Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou, em entrevista à TV 247 nesta sexta-feira (29), que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas é uma medida “muito negativa” e pode abrir caminho para a intervenção norte-americana no Brasil.
No programa, o dirigente comentou a situação política nacional e internacional, abordando a ofensiva dos Estados Unidos na América Latina, a viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA, a crise na Bolívia, as ameaças contra Cuba, a guerra contra o Irã, a situação em Gaza e no Líbano e os processos contra o PCO.
Sobre a decisão norte-americana, Pimenta afirmou que os Estados Unidos não têm autoridade para definir a situação jurídica de organizações brasileiras. Para ele, a medida pode servir para aumentar a repressão contra a população pobre.
“Essa é uma medida dos Estados Unidos. O valor disso no Brasil é, até o momento, nenhum. Mas é muito negativo porque pode dar lugar à intervenção do imperialismo norte-americano no Brasil. Os Estados Unidos não têm o direito de classificar organizações brasileiras assim ou assado. Eles querem que isso tenha um valor de lei internacional. Nós não temos que reconhecer isso, absolutamente. E, de mais a mais, é absurdo também porque não são organizações terroristas em nenhum sentido da palavra. São organizações criminosas”, disse Pimenta.
O presidente do PCO afirmou que a direita tentará apresentar a medida como instrumento de combate ao crime organizado, mas o efeito real será o aumento das penas contra trabalhadores pobres.
“O que vai acontecer de fato é que gente muito pobre que por algum motivo apareça associada com essas organizações vai ter penas de prisão altíssimas. Quer dizer, vai aumentar o encarceramento das pessoas pobres. E não vai servir para nada para combater o crime organizado, porque o crime organizado não é um problema de falta de repressão estatal. Todo mundo sabe que essas organizações criminosas crescem num terreno fértil, que é a crise social brasileira, muito profunda”, declarou.
Pimenta criticou ainda a possibilidade de o governo brasileiro aceitar uma colaboração com os Estados Unidos sob o pretexto de combater o crime organizado. Segundo ele, a ideia significa uma ameaça direta à soberania nacional.
“Daqui a pouco é eleito um entreguista total e aí o governo aceita que os norte-americanos coloquem tropas no Brasil para combater o crime organizado, que agora é terrorismo. Infelizmente, a própria esquerda já entrou nessa seara. O Lula falou que queria um acordo com Trump para combater o crime organizado. Acho isso um erro gravíssimo, não faz sentido nenhum. E, com essas e com outras, nós vamos tendo a nossa soberania demolida”, afirmou.
A viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos também foi analisada por Pimenta. Para ele, a visita teve caráter eleitoral e buscou apresentar o senador como candidato apoiado por Donald Trump. O dirigente avaliou que a decisão sobre PCC e CV pode indicar uma intervenção mais ativa do governo norte-americano nas eleições brasileiras.
“A viagem do Flávio Bolsonaro é uma jogada de publicidade, logicamente. Ele quer aparecer como sendo apoiado pelo Trump. Isso tem efeito sobre parte do eleitorado. Mas é mais um elemento da campanha eleitoral. Mais grave parece ser a decisão dos Estados Unidos em relação ao problema do Comando Vermelho e do PCC. Se isso foi conseguido pelo Flávio Bolsonaro, pelo Eduardo Bolsonaro, seria uma indicação de que Trump estaria apoiando mais ativamente a candidatura do Flávio Bolsonaro no Brasil”, disse.
Pimenta afirmou que o apoio de Trump a Flávio Bolsonaro seria coerente com a política norte-americana para a América Latina. O dirigente citou a onda de governos de direita no subcontinente, como os governos de Javier Milei, na Argentina, Daniel Noboa, no Equador, e Rodrigo Paz, na Bolívia.
“O imperialismo está impulsionando uma onda de governos de direita, ao estilo Milei. Quando Milei foi eleito, a gente já destacou naquele momento que esse tipo de governo não era uma exceção, mas era o tipo de governo que o imperialismo queria, tanto que todo o imperialismo apoiou o governo Milei”, afirmou.
Ao comentar a Bolívia, Pimenta classificou a mobilização popular contra o governo Rodrigo Paz como um exemplo para os povos latino-americanos. O dirigente criticou a decisão do governo Lula de enviar ajuda humanitária ao governo boliviano.
“A mobilização na Bolívia é muito importante. Nós temos aí um ponto de referência fundamental para todos os povos latino-americanos de como enfrentar a onda neoliberal que percorre o subcontinente. O povo boliviano está dando uma resposta à altura a essa política neoliberal. Isso, que é um exemplo para o povo brasileiro, foi encarado pelo governo brasileiro como se fosse uma coisa negativa”, disse.
Segundo Pimenta, a atitude do governo brasileiro foi “extraordinariamente negativa”. Para ele, o apoio se voltou contra a luta da população boliviana.
“Aí o governo Lula decidiu mandar ajuda humanitária para o governo Rodrigo Paz, que é um governo neoliberal e antipovo. Eu sinceramente fiquei muito surpreso com essa atitude do governo. Não consigo nem explicar o que motivou o governo Lula a ter uma atitude como essa, que é contra o movimento de luta da população do continente, contra um governo entreguista, de direita, neoliberal”, afirmou.
