O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou que o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva deverá promover um ajuste fiscal duro e será mais dependente da burguesia do que o anterior. Na entrevista à TV247 desta sexta-feira, 30 de outubro, o dirigente também denunciou a perseguição judicial ao bolsonarismo e defendeu que a direita seja combatida por meios democráticos.
No programa conduzido por Leonardo Attuch, transmitido às sextas-feiras, às 13h, Pimenta contestou a avaliação de que a vitória de Lula demonstraria a força do governo e da esquerda. Para ele, o resultado eleitoral expressou o desgaste do PT, que enfrentará condições mais difíceis no próximo mandato.
“Eu acho que vai haver o ajuste fiscal por tudo que eu vi na imprensa, declarações do governo, tudo. Acho que não vai ser um ajuste fiscal pequeno. Se você falou que você foi criticado, o pessoal vai ficar chocado com o que vai acontecer. E a política do Lula é uma política muito mais claramente condicionada pela burguesia, pelo chamado mercado, pelo imperialismo do que no mandato anterior. Ele é um governo muito fraco”, afirmou.
Attuch defendeu a realização de um ajuste depois da eleição, argumentando que o governo havia reduzido receitas e aumentado despesas durante a campanha. Pimenta respondeu que a dívida pública e os juros elevados serão usados pela classe dominante para impor medidas contra a população.
O dirigente rejeitou a expectativa de que Lula enfrentaria essa pressão com uma política social. Ao comentar os nomes discutidos para o Ministério da Fazenda, classificou Rafael Fonteles como “ultra neoliberal” e citou a privatização da companhia de água do Piauí. Também caracterizou Dario Durigan e Fernando Haddad como neoliberais, embora tenha considerado o último mais moderado.
A esquerda diante do ajuste
Questionado sobre a reação dos parlamentares de esquerda às medidas econômicas, Pimenta avaliou que a dependência em relação ao PT limitará sua oposição. Attuch levantou a possibilidade de uma ruptura semelhante à que deu origem ao PSOL, no primeiro governo Lula, mas o presidente do PCO considerou que essas organizações não têm condições de seguir esse caminho.
“Sem o PT, esse pessoal aí provavelmente não teria eleito muita gente, não. Eles têm muita dependência do PT. A esquerda toda está em retrocesso, ela não está avançando. A eleição mostrou isso muito claramente. Então, eu acho que o pessoal vai espernear, mas não tem condições de romper e tentar a sorte”, disse.
Pimenta afirmou que não há um crescimento independente da esquerda que acompanha o governo. Incluiu nesse balanço o próprio PT, mencionando seu desempenho no primeiro turno e nas eleições parlamentares, com a não reeleição de figuras importantes do partido.
Também contestou a força atribuída às manifestações em favor de Lula no segundo turno. Segundo ele, se os setores mobilizados tivessem o peso político anunciado, o governo não estaria preparando um pacote fiscal contrário às suas reivindicações. Considerou que muitos eleitores votaram no petista por medo de Flávio Bolsonaro, sem concordar com a política do PT.
Sobre a promessa de Lula de inaugurar uma nova maneira de governar, ouvindo a população, Pimenta afirmou que a mobilização popular contraria os acordos do governo com a burguesia.
“O Lula tem um acordo com a burguesia. Ele não vai chamar o povo para a rua, a burguesia não vai ser favorável a isso. E depois, se o povo começar a sair na rua, é perigoso até para o governo dele, com as medidas que ele está pretendendo adotar”, declarou.
Attuch recorreu aos dados de desemprego para defender o terceiro mandato de Lula, que classificou como um bom governo, mal defendido politicamente. Pimenta discordou e afirmou que as estatísticas não anulam a situação social dramática da população.
O dirigente observou que a avaliação negativa do governo também aparece entre pessoas que votaram em Lula. Para ele, o PT deveria examinar as dificuldades que enfrentou na eleição, em vez de atribuí-las apenas à propaganda bolsonarista ou a erros de campanha.
“A eleição, para o PT, foi um sinal de alerta. As pessoas têm que olhar. Se você está num lugar que tem um alarme contra incêndio, o alarme começa a tocar, você se mexe. Eu acho que esse alarme tocou para o PT, mas eu não estou vendo, da parte do PT, que eles estejam recebendo esse sinal, e eles deveriam”, afirmou.
Defesa de direitos não é apoio político
A entrevista começou com perguntas sobre a defesa dos direitos democráticos de Flávio Bolsonaro. Diante de comentários que o acusavam de apoiar o candidato do PL, Pimenta lembrou que o PCO chamou ao voto nulo no segundo turno e classificou a acusação como calúnia.
O dirigente considerou a ordem de apreensão do passaporte de Flávio, depois da eleição, uma medida de perseguição política. Segundo ele, o grupo de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) comandado por Gilmar Mendes mantém um antagonismo explícito com o bolsonarismo.
