Ventos em SP e RJ

Responsável pelas tragédias ‘climáticas’ é a política neoliberal

Rajadas superiores a 100 quilômetros por hora deixaram mortos, interromperam transportes e provocaram apagões no Rio de Janeiro e em São Paulo

Rajadas superiores a 100 quilômetros por hora deixaram mortos, interromperam transportes e provocaram apagões no Rio de Janeiro e em São Paulo

Os fortes ventos que atingiram o Rio de Janeiro e São Paulo na quarta-feira (29) deixaram ao menos quatro mortos identificados, derrubaram árvores, interromperam transportes e provocaram cortes de energia em diversos bairros.

No Rio de Janeiro, duas pessoas morreram após a queda de um muro em Santa Teresa. Em Santos, no litoral paulista, um homem morreu atingido por uma árvore no Canal 6. Em Cesário Lange, no interior de São Paulo, um homem de 62 anos morreu quando outra árvore caiu sobre o carro que dirigia.

Um levantamento divulgado pelo Poder360 apontou cinco mortes nos dois estados. Como a quinta vítima não foi detalhada de maneira independente nas informações disponíveis, o número confirmado permanece em pelo menos quatro.

No Aeroporto Internacional do Galeão, na zona norte do Rio, o vento chegou a 105,5 quilômetros por hora entre 16h e 17h. Em Santa Cruz, outra estação registrou rajadas de 92 quilômetros por hora.

O Corpo de Bombeiros recebeu chamados para 26 salvamentos, quatro desabamentos e 30 quedas de árvores. Diversos bairros ficaram sem luz durante a tarde.

As três linhas do metrô foram interrompidas às 16h40. As linhas 1 e 4 voltaram a funcionar cerca de uma hora depois, mas a linha 2 permaneceu paralisada por mais tempo. A circulação dos trens também foi suspensa.

A ventania danificou a cobertura da estação Dom Bosco do BRT, em Santa Cruz, que precisou ser fechada. O Aeroporto Santos Dumont interrompeu suas operações às 16h52. A Ponte Rio-Niterói foi temporariamente bloqueada e a prefeitura decretou Estágio Dois.

Em São Paulo, a Defesa Civil emitiu um alerta severo para a capital e a região metropolitana. Foram registradas rajadas superiores a 100 quilômetros por hora em diferentes pontos do estado. O maior índice informado foi de 124,9 quilômetros por hora em Itaporanga.

Em Santos, as operações no porto e a travessia de balsas foram temporariamente suspensas.

Os ventos foram fortes, mas não explicam sozinhos a extensão da tragédia. Uma rajada derruba uma árvore; a falta de inspeção, poda e manutenção permite que essa árvore, já comprometida, esteja no meio de uma avenida. O vento atinge a rede elétrica; o sucateamento e a redução das equipes transformam o dano localizado em um apagão prolongado.

No Rio, a distribuição de energia está sob controle da Light. Em São Paulo, o serviço foi entregue à Enel depois da privatização da antiga Eletropaulo. Nos dois casos, uma atividade essencial foi posta nas mãos de empresas que organizam o atendimento segundo a rentabilidade de seus acionistas.

A Light atribuiu os cortes a uma ocorrência externa ao seu sistema. A explicação não elimina sua responsabilidade. A função de uma distribuidora não é operar apenas em dias de tempo estável. Ela deve manter redes resistentes, equipes suficientes e capacidade de resposta para chuvas, ventanias e quedas de árvores.

A situação da Enel em São Paulo já mostrou o resultado da privatização. Após temporais, bairros inteiros permanecem sem energia durante horas ou dias. A empresa economiza em manutenção e trabalhadores, enquanto a população paga tarifas elevadas por um serviço que entra em colapso diante de acontecimentos previsíveis.

As prefeituras seguem a mesma política. Reduzem equipes próprias, terceirizam a poda de árvores, abandonam a manutenção urbana e entregam obras a empresas privadas. Quando ocorre uma morte, apresentam o caso como uma fatalidade causada pela natureza.

Os transportes também funcionam sem margem de segurança. Metrôs, trens, aeroportos, balsas e corredores de ônibus são paralisados ao mesmo tempo porque faltam investimentos, estruturas de proteção e planos capazes de manter a circulação em situações adversas.

Não é possível impedir a formação de uma ventania. É possível impedir que árvores sem manutenção caiam sobre pessoas, que redes elétricas frágeis deixem bairros inteiros no escuro e que todos os meios de transporte entrem em colapso.

As mortes e os apagões são resultado da combinação entre um fenômeno natural e uma política determinada: privatizações, corte de gastos, terceirizações e sucateamento dos serviços públicos. O chamado desastre climático expôs, mais uma vez, o desastre permanente produzido pelos governos neoliberais.

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