Autoridades gregas realizaram operações em massa contra famílias romani, também chamadas de ciganos, desde o fim de 2025. As ações atingiram ao menos 152 comunidades em seis meses, com 473 policiais mobilizados e pelo menos 76 incursões, apresentadas como política de ordem pública. O padrão revela uma ofensiva permanente contra moradores pobres, imigrantes e ciganos, tratados como inimigos pelo Estado.
Em Nea Zoi, bairro informal perto de Aspropyrgos, a rotina descrita pelas famílias começa antes do amanhecer. Drones de vigilância sobrevoam as moradias, cães farejadores entram nas ruas estreitas, policiais táticos bloqueiam caminhos de terra e agentes armados arrombam portas de casas improvisadas. O aparato é justificado pelo discurso de combate ao crime organizado, mas atinge coletivamente uma população vulnerável.
A escala da operação mostra que não se trata de ações pontuais. Foram ao menos 76 incursões em seis meses, mais de uma por semana no país. A ofensiva foi a mais ampla operação policial contra essa população em décadas. As ações se espalharam por dezenas de comunidades e consolidaram uma forma de policiamento voltada a vigiar, intimidar e controlar bairros pobres.
A política grega combina segurança de fronteira, controle migratório e policiamento interno. Essa mistura transforma populações romani em alvos permanentes, mesmo quando não há acusação individualizada contra cada família ou morador. O Estado trata comunidades inteiras como suspeitas. A consequência é a ruptura do cotidiano: crianças acordam com policiais armados, trabalhadores perdem objetos, famílias têm suas casas reviradas e moradores passam a viver sob ameaça constante.
O uso da expressão “ordem pública” serve para dar aparência administrativa a uma política de força. Quando a repressão é apresentada como prevenção, a violência deixa de depender de crime comprovado e passa a se justificar pela identidade, pelo endereço e pela condição social dos moradores. Essa é a marca central da ofensiva: a periferia deixa de ser tratada como espaço de moradia e passa a ser tratada como território a ser ocupado.
A situação grega também tem dimensão europeia. O modelo usado na Grécia aparece como laboratório para políticas de vigilância e repressão contra grupos raciais em outros países. Em vez de enfrentar pobreza, exclusão habitacional e falta de serviços, governos europeus deslocam o problema para a polícia. O resultado é uma política pública que não visa melhorar a vida nas comunidades, mas ampliar o medo, humilhação e insegurança.
A ofensiva contra os romani revela como a violência do Estado dirigida a grupos raciais pode ser escondida com linguagem supostamente técnica. Não se fala abertamente em perseguição étnica; fala-se em prevenção, fronteira, ordem, segurança e crime. Mas o efeito prático é concentrar força policial sobre uma população específica.
Ao transformar bairros pobres em zonas de operação permanente, o governo grego reforça a dominação da burguesia por meio da brutalidade e intimidação dos trabalhadores. O caso de Nea Zoi é importante porque mostra o cotidiano da repressão: drones antes do amanhecer, bloqueios, cães, agentes armados e invasões domiciliares. A política que se apresenta como segurança produz, na prática, terror social nas periferias.





