Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou, na Análise Política da Semana deste sábado (16), que a denúncia envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro está sendo utilizada pela grande imprensa capitalista como parte de uma operação política para enfraquecer a candidatura bolsonarista e abrir caminho à chamada terceira via em 2026.
Pimenta tratou como tema principal da semana a divulgação, pelo The Intercept Brasil, de um áudio no qual Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo o presidente do PCO, a relação de qualquer político com Vorcaro é comprometedora, mas a denúncia, tal como apresentada, não demonstra uma troca direta de favores.
“Um político, qualquer que seja, ter relações com Daniel Vorcaro é comprometedor. Seja o Flávio Bolsonaro, seja o Toffoli, seja Alexandre de Moraes. Quer dizer, você não quer ser pego em más companhias. É desmoralizante, veja-se o tamanho da crise que tem em torno do Daniel Vorcaro. Agora, o que chama a atenção, olhando objetivamente, é que na verdade é uma denúncia meio sem muita base”, afirmou.
Pimenta comparou a situação de Flávio Bolsonaro com os casos envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Para ele, uma coisa é o financiamento de uma produção privada; outra é um banqueiro entregar grandes quantias a pessoas ligadas a ministros que podem julgar processos de seu interesse.
“Uma coisa é a mulher do juiz do STF receber 100 milhões do Daniel Vorcaro, que tem interesse nos processos judiciais, a troco de nada. Outra coisa é um banqueiro financiar um filme. Alguém poderia dizer: então ele apoia o bolsonarismo, o Daniel Vorcaro. Pode ser. Eu não sei qual a posição política do Daniel Vorcaro, mas seria isso. Ele está financiando um filme que é uma iniciativa privada”, disse.
‘O nome do jogo é terceira via’
Segundo Pimenta, o elemento decisivo do caso não é a existência do áudio em si, mas a forma como a denúncia foi recebida pela grande imprensa capitalista. O dirigente afirmou que os principais órgãos da burguesia passaram a tratar o episódio como uma oportunidade para retirar de cena a candidatura de Flávio Bolsonaro e substituí-la por um nome mais aceitável ao grande capital.
“Quem mais festejou a denúncia foi a grande imprensa capitalista. E não é só isso. A própria imprensa capitalista abriu o jogo, fala claramente: a crise da candidatura do Flávio Bolsonaro abre caminho para um candidato da terceira via. Esse é o nome do jogo. Toda essa história, a gravação, a denúncia, a campanha, o nome do jogo é terceira via”, afirmou.
Para o presidente do PCO, a burguesia não quer uma disputa direta entre Lula e um candidato controlado por Jair Bolsonaro. Sua política seria tentar tirar um dos dois polos da eleição e substituí-lo por uma alternativa mais diretamente subordinada aos interesses do grande capital.
“Eles viram a oportunidade de abalar a candidatura do Flávio Bolsonaro para ver se colocam lá um candidato que seria mais submisso à política do grande capital. Essa imprensa toda é imprensa do grande capital. Eles vêm falando e defendendo a política da terceira via já há muito tempo. Todas as eleições eles falam disso”, disse.
Pimenta lembrou que o PCO já apontava essa movimentação antes da denúncia contra Flávio Bolsonaro. Segundo ele, a burguesia tentou fazer de Tarcísio de Freitas um candidato de terceira via, mas a manobra esbarrou na falta de apoio de Jair Bolsonaro.
“Nós mesmos já havíamos dito aqui que a política da burguesia na eleição era nem Bolsonaro, nem Lula. Que eles queriam um terceiro candidato. Eles tentaram fazer com que o Tarcísio fosse o candidato da terceira via, mas o Bolsonaro não apoiou a candidatura do Tarcísio e o Tarcísio recuou, porque sem o apoio do Bolsonaro ele não ia se eleger”, afirmou.
PT comemora uma manobra contra Lula
Pimenta criticou a postura de setores do PT diante da denúncia. Para ele, parte do partido avalia o caso de maneira superficial, como se a queda de Flávio Bolsonaro significasse automaticamente uma vantagem para Lula. O presidente do PCO afirmou que o resultado pode ser o oposto.
“Uma parcela do PT pensa assim: é Lula versus Flávio Bolsonaro. Se o Flávio Bolsonaro cair, é Lula. Não. Se o Flávio Bolsonaro cair, vai entrar um outro candidato no lugar. A não ser que o Bolsonaro decida substituir o filho, por exemplo, pela mulher dele, a Michelle Bolsonaro. Então a alegria é um tanto quanto prematura”, afirmou.
Segundo Pimenta, a substituição de Flávio Bolsonaro por um candidato apoiado por toda a burguesia poderia criar uma situação mais difícil para Lula do que a disputa contra o próprio bolsonarismo.
“Se o Flávio Bolsonaro ficar sem candidato, a possibilidade de derrota do Lula seria muito grande, muito maior do que é hoje, que já é grande. Porque esse candidato iria unificar toda a burguesia contra o Lula. Então, por exemplo, se o Tarcísio fosse candidato apoiado pelo Bolsonaro, a situação do Lula seria uma situação muito, mas muito, muito delicada”, disse.
