Polêmica

‘Realismo revolucionário’ ou a velha Frente Popular – Parte 1

Em nome do perigo da extrema direita, articulista troca a luta entre capital e trabalho por um campo comum dos trabalhadores com a burguesia liberal

Colaboração de Classes

No artigo Cinco semanas dramáticas, publicado pela Esquerda Online em 29 de agosto, Valério Arcary apresenta as últimas semanas da campanha presidencial como uma emergência diante da possibilidade de retorno da extrema direita ao governo. Segundo ele, seria necessário convencer “todo o ativismo de todas as causas justas” de que vencer as eleições é “vital”. Arcary chama essa orientação de “realismo revolucionário” e afirma que “a defesa do legado de Lula será indispensável”.

Quanto maior aparece a ameaça, menor é o espaço que Arcary deixa para uma política independente dos trabalhadores. Trump está na Casa Branca, Cuba estaria ameaçada, a eleição pode ser apertada e, portanto, toda a esquerda deveria se alinhar à defesa de Lula.

É uma chantagem política: ou se aceita a política do chamado campo democrático ou qualquer independência passa a parecer uma ajuda à extrema direita.

Essa é precisamente a função histórica da Frente Popular. Uma ameaça real da direita é utilizada para convencer os trabalhadores de que, naquele momento excepcional, precisam deixar de lado sua própria política e formar um campo comum com uma ala da burguesia. A divisão entre explorados e exploradores é substituída por outra: “democratas” contra fascistas.

Arcary já havia formulado essa orientação claramente. Em Três critérios de análise da situação mundial, de março de 2025, afirmou que a relação entre capital e trabalho era o primeiro e mais importante nível para compreender a situação mundial. Algumas linhas depois, porém, concluiu: “Estamos no campo da democracia liberal em unidade na ação, nas ruas e nas eleições com as fissuras burguesas contra a ameaça neofascista.”

Este Diário já criticou essa posição: Arcary declara a luta de classes como princípio e, na hora de tirar uma conclusão política, coloca os trabalhadores no campo de uma ala da burguesia.

Ora, se a divisão fundamental é entre capital e trabalho, como a classe operária pode estar no mesmo “campo” que uma fração da burguesia?

A burguesia ‘democrática’ continua sendo burguesia

O próprio Arcary fornece elementos para responder. No texto atual, afirma que a campanha pelo ajuste fiscal contra Lula terá apoio da “fração liberal da classe dominante que mantém domínio sobre a mídia comercial”. Ou seja, o setor liberal que deveria compor o campo contra o neofascismo é reconhecido pelo próprio autor como parte da classe dominante.

Liberais e extrema direita podem disputar ferozmente quais métodos são mais convenientes para preservar o status quo. Essa disputa não transforma os liberais em aliados estratégicos da classe operária.

Trótski explicou esse problema ao discutir a Frente Popular na França. Em A França na Encruzilhada, mostrou que os representantes liberais e fascistas podiam combater-se duramente sem deixar de representar a mesma classe. Como resumiu: “Os métodos políticos são antagônicos, mas os interesses sociais são os mesmos.”

A diferença entre democracia parlamentar e fascismo existe. O que não existe é uma mudança do caráter de classe da burguesia liberal porque ela entrou em conflito com a extrema direita.

Arcary, que se apresenta como trotskista, tira a conclusão oposta: a ameaça fascista serviria para colocar a esquerda “no campo da democracia liberal”.

Quanto maior o perigo, maior a capitulação

A lógica aparece em Cinco semanas dramáticas. Arcary insiste que ignorar o risco seria “fatal”, que a batalha será “terrível” e que será necessário mobilizar dos mais moderados aos mais radicais. O problema não está nos adjetivos. Está na conclusão: quanto mais grave a situação, mais a esquerda deve se disciplinar em torno de Lula.

Trótski polemizou contra esse raciocínio durante a Guerra Civil Espanhola, quando a ameaça não era uma possível derrota eleitoral, mas um exército fascista. E chegou à conclusão contrária: a aliança do proletariado com a burguesia paralisa a força dos trabalhadores.

Se a independência de classe só vale quando não há perigo, ela não vale para nada.

Lutar contra a extrema direita é necessário, mas o principal inimigo hoje são as democracias liberais. Isso não obriga os trabalhadores a integrar-se ao campo burguês. Frente única e Frente Popular são coisas diferentes. Na primeira, os trabalhadores mantêm seu programa. Na segunda, sua política fica limitada pela aliança com a burguesia.

Arcary escolhe a segunda quando transforma a “defesa do legado de Lula” em tarefa indispensável.

Trump não inventou o imperialismo

A presença de Donald Trump na Casa Branca ocupa lugar central no alarmismo de Arcary. Mas a América Latina não passou a sofrer golpes imperialistas com Trump.

O golpe de 2016 contra Dilma Rousseff ocorreu durante o governo de Barack Obama, com Joe Biden na Vice-Presidência. A Lava Jato, instrumento central daquela ofensiva, contou com a atuação de autoridades do Departamento de Justiça e do FBI norte-americanos fora dos canais oficiais, segundo informações posteriormente reveladas. O DCO vem apontando justamente o papel do imperialismo norte-americano nessa operação.

Depois do afastamento de Dilma, a Casa Branca tratou o processo como funcionamento das instituições brasileiras. Em setembro de 2016, Biden reuniu-se com Michel Temer e discutiu com o governo instalado depois do golpe reformas energéticas e “modernização econômica”.

O imperialismo “democrático” não ficou ao lado dos trabalhadores brasileiros contra a direita. Trump utiliza métodos mais brutais e abertamente reacionários, mas isso não transforma Obama, Biden ou os liberais em aliados da classe operária.

Arcary reconhece teoricamente que a principal divisão é entre capital e trabalho, mas sua política dissolve essa divisão no momento decisivo. O fascismo vira a ameaça absoluta; a burguesia liberal vira aliada; e a independência da esquerda aparece como luxo perigoso.

Chamar isso de “realismo revolucionário” é uma verdadeira piada. É a velha Frente Popular: usar o medo da direita para colocar os trabalhadores sob a direção de outra ala da burguesia.

Continua…

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