A rebelião popular que toma conta da Bolívia há mais de um mês derrubou dois ministros do governo de Rodrigo Paz. Nesta terça-feira (2), o ministro da Defesa, Marcelo Salinas, e a ministra da Educação, Beatriz García, apresentaram suas renúncias em meio a 33 dias de mobilizações, bloqueios de estradas e protestos convocados pela Central Operária Boliviana (COB), organizações camponesas e setores populares que exigem a saída do presidente.
A dupla renúncia aprofunda a crise política do governo boliviano, que já havia perdido, em 21 de maio, o ministro do Trabalho, Edgar Morales, pressionado pela mobilização operária e sindical. Com isso, Rodrigo Paz vê três ministros deixarem o gabinete em poucos dias, justamente quando o movimento nas ruas exige a revogação das medidas neoliberais, a libertação de dirigentes presos, a anulação da chamada Lei Antibloqueios e o fim das iniciativas privatizantes do governo.
As mobilizações, iniciadas com a greve dos trabalhadores em maio, transformaram-se em uma verdadeira rebelião nacional. Bloqueios de rodovias atingem várias regiões do país e têm paralisado o acesso a centros urbanos importantes, como La Paz e El Alto. A crise já provoca desabastecimento de alimentos, combustíveis e medicamentos, aumentando a pressão sobre um governo cada vez mais isolado diante das massas.
Segundo fontes extraoficiais citadas pela imprensa latino-americana, as renúncias de Salinas e García estariam relacionadas à recusa em assinar um decreto de estado de exceção, após a promulgação da Lei 1732. A medida abriria caminho para a intervenção das Forças Armadas nos bloqueios, que já passariam de 90 pontos em oito regiões do país. Ou seja, diante da incapacidade de derrotar politicamente a mobilização popular, o governo avalia recorrer abertamente à repressão militar.
A saída de Marcelo Salinas é particularmente significativa. O Ministério da Defesa controla diretamente a relação do governo com as Forças Armadas, setor decisivo para qualquer tentativa de esmagar a rebelião. Salinas ocupava o cargo desde novembro de 2025 e será substituído por Ernesto Justiniano, até então vice-ministro de Defesa Social e Substâncias Controladas. Justiniano, conhecido como “czar antidrogas”, é apontado como homem de confiança de Paz e esteve recentemente nos Estados Unidos em busca de apoio para a política antidrogas, inclusive no marco do retorno da DEA à Bolívia.
A nomeação revela a orientação do governo. Em vez de atender às reivindicações populares, Paz procura reforçar o aparato repressivo e alinhar ainda mais o Estado boliviano aos interesses do imperialismo norte-americano. Segundo meios locais, Justiniano teria a tarefa de conduzir uma intervenção no Trópico de Cochabamba, região considerada bastião do ex-presidente Evo Morales e de importantes setores camponeses.
A crise também atingiu o Ministério da Educação. Beatriz García deixou o cargo sem apresentar publicamente uma justificativa detalhada. Sua saída ocorre em meio à mobilização dos professores e ao fechamento de escolas, que passaram a funcionar de forma virtual em diversas regiões afetadas pelos bloqueios. A tentativa de diálogo mediada por setores da Igreja e organismos de direitos humanos fracassou diante da recusa das organizações sociais em desmobilizar sem que o governo recue.
O elemento decisivo da crise, no entanto, é que as massas não estão apenas protestando contra medidas pontuais. A palavra de ordem central das mobilizações é a renúncia de Rodrigo Paz.
A COB, os sindicatos fabris, organizações camponesas e setores vinculados ao movimento popular denunciam que o governo traiu sua base social e passou a governar para os capitalistas, para os organismos financeiros internacionais e para a direita boliviana. A Assembleia Legislativa, controlada majoritariamente pela direita, anulou a lei que limitava a declaração de estado de exceção, deixando o caminho livre para que o Executivo tente lançar as Forças Armadas contra os manifestantes.
A situação permanece aberta. De um lado, o governo ameaça militarizar o conflito e abrir corredores à força. De outro, os trabalhadores, camponeses e organizações populares mantêm os bloqueios e rejeitam qualquer negociação que não contemple suas reivindicações centrais.





