Neste sábado (23), durante a Análise Política da Semana, da Causa Operária TV (COTV), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), comentou a complexa situação política da Venezuela e alertou contra análises precipitadas sobre uma suposta mudança de caráter do regime chavista. Pimenta, que também é pré-candidato à Presidência da República, esclareceu que, embora determinadas medidas recentes do governo venezuelano devam ser criticadas, não se pode concluir automaticamente que o regime tenha se transformado em um governo pró-imperialista.
O presidente do PCO afirmou que há, entre diversos setores políticos, inclusive próximos ao partido, uma “ansiedade” em condenar o regime venezuelano como se ele tivesse mudado completamente de natureza. Segundo ele, é preciso distinguir os erros e capitulações de um governo nacionalista burguês de uma mudança efetiva de regime.
“Um determinado governo pode cometer vários erros, pode cometer inclusive erros graves. Esses erros têm que ser criticados. Agora, isso não significa que nós podemos dizer que houve uma mudança de regime na Venezuela”, afirmou.
De acordo com Pimenta, a Venezuela não possui um governo operário revolucionário, mas sim um regime nacionalista burguês apoiado na mobilização popular. Ele destacou que o chavismo, apesar de sua retórica socialista, nunca chegou a expropriar a burguesia venezuelana.
“A burguesia venezuelana continua lá. A burguesia venezuelana tem partidos políticos, tem jornais, tem imprensa, tem poder político”, explicou.
O dirigente comparou a situação venezuelana com a Revolução Cubana, lembrando que, mesmo em Cuba, a proclamação do caráter socialista da revolução e a expropriação da burguesia só ocorreram em 1961, dois anos após a vitória revolucionária de 1959. No caso venezuelano, segundo ele, essa decisão nunca foi tomada.
A análise teve como ponto central a deportação de um cidadão colombiano, o empresário Alex Saab, apoiador do governo venezuelano e próximo de Nicolás Maduro, para os Estados Unidos. O dirigente criticou a justificativa dada por Diosdado Cabello, presidente do PSUV e figura proeminente da ala radical do chavismo, segundo a qual o caso envolveria documentos falsos e outras irregularidades formais.
Para Pimenta, essa explicação “não justifica nada”. Ele afirmou que o episódio foi tratado pelas autoridades venezuelanas como se fosse “um caso corriqueiro de polícia”, quando, na realidade, trata-se de uma medida politicamente grave.
“Não está claro por que eles extraditaram esse cidadão e, mais ainda, não está claro por que extraditaram para os Estados Unidos”, disse.
Ele avaliou que a deportação representa uma concessão ao imperialismo norte-americano. “O governo venezuelano fez aí uma cortesia para o imperialismo ao extraditar esse sujeito”, declarou. Segundo o presidente do PCO, trata-se dei “um mau sinal” e do “primeiro ato significativo” de capitulação diante da pressão imperialista.
Ao mesmo tempo, Rui Pimenta advertiu que esse episódio não autoriza uma conclusão apressada de que o governo venezuelano tenha se convertido em um governo pró-imperialista. Segundo ele, os regimes nacionalistas costumam oscilar entre posições de esquerda e de direita, justamente por seu caráter de classe contraditório.
“Os regimes nacionalistas são regimes que costumam ter uma política de oscilação entre a direita e a esquerda”, afirmou. “Muitas vezes o regime nacionalista se aproxima do imperialismo em determinado momento, acreditando que pode manobrar com o imperialismo, e morre desse tipo de oscilação política.”
O dirigente também comentou as discussões em torno de acordos petroleiros e de rumores sobre a transferência de urânio enriquecido aos Estados Unidos. Ele afirmou que tais questões precisam ser acompanhadas com cuidado, sem decretar antecipadamente “a morte do regime chavista”.
Para ele, medidas como a deportação do colombiano enfraquecem o chavismo e abrem espaço para o fortalecimento da oposição de direita dentro da Venezuela. No entanto, a situação deve ser analisada de maneira concreta, e não a partir de impressões ou conclusões abstratas.
Rui Pimenta comparou o caso com a política de Evo Morales na Bolívia, afirmando que o dirigente boliviano também procurou demonstrar confiabilidade diante do imperialismo e acabou sofrendo um golpe. “Evo Morales entregou o Battisti. Foi uma capitulação voluntária diante do imperialismo. Ele achou que tinha que se mostrar confiável para o imperialismo. Levou o golpe”, afirmou.
Na conclusão, Rui Pimenta insistiu que o problema central é compreender a situação real do regime venezuelano. Para que houvesse uma capitulação integral diante do imperialismo, disse ele, o governo teria de desmontar o dispositivo popular que ainda sustenta o chavismo.
“A coisa é complexa, não é simples”, afirmou. “O importante é ter uma análise concreta, precisa, objetiva dos acontecimentos para não adotar posições políticas equivocadas.”
Segundo ele, considerar que o governo venezuelano passou a ser pró-imperialista implicaria uma mudança completa na política diante dele.
“Se a gente considerar que o governo venezuelano, a partir do sequestro do Maduro, é um governo pró-imperialista, ele teria que ser combatido como governo pró-imperialista. Tudo tem consequências do ponto de vista da política de partido”, concluiu.





