Um relatório da organização norte-americana Human Rights Soccer Alliance aponta que ações de imigração nos Estados Unidos atingiram diretamente pessoas ligadas ao futebol desde o início do governo Donald Trump. O documento, intitulado Fear, Intimidation and the World Cup, afirma que 17 casos envolvendo jogadores, treinadores, pais de atletas e torcedores foram registrados desde janeiro de 2025.
Segundo o levantamento, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) realizou prisões ou encaminhou deportações em situações relacionadas ao futebol, incluindo treinos, deslocamentos para jogos, compromissos administrativos de imigração e eventos oficiais. O relatório afirma que nenhum dos casos documentados envolvia pessoas com antecedentes criminais.
“O futebol nos Estados Unidos está profundamente enraizado nas comunidades imigrantes. Por gerações, serviu como um espaço de pertencimento, desenvolvimento e expressão cultural. No entanto, desde o início de 2025, a fiscalização imigratória se intensificou em escala e alcance”, diz o documento.
A organização afirma que as ações chegaram a escolas, parques, centros comunitários e instalações esportivas. Para a Human Rights Soccer Alliance, esse deslocamento da repressão para locais associados ao esporte tem impacto direto sobre a participação de famílias imigrantes no futebol.
“Não se trata simplesmente de o esporte ser atingido por um sistema brutal de fiscalização, mas de ele ser frequentemente alvo de ações específicas em locais de reunião do futebol, na comunidade, nas escolas e em parques públicos”, afirma o relatório.
Entre os casos citados está o de Emerson Colindres, jogador de uma escola de Ohio. Segundo o relatório, ele foi detido em 4 de junho de 2025, durante um comparecimento de rotina ao ICE, poucos dias após se formar no ensino médio. Em 18 de junho, foi deportado para Honduras, país de onde havia saído com os pais aos 8 anos.
O documento também cita o ex-jogador profissional venezuelano Jerce Reyes Barrios, identificado como treinador de jovens e treinador comunitário. Ele foi detido e deportado em março de 2025. Segundo o relatório, uma tatuagem com o escudo do Real Madrid foi usada indevidamente como indício de ligação com gangues. Reyes Barrios foi enviado ao Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), em El Salvador, e posteriormente libertado.
Em Nova Iorque, dois jovens jogadores foram detidos após uma sessão de treinamento no Pier 40, complexo esportivo em Manhattan. Representantes do clube intervieram junto ao ICE e à polícia local para garantir a libertação dos atletas.
Outro caso citado ocorreu nas proximidades do estádio MetLife, em Nova Jersey, antes da final do Mundial de Clubes da Fifa de 2025. Um homem identificado como Cesar, solicitante de asilo com visto de trabalho, foi detido enquanto aguardava com seus dois filhos no estacionamento do estádio. Segundo o relatório, ele foi encaminhado ao ICE e deportado três meses depois.
A organização também cita a detenção da mãe de um jogador da academia Forward Madison, em janeiro de 2026, durante uma viagem para partidas em Minneapolis. A mulher foi presa em um hotel após acompanhar o filho em jogos da equipe.
O relatório afirma que a presença do ICE em locais próximos a campos e centros esportivos reduziu a participação em atividades de base. Em alguns casos, treinos foram cancelados e equipes retiradas de competições.
Em Albuquerque, no Novo México, um programa de futebol feminino após as aulas foi suspenso por uma semana após relatos de veículos do ICE perto da entrada de uma escola. Na Flórida, um clube de Plant City relatou queda de 30% na presença de crianças depois de uma operação do Departamento de Segurança Interna e do xerife local nas proximidades de um complexo esportivo.
Em Portland, no Oregon, até 16 equipes de uma liga de desenvolvimento foram retiradas de competições após relatos de atividade do ICE em parques comunitários. A associação estadual de futebol informou aos pais que a decisão ocorreu diante de “relatos profundamente preocupantes de atividade de fiscalização imigratória em comunidades locais”.
A Human Rights Soccer Alliance também menciona que a retirada, pelo governo Trump, das proteções a chamados “locais sensíveis” permitiu operações próximas a escolas e instalações esportivas. Até então, esses espaços tinham maior proteção contra ações de imigração.
Segundo o relatório, a presença de agentes em áreas próximas a treinos e jogos afeta não apenas pessoas sem documentação regular, mas também famílias com situações migratórias diversas, residentes legais e cidadãos norte-americanos ligados a comunidades imigrantes.
O documento dedica uma seção ao impacto das ações de imigração sobre a Copa do Mundo de 2026, que está sendo disputada nos Estados Unidos, México e Canadá. A organização afirma que as cidades-sede norte-americanas já registram operações intensas do ICE.
Com base em dados do governo dos EUA, o relatório afirma que, entre 20 de janeiro e 15 de outubro de 2025, ao menos 92.392 pessoas foram presas pelo ICE em áreas próximas às cidades que receberão jogos da Copa.
O relatório recomenda que a Fifa obtenha garantias escritas e obrigatórias do governo dos EUA e das cidades-sede para impedir ações do ICE dentro, fora ou em ligação com estádios, zonas de torcedores, centros de treinamento e eventos oficiais da Copa.
A organização também pede que a Fifa proíba o compartilhamento de dados coletados em operações de segurança do torneio com autoridades de imigração. Além disso, recomenda a publicação de orientações multilíngues para torcedores, trabalhadores, voluntários e visitantes, explicando direitos e medidas de proteção.
A organização afirma que entidades como a Major League Soccer e a Federação de Futebol dos EUA não apresentaram uma resposta coordenada às denúncias. O relatório registra que a HRSA procurou dirigentes das entidades, mas não obteve medidas consideradas substanciais até a publicação do documento.


