O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, participou nesta quinta-feira (10) do Bruno Aiub Show. Durante a entrevista, conduzida por Bruno Aiub, também conhecido como “Monark”, foram discutidos a crise do Supremo Tribunal Federal (STF), a situação de Alexandre de Moraes, a Revolução Iraniana, o poder do imperialismo, as novas tecnologias de vigilância e a guerra no Oriente Próximo.
Logo no início, Aiub perguntou se Moraes conseguiria permanecer no Supremo diante dos escândalos recentes. Rui Costa Pimenta considerou a situação do ministro insustentável e levantou a possibilidade de uma saída negociada.
“Eu acho que sim. Acho que é insustentável a situação. […] Acho que eles vão chegar num acordo. Mas eu acho que ele tem que sair. Toda a grande imprensa está pedindo a saída dele. […] Eles vão fazer algum acordo de imunidade para ele, porque as acusações contra ele são muito graves. Então, eu acho que eles vão dar alguma garantia de que ele não vai ser processado.”
Aiub caracterizou Moraes como alguém que atuou a serviço dos setores dominantes. A partir daí, a entrevista passou a discutir quem efetivamente exerce o poder sobre os governos.
Rui Costa Pimenta apontou os bancos e os grandes grupos econômicos, enquanto Aiub apresentou sua tese de uma estrutura internacional capaz de coordenar governos, empresas e serviços de inteligência. Houve acordo sobre a existência de um poder internacional, mas não sobre sua capacidade de controlar todos os acontecimentos.
“Não é uma teoria absurda, não. Eu só não acho que eles têm uma unidade total. Acho que tem contradições.”
Essa diferença ficou evidente no debate sobre a Revolução Iraniana. Aiub sugeriu que a queda do xá poderia ter sido planejada ou estimulada por forças ligadas à própria ordem internacional. Rui Costa Pimenta rejeitou a hipótese.
Antes de 1979, o Irã era um dos principais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio. Para Rui Costa Pimenta, seria contraditório explicar a derrubada de um regime tão ligado ao imperialismo como uma simples operação dirigida pelos próprios norte-americanos.
A revolução ocorreu depois de uma grave crise econômica e política. O fim da expansão capitalista do pós-guerra, a partir de 1974, atingiu vários países e coincidiu com importantes derrotas políticas do imperialismo.
“Em 1974 o capitalismo entra numa crise muito profunda. Você vê o Brasil, por exemplo: quando é que começa o fim da ditadura militar? Justamente em 74. Em 74 tem a Revolução Portuguesa. Você tem uma recessão combinada de todos os países importantes, todos entraram em recessão, e isso encerrou a onda de crescimento que vinha depois da Segunda Guerra Mundial do capitalismo.”
O regime do xá também entrou em crise. A repressão não impediu que a população saísse às ruas e acabasse recorrendo às armas.
“O xá tinha um plano de desenvolvimento econômico do jeito dele, não era um verdadeiro desenvolvimento do Irã, mas isso tudo vai afundar e ele começa a se ver numa situação cada vez mais difícil. E aí, logicamente, um governo muito repressivo, foi um dos mais violentos do mundo, o governo do xá, a população saiu à rua, se armou, foi uma revolução para valer mesmo.”
O movimento possuía uma direção política no clero xiita. Rui Costa Pimenta ressaltou que essa corrente religiosa tinha características diferentes das instituições religiosas ocidentais e desenvolveu uma ideologia que unia religião, nacionalismo e política.
“O clero xiita não é uma entidade religiosa no sentido que a gente está acostumado a ver, não é como a Igreja Católica. É uma entidade política, eles misturam na ideologia deles a política e a religião. […] Eles elaboraram uma ideologia revolucionária, nacionalista, que está vinculada ao islamismo.”
A tecnologia pode controlar tudo?
Aiub dedicou boa parte da entrevista à hipótese de que os grandes Estados dispõem de tecnologias secretas capazes de acompanhar e prever o comportamento da população em escala mundial. Citou inteligência artificial, celulares, redes sem fio, satélites e os enormes recursos dos serviços de espionagem.
Rui Costa Pimenta não descartou a capacidade dessas tecnologias para ampliar a vigilância, mas separou a posse de informações da capacidade de transformar essas informações numa política infalível.
“Eles têm um poder muito grande de controle, de manipulação. Mas o que acontece é o seguinte: entre os seres humanos sempre há conflitos de interesse.”
Mesmo sistemas muito avançados de coleta e processamento de dados não eliminariam o elemento político.
“Uma coisa é a pessoa ter meios para conseguir as informações que eles têm e algoritmos superinteligentes para processar essas informações. Mas acontece o seguinte: a formulação da política é uma coisa que uma pessoa tem que fazer. Aí vai depender muito da experiência política, da capacidade de análise.”
Os erros sucessivos das grandes potências foram apresentados como prova de que nenhum aparelho de inteligência consegue suprimir as contradições sociais e políticas.
