação perante a ofensiva imperialista”, afirmou.