Ao ser questionado sobre a saída de Flávio do Brasil, rejeitou o argumento de que uma pessoa inocente deveria permanecer no País para provar sua inocência. Citou a prisão de Lula para demonstrar que um inocente pode ser condenado e impedido de disputar uma eleição.
“A defesa do Lula alegou o problema do foro desde o primeiro dia do processo. Foi desconsiderado na primeira instância, foi desconsiderado na segunda instância. O Lula não pôde concorrer em 2018. Ele ficou preso mais de um ano. Então, quer dizer, se você for olhar para a Justiça brasileira, não dá para ter confiança”, afirmou.
Pimenta explicou que a defesa de Lula contra a Lava Jato tampouco dependia de concordância com seu programa. Acusou seus críticos de transformar deliberadamente a defesa de direitos em apoio político à pessoa perseguida.
“Eu defendi o Lula e eu não concordo com a política do Lula. Eu não defendi o Lula porque eu concordava. Defendi o Lula porque ele estava sendo vítima de um processo judicial farsesco, injusto. E é o que eu acho no caso do Flávio Bolsonaro. E eu acho que eu tenho isenção para falar porque eu defendi o Lula”, declarou.
O presidente do PCO também comentou a exclusão do Partido do inquérito das fake news. Relatou que o bloqueio das contas partidárias nas redes sociais durou quase um ano e atingiu seu trabalho durante o período eleitoral. Informou que o PCO estuda processar o Estado pelos prejuízos sofridos.
Um possível acordo no STF
Sobre as denúncias envolvendo o Banco Master, Pimenta apontou a possibilidade de anulação do processo e de um acordo entre ministros do Supremo e setores do bolsonarismo. Em sua análise, a derrota de Flávio favoreceu o grupo do STF que se opunha à sua candidatura.
“Nós temos que entender o seguinte: a vitória do Lula é uma vitória do STF, desse grupo do STF. Eles estavam muito assustados com a possibilidade da vitória do Flávio Bolsonaro. Então, eles vão agora procurar aproveitar o fato de que o Flávio foi derrotado para ver se eles chegam num acordo com a base bolsonarista que está pedindo impeachment de ministros. E eles têm bastante voto no Senado. Então, eu acho que eles vão fazer um acordo”, afirmou.
Ao discutir a posição de Donald Trump sobre o resultado eleitoral, o dirigente considerou importante o reconhecimento norte-americano, ainda que sua ausência não tivesse consequências imediatas. Advertiu que as denúncias de ilegalidades contra Flávio poderiam ser utilizadas posteriormente como instrumento de pressão sobre Lula.
A força eleitoral do bolsonarismo
Pimenta rejeitou a ideia de que a derrota de Flávio teria encerrado o bolsonarismo. Destacou sua votação e a liderança no primeiro turno para mostrar que essa corrente mantém uma base popular expressiva.
Sobre Tarcísio de Freitas, apresentado na entrevista como o candidato escolhido pela burguesia para 2030, afirmou que o governador continua dependente do apoio de Jair Bolsonaro. Na avaliação do dirigente comunista, o ex-presidente conserva a capacidade de transferir uma grande votação ao candidato que indicar.
Pimenta também contestou a caracterização do bolsonarismo como movimento fascista. Questionou a ausência de uma mobilização organizada em defesa de Flávio depois da eleição e comparou essa situação à atuação dos camisas pretas de Benito Mussolini.
“O Mussolini não foi eleito, ele ganhou o poder quando fez a marcha contra Roma. Ele botou os camisas pretas em movimento. Ele não tinha voto. Então, o problema aqui do fascismo não é o voto. Cadê o fascismo? Onde é que está o fascismo? Desapareceu magicamente porque a eleição deu quatro milhões de votos a mais para o Lula? De jeito nenhum”, afirmou.
Questionado sobre um eventual indulto a Jair Bolsonaro, respondeu favoravelmente. Defendeu que o PT abandone a política de perseguição e procure derrotar o bolsonarismo no debate político, pois as dificuldades do próximo governo poderão fortalecê-lo.
“O bolsonarismo não vai desaparecer, ele vai crescer, e as dificuldades do governo Lula, que são óbvias, vão alimentar o bolsonarismo. Então, eu acho que o PT deveria mudar de marcha e, em vez de ter essa postura truculenta, deveria entrar no debate político e deveria combater o bolsonarismo por meios democráticos”, declarou.
No encerramento, Pimenta lembrou que a defesa de Lula contra a perseguição judicial também enfrentou resistência de pessoas que depois passaram a apoiar seu governo. Reafirmou que o PCO mantém uma posição independente diante do PT.
“A nossa posição é uma posição que vai na contramão da opinião geral. Quando a gente defendeu o Lula, não era uma coisa popular. Tem vários aliados hoje que estão no governo que eram contra. Agora, o PCO é partido da oposição, partido da classe oprimida. O pessoRui: Moraes usa derrota de Flávio para forçar um acordo com o PLal não pode esperar que a gente seja partidário de governo.”