Pimenta também alertou que a denúncia não necessariamente destruirá a candidatura de Flávio Bolsonaro. Para ele, o eleitorado bolsonarista tende a tratar o episódio como mais uma ofensiva contra seu campo político, de maneira semelhante ao que a esquerda fez diante da perseguição judicial contra Lula.
“O Bolsonaro tem um grande eleitorado, ele tem uma base firme. Então não é tão fácil assim modificar essa situação. Obviamente, vamos ter que esperar os próximos lances para ver em que medida a denúncia vai afetar a candidatura do Flávio Bolsonaro e quais as providências que o Bolsonaro vai adotar em relação a essa candidatura. No momento não tem nada definido. Não é razoável falar que a eleição se definiu por causa do áudio do Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro”, afirmou.
O regime político limita o governo Lula
A análise da eleição levou Pimenta a comentar a entrevista de José Dirceu a Breno Altman. Segundo o dirigente do PCO, Dirceu expôs, mesmo tentando defender o governo, a impotência do PT diante do regime político atual.
Pimenta afirmou que o problema não se limita à vontade do governo, mas ao conjunto de amarras que impedem qualquer política de desenvolvimento nacional e de atendimento às necessidades da população. Entre elas, citou privatizações, Banco Central independente e restrições ao orçamento público.
“O problema central, nesse sentido, não é tanto o PT. Na realidade, ele está certo. Não dá para governar o País. Nós chegamos a um ponto em que você ganha a eleição, mas não governa. Isso transparece claramente da entrevista. Qual é a crítica que a gente deve fazer a essa colocação? A crítica é a seguinte: o PT se submete a essas condições. Ele não questiona, ele não se opõe, ele não denuncia essa situação”, afirmou.
O presidente do PCO criticou a propaganda oficial do governo, que apresenta a situação atual como se fosse uma grande realização. Para ele, essa política enfraquece o próprio PT, pois a população sente diretamente a deterioração das condições de vida.
“Toda a propaganda do PT é: chegamos e fizemos maravilhas, está tudo maravilhoso. É essa política que está derrotando o PT. A crise do PT está nessa política, porque se tudo o que foi feito é maravilhoso, então a população olha e fala assim: isso é o que o PT tem a oferecer? O maravilhoso deles é essa situação atual? E a situação atual é uma situação onde ninguém está satisfeito”, disse.
Pimenta afirmou que a eleição de 2026 não resolverá a crise caso o PT mantenha a mesma política de adaptação ao regime.
“No próximo governo, o PT não vai ter maioria no Congresso. Não teve nunca. O Lula ganhou três eleições, a Dilma ganhou duas eleições e o PT nunca chegou nem perto de ter maioria no Congresso. Não vai ter maioria entre os governadores. O sistema eleitoral brasileiro não permite, da maneira como ele é organizado. Então, o próximo governo possivelmente vai ser um governo onde o PT vai conseguir fazer menos ainda do que está fazendo hoje, se o Lula ganhar a eleição”, afirmou.
Censura e liberdade de expressão
No início do programa, Pimenta também tratou da liberdade de expressão. O presidente do PCO comentou a defesa feita pelo partido do direito de Frei Gilson expressar suas opiniões religiosas, mesmo que o PCO discorde delas. Para ele, a reação de setores da esquerda mostra que uma parte desses setores passou a defender a censura como se fosse uma política progressista.
“Não concordamos com as opiniões do padre, muito pelo contrário. O que nós estamos dizendo aqui é que ele tem o direito de falar o que pensa. No que diz respeito às liberdades democráticas, a liberdade religiosa é uma coisa fundamental, mesmo que você não seja religioso. A supressão total da liberdade da pessoa pensar e falar o que pensa, em geral, começa com a supressão da liberdade religiosa”, afirmou.
Pimenta disse que a censura, apresentada como forma de impedir a extrema direita, não impediu o avanço eleitoral desse setor. Ao mesmo tempo, atingiu pessoas e organizações que defendem a Palestina.
“Os que defendem a liberdade de expressão não são de esquerda, os que defendem a censura seriam de esquerda. É absurdo. E é curioso porque a maioria dos setores de esquerda, em alguma medida, defende a censura por um interesse político, que é impedir a propaganda da extrema direita. O que não acontece. No Brasil está claro isso, que a censura não impede a propaganda da extrema direita”, afirmou.
13 de Maio e movimento popular
Pimenta também comentou o aniversário da abolição da escravidão, em 13 de maio. O dirigente criticou a tese, defendida por setores identitários, de que a abolição teria sido uma farsa. Segundo ele, essa posição falsifica a história nacional e apaga o papel do movimento abolicionista.
“O movimento no Brasil pela abolição da escravidão foi um amplo movimento popular, foi um amplo movimento nacional e foi um movimento de caráter revolucionário. O próprio movimento da abolição é parte integrante e eu diria até fundamental do processo de liquidação da monarquia no Brasil e do estabelecimento da República”, afirmou.