Pimenta também analisou as ameaças dos Estados Unidos contra Cuba e a derrota norte-americana diante do Irã. Segundo ele, Trump prometeu não se envolver em novas guerras, mas acabou se chocando com a resistência iraniana.
“A ação de Trump no Irã foi um desastre para ele, total e completo. Ele pensou que iria dominar o Irã com extrema facilidade. Eles bombardearam o Irã, não conseguiram nenhum resultado e ficou uma situação desastrosa, com o Irã bloqueando o Estreito de Ormuz. Não só bloqueando: o Irã acabou tomando a decisão, com base na agressão realizada, de a partir de agora controlar a navegação no estreito. E eles têm condições de fazer isso. Esse fato foi um revés, uma derrota importante do imperialismo”, afirmou.
O dirigente defendeu que China e Rússia atuem de maneira mais decidida contra a agressividade do imperialismo. Para ele, a neutralidade diante das ofensivas norte-americanas tornou-se perigosa para esses países.
“Eu espero que os chineses e russos atuem de maneira mais decidida nessas questões internacionais. Eles têm atuado de maneira muito indireta. Agora eu acho que eles perceberam que toda essa neutralidade é perigosa para eles. Porque o alvo fundamental do imperialismo é a China. E, logicamente, é a Rússia. Os chineses e russos têm dado demonstração de que perceberam isso, estreitaram os laços, realizaram mais acordos”, disse.
Na entrevista, Pimenta também afirmou que a estrutura do Estado brasileiro foi preservada após a ditadura militar. Segundo ele, a chamada redemocratização foi conduzida por setores do próprio regime e não alterou o domínio dos grandes capitalistas e do imperialismo sobre o País.
“A estrutura do Estado brasileiro se manteve da ditadura para cá. A chamada democratização foi obra de uma parcela do pessoal político da ditadura. Eles operaram uma transição para um regime que incorporasse setores da oposição, mas não era nenhuma revolução democrática. Muito da ditadura permaneceu, principalmente, e isso que é o essencial, permaneceram os grandes capitalistas que cresceram muito sob a ditadura e o imperialismo no controle da economia e da política brasileira”, declarou.
Sobre a situação em Gaza e no Líbano, Pimenta denunciou a política de “Israel” e a cumplicidade dos governos ditos democráticos com os crimes do sionismo. Ele afirmou que a ofensiva no Líbano não parece ter conseguido atingir seus objetivos contra o Hesbolá.
“O que os sionistas estão fazendo no Líbano é uma coisa monstruosa. Não acho que isso tenha sustentação. Eles vão ter que encerrar essa operação mais cedo ou mais tarde. Estão tentando ver se conseguem atingir profundamente o Hesbolá com esses bombardeios, mas não parece que está dando certo. O impressionante é que os governos ditos democráticos todos aceitam esses crimes monstruosos do sionismo. Isso é impressionante, como eles se desmoralizam com o apoio ao sionismo”, afirmou.
Pimenta também afirmou que o Estado de “Israel” foi criado como uma operação econômica e militar do imperialismo para controlar o Oriente Médio.
“O Estado de ‘Israel’, em grande medida, é uma operação econômica. Os britânicos, que são os pais do Estado de ‘Israel’, viram a importância de ter um enclave naquela região riquíssima em petróleo. Eu nunca vi um cálculo de quanto dinheiro os países imperialistas lucraram com o petróleo do Oriente Médio. Deve ser uma coisa astronômica, impensável. E ‘Israel’ foi construído ali para garantir essa operação econômica, garantir do ponto de vista militar”, afirmou.
Na parte final da entrevista, Pimenta comentou o indiciamento dele e de Henrique Áreas pelo Ministério Público, sob acusação de racismo. O dirigente afirmou que a acusação é absurda e faz parte de uma perseguição judicial contra o PCO.
“Segundo o Ministério Público, nós seríamos antissemitas. Quer dizer, eu seria uma pessoa que odeia, em geral, os judeus. É uma coisa absurda. Mostra que nós vivemos num país onde não tem lei mais. A arbitrariedade é total. Eu sou militante de esquerda há quase 50 anos, marxista, revolucionário, comunista. Como é que a pessoa vai me indiciar por racismo? É o fim da picada. Não tem sentido nenhum. E o que eu fiz? Eu não fiz nada. Fiz o que estou fazendo aqui agora: análise política”, declarou.
Segundo Pimenta, o PCO sofre 12 processos por racismo, entre processos judiciais e inquéritos. Ele afirmou que o lobby sionista atua para impedir críticas políticas ao sionismo.
“O PCO não tem um processo só. Nós sofremos 12 processos por racismo. Doze. É uma perseguição implacável. O lobby sionista não perdoa, você não pode falar nada. Você faz uma análise política. O último processo que foi aberto foi por uma avaliação que eu fiz sobre o problema do Holocausto”, afirmou.