Irã resiste e Iêmen amplia pressão
O Oriente Médio serviu como exemplo. As previsões de que o Irã seria rapidamente derrotado pelos Estados Unidos e por “Israel” não se confirmaram.
“O Irã está enfrentando os Estados Unidos. Você vê que o pessoal achava que eles iam fazer uma operação lá em uma semana, eles iam derrubar tudo. […] São meses já. Eles falaram que a munição iraniana vai acabar, os iranianos estão tranquilos lá.”
Também foi discutida a situação do Iêmen. O Ansar Alá ampliou sua presença na costa diante das forças apoiadas pela Arábia Saudita e fortaleceu sua posição nas proximidades do estreito de Bab al-Mandab.
Ao mesmo tempo, o Irã mantém uma posição decisiva sobre o estreito de Ormuz. As duas passagens estão entre as principais rotas marítimas do planeta.
“Isso aqui, na minha opinião, é até mais grave: eles deixaram que países que não fazem parte do clube dos países dominantes do mundo controlassem duas das vias marítimas mais importantes do planeta, que é o estreito de Ormuz e agora o estreito de Bab al-Mandab, no Mar Vermelho.”
Ao observar o mapa da região durante a transmissão, Rui Costa Pimenta resumiu o problema criado para “Israel” e seus aliados:
“É um estrangulamento total.”
A China apareceu como outro elemento importante. O país mantém estreitas relações com o Irã, mas sua posição internacional não foi equiparada à das potências imperialistas tradicionais.
“Num certo sentido, a China participa dessa governança, mas ela não tem o mesmo status que têm os países imperialistas.”
Uma ‘ditadura mundial’
Aiub insistiu na expressão “governo mundial” para definir a rede de governos, grandes empresas, famílias poderosas e serviços de inteligência que atuaria internacionalmente.
Rui Costa Pimenta considerou que existe uma estrutura mundial de dominação, mas atravessada por conflitos entre diferentes setores. O Brasil ocuparia uma posição subordinada nessa ordem.
“Tem os países que, digamos assim, seriam os países vassalos, que nem o Brasil. […] Aqui a burguesia brasileira é associada com esse governo mundial, que é o governo do imperialismo. Eu só não acho que ele é total.”
Ao caracterizar essa organização internacional, foi além da definição de “governo”:
“Isso é uma ditadura mundial. O governo parece até um pouco um eufemismo. É uma ditadura. É uma ditadura muito brutal. Ela se disfarça, ela tem muita ideologia para mascarar o que está acontecendo, mas é brutal.”
As contradições dentro dessa estrutura decorreriam do próprio capitalismo e de sua divisão desigual da riqueza.
“O sistema capitalista é um sistema de escassez de recursos. Quer dizer, não tem tudo para todo mundo. Se você tivesse tudo para todo mundo, você teria uma base para uma situação pacífica, uma situação harmoniosa. Do jeito que é o sistema capitalista, isso impõe uma luta.”
Essa ordem mundial, afirmou, “tem que ser destruída, tem que ser derrubada”.
Como derrubar um poder dessa dimensão?
Aiub questionou como seria possível derrotar uma estrutura internacional dotada de tamanhos recursos tecnológicos, econômicos e militares.
A resposta foi que a força capaz de fazê-lo não poderia vir de um pequeno grupo, mas dos povos submetidos a essa dominação — inclusive os trabalhadores dos próprios Estados Unidos.
Aiub sugeriu que seria necessário primeiro explicar racionalmente a todos como funciona essa estrutura. Rui Costa Pimenta destacou que as grandes revoluções não começam dessa maneira.
“Se depender da racionalidade das pessoas isso nunca aconteceria. O que vai acontecer é uma explosão, digamos assim, até certo ponto irracional.”
Uma organização política pode intervir na crise, mas não pode fabricar artificialmente um movimento de milhões de pessoas.
“O movimento geral tem que partir de uma situação espontânea. Não dá para você articular isso. […] É como se fosse um fenômeno da natureza, uma tempestade. Então, na hora que acontecer essa tempestade política, logicamente vai precisar haver uma atuação racional, procurando direcionar essas forças para um determinado lugar.”
‘O povo entrou na história’
A Revolução Francesa apareceu no fim da entrevista como exemplo de um processo que ultrapassou os planos daqueles que inicialmente pretendiam promover mudanças limitadas.
A burguesia queria eliminar os privilégios da aristocracia, mas procurou inicialmente fazê-lo pelos meios institucionais disponíveis.
“A Revolução Francesa foi a revolução de um setor da classe dominante, que não era o setor mais dominante na época, a burguesia, os capitalistas, contra a classe dominante anterior, que era a aristocracia, seus privilégios etc. Então a burguesia na Revolução Francesa tinha uma determinada ideia. E ela tentou levar adiante essa ideia, não pela via revolucionária. Ela tentou prevalecer por vias institucionais.”
A entrada das massas alterou completamente o curso dos acontecimentos:
“Num determinado momento, como acontece sempre, a coisa explodiu. O povo entrou na história e acabou com todos os planos.”