Segundo Pimenta, a abolição não acabou com o capitalismo nem com a exploração do trabalho, mas eliminou juridicamente a escravidão. Para ele, exigir que a abolição resolvesse integralmente a vida dos ex-escravos significa atribuir ao capitalismo uma capacidade que ele nunca teve.
“Todo mundo deveria saber que a libertação total do trabalhador só pode vir através do socialismo, da revolução proletária e da ditadura do proletariado. O capitalismo nunca vai libertar os trabalhadores no sentido integral”, disse.
Ataque sionista a ‘O Espinho e o Cravo’
O presidente do PCO também rebateu o ataque do jornalista Alex Solnik, do Brasil 247, ao livro O Espinho e o Cravo, de Iahia Sinuar, publicado no Brasil pela Editora Democritos. Solnik comparou o romance ao Mein Kampf, de Adolf Hitler.
Pimenta afirmou que a comparação é uma falsificação contra a resistência palestina e contra o próprio conteúdo do livro, que retrata a vida dos palestinos sob ocupação.
“O livro não tem nada de Mein Kampf. É absurdo. O livro é um romance onde o autor conta a história dos palestinos. Ele vai mostrando as coisas que aconteceram. Ele mostra como vivia uma família palestina em Gaza. E ele mostra que a família palestina vivia do auxílio da Cruz Vermelha, do fundo de auxílio das Nações Unidas, que as escolas que havia ali eram sustentadas pelas Nações Unidas, que o pessoal tinha dificuldade de conseguir sobreviver”, afirmou.
Segundo Pimenta, o livro descreve o sofrimento de um povo submetido a uma ditadura militar.
“O que o livro descreve não é nada parecido com o que a Alemanha nazista fez com os judeus. O que o livro descreve é o sofrimento intenso de um povo brutalmente oprimido por uma ditadura militar, que é a ditadura sionista, uma ditadura de caráter fascista. Quando a pessoa escreve uma coisa dessas para tentar desmoralizar o livro, nós só podemos dizer que isso é uma calúnia”, afirmou.
Nakba e origem de “Israel”
No bloco sobre os 78 anos da Nakba, Pimenta afirmou que a criação do Estado de “Israel” foi resultado da expulsão violenta de cerca de 800 mil palestinos. O dirigente apresentou um histórico da colonização sionista da Palestina, do domínio britânico ao plano de partilha da ONU e à guerra de 1948.
“O Estado de Israel, que existe hoje, foi construído sobre a base do roubo das cidades, dos bairros, das casas, das propriedades dos palestinos e sobre a base do massacre do povo palestino. Os palestinos, 800 mil pessoas, tiveram que deixar o país de medo. Como é que nós podemos ser favoráveis a um processo desse? De jeito nenhum”, afirmou.
Pimenta criticou a proposta de criação de um Estado palestino apenas nos territórios ocupados em 1967, isto é, Gaza e Cisjordânia. Segundo ele, essa proposta significaria reservar aos palestinos apenas 22% da Palestina.
“Os palestinos teriam agora que se conformar com 22% do território do seu próprio país. E as pessoas que fazem essa proposta se consideram democráticas. É uma coisa totalmente absurda. Por que eles falam de 67? Eles falam de 67 porque ninguém quer contrariar o sionismo, que abocanhou 80% do território da Palestina”, disse.
Esquerda e Estado burguês
Pimenta também comentou a reação de setores da esquerda à entrevista do PCO ao programa Redcast. Segundo ele, parte da esquerda passou a defender o Estado burguês e suas instituições como se fossem instrumentos neutros.
“Para os marxistas, o Estado é o Estado dos capitalistas. Se nós reivindicamos do Estado, por exemplo, que haja um sistema de saúde pública, é uma luta da população contra o Estado. Se nós reivindicamos que haja um sistema de educação pública, é uma luta da população contra o Estado. O Estado brasileiro nunca deu educação e saúde de bom grado. Ele deu educação pública e saúde pública porque a pressão popular era muito grande”, afirmou.
Para Pimenta, a defesa do monopólio da violência pelo Estado é incompatível com uma política revolucionária.
“Quer dizer que agora nós teríamos uma esquerda que inclusive se diz revolucionária, que defende o monopólio da violência pelo Estado. Tem que lembrar que a ditadura militar era o monopólio da violência pelo Estado. Nós, PCO, não defendemos o monopólio da violência pelo Estado. Pelo contrário, achamos que quanto mais fraco desse ponto de vista for o Estado, melhor para a população, menor a opressão”, afirmou.
Lula apoia Bachelet na ONU
Ao final do programa, Pimenta criticou a campanha do governo Lula em favor de Michelle Bachelet, do Partido Socialista chileno, para a Secretaria-Geral da ONU. O presidente do PCO lembrou que Bachelet, quando atuou como alta comissária da ONU para Direitos Humanos, atacou governos perseguidos pelo imperialismo.
“Michelle Bachelet foi secretária da ONU de Direitos Humanos. E a preocupação dela era vilipendiar partidos em países como a Venezuela, a Nicarágua, o Irã e assim por diante. Essa mulher é um braço do imperialismo, um instrumento submisso e subserviente do imperialismo”, afirmou.





