O inglês The Economist publicou, no domingo (31), um perfil de Renan Santos que deixa bastante claro qual candidato desperta a maior simpatia do principal setor do capital financeiro internacional. O fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) aparece como inteligente, estudioso, corajoso ao defender medidas impopulares e capaz de oferecer uma alternativa ao bolsonarismo.
Enquanto ele procura vender a imagem de rebelde contra o sistema, recebe uma sucessão de afagos de uma das mais tradicionais porta-vozes dos banqueiros e grandes empresários internacionais.
O título já prepara o terreno. Renan é apresentado como o azarão da eleição presidencial que as autoridades brasileiras estariam tentando retirar da disputa. Depois da decisão de Dias Toffoli de suspender sua candidatura, The Economist acrescentou uma nota ao artigo registrando a medida.
Em seguida, faz algumas ressalvas sobre sua personalidade. Chama-o de arrogante, menciona sua pretensão de ser o melhor orador de sua geração e recorda a chamada “turnê das loiras”. Logo depois, porém, vem a absolvição: apesar de suas bravatas, Renan não seria um charlatão.
A partir daí, o perfil torna-se amplamente favorável.
A publicação considera sua plataforma tecnicamente elaborada e afirma que ela apresenta uma visão ousada para o Brasil. Também chama Santos de candidato de fora do sistema político e estabelece repetidas comparações com Javier Milei, presidente argentino especialmente querido pelo capital financeiro internacional.
A sede do Missão também recebe um tratamento admirativo. Em vez de uma repartição partidária antiquada, o leitor encontra programadores trabalhando, produção profissional de vídeos e uma organização adaptada às redes sociais, com milhões de seguidores. A descrição procura transmitir modernidade e eficiência.
O Livro Amarelo do partido, com cerca de 350 páginas, é tratado com a mesma deferência. O texto menciona as viagens de Kim Kataguiri à Dinamarca e ao Japão para estudar políticas públicas e apresenta o documento como resultado de uma pesquisa sobre experiências estrangeiras que poderiam ser adotadas no Brasil.
O balanço de The Economist é de que o Missão elaborou um programa carregado de novas ideias.
Quais são essas novidades?
Entre outras medidas, o partido quer reduzir as vinculações do orçamento, modificar as regras que determinam despesas com saúde e educação, realizar uma nova reforma da Previdência e cortar gastos com o funcionalismo público. A inteligência artificial seria usada inclusive para identificar postos de trabalho que poderiam ser eliminados.
Diante disso, a publicação elogia a “franqueza” de Renan ao defender cortes de despesas.
É uma escolha de palavras significativa. O ataque às condições de vida dos trabalhadores aparece como demonstração de coragem pessoal. Para The Economist, dizer abertamente que pretende cortar gastos, mexer na Previdência e reduzir o funcionalismo transforma Renan em candidato sério.
A comparação com Milei segue a mesma linha. O argentino tornou-se o governante dos sonhos dos banqueiros justamente pela disposição de atacar aposentadorias, salários, empregos e serviços públicos. Quando The Economist aproxima Renan de Milei, não está fazendo uma comparação neutra.
O próprio Santos se define como Bukele na forma e Milei no conteúdo. O que é mais importante, a forma ou o conteúdo? Mais do que um Bukele, Santos quer ser um Milei brasileiro. E para isso conta com o patrocínio da especulação financeira, dos bancos. Ou seja, de quem controla a política e a economia mundial. Em outras palavras, é um apadrinhado do sistema.
Até a revisão de algumas antigas posições do MBL é apresentada como amadurecimento. Renan diz ter rompido com aquilo que chama de liberalismo econômico “infantil”, segundo o qual bastaria retirar o Estado de quase todas as atividades e privatizar tudo.
Kataguiri batiza a nova linha de “liberalismo pragmático, não dogmático”. A publicação reproduz essa definição sem colocá-la em questão e trata a decisão de não privatizar a Petrobrás como sinal de uma direita que teria aprendido com seus próprios erros.
Isso não passa de demagogia para angariar mais votos. Todos sabem que, se tivesse poder para tal, o MBL privatizaria a Petrobrás. Isso levaria os editores e financiadores do Economist ao orgasmo.
A diferença de tratamento fica mais evidente quando aparece Flávio Bolsonaro.
Um banqueiro ouvido por The Economist considera Flávio “extremamente fraco”. Renan, segundo o mesmo financista, seria culto, informado e capaz de discutir muitos assuntos. Flávio, em contraste, “não sabe nada”.
A opinião é atribuída ao banqueiro, não à redação da publicação. Sua inclusão no perfil, entretanto, ajuda a compor a imagem desejada: de um lado, um bolsonarismo intelectualmente pobre; do outro, Renan como alternativa preparada para ocupar seu espaço.
Jair Bolsonaro também recebe tratamento muito diferente. É apresentado como populista e como ex-presidente preso por tentativa de golpe. Renan aparece como a versão estudiosa, programática e moderna dessa direita.
A publicação chega a afirmar que sua disposição para lançar propostas ousadas vem conquistando apoiadores importantes.
Esse apoio não nasceu agora.
A formação do MBL está ligada ao Estudantes pela Liberdade, organização brasileira conectada a redes internacionais de propaganda do neoliberalismo econômico. Juliano Torres, que dirigia a entidade, explicou em 2015 que integrantes do grupo utilizaram o nome Movimento Brasil Livre para atuar diretamente na mobilização política.
O Estudantes pela Liberdade estava ligado a organizações estrangeiras como Students for Liberty e Atlas Network, mantidas por grandes empresários e fundações privadas. A rede internacional que sustenta esse tipo de organização recebeu ao longo de sua história dinheiro de grupos ligados a grandes capitalistas norte-americanos, entre eles organizações financiadas pelos irmãos Koch.
A ligação atual com o grande capital é ainda menos disfarçada.
Banqueiros e executivos do setor financeiro passaram a apoiar Renan e a aproximá-lo de empresários. O motivo não é difícil de descobrir. O candidato oferece justamente aquilo que esse setor procura: ajuste fiscal, reforma da Previdência, redução das despesas públicas e maior liberdade para os capitalistas explorarem os trabalhadores.
Chamá-lo de candidato de fora do sistema, nessas condições, é uma fraude política.
Renan ganhou projeção com o MBL durante a campanha que desembocou no golpe contra Dilma Rousseff em 2016. Sua organização defendeu as principais reformas exigidas pelo grande capital e desenvolveu-se com apoio político e material proveniente do mesmo universo empresarial que agora começa a apresentar Santos como alternativa presidencial.
O perfil de The Economist é mais uma etapa dessa promoção.
Há uma ressalva especialmente importante. O programa do Missão defende a chamada “doutrina do inimigo”, segundo a qual determinadas pessoas poderiam perder direitos normalmente assegurados aos cidadãos. The Economist admite que esse princípio poderia ser empregado por um governo interessado em reprimir adversários políticos.
Também registra a promessa de decretar estados de emergência e permitir um “banho de sangue” contra as facções.
Mesmo assim, essas posições não levam a publicação a caracterizar politicamente Renan pelo autoritarismo de seu programa. Aparecem como problemas ou excessos dentro de um perfil cujo saldo permanece favorável. São perfeitamente aceitáveis pelos banqueiros, só não podem ser abertamente elogiadas neste momento porque pegaria mal diante da massa do eleitorado. Mas esse é exatamente o programa desejado pelos banqueiros.
No final, The Economist afirma que, mesmo que Santos não vença a eleição, já ofereceu à direita brasileira algo “extremamente valioso”: uma alternativa ao bolsonarismo.





