O artigo A fabricação algorítmica da vontade política, de Thiago de Oliveira Machado, publicado no sítio A Terra é Redonda neste domingo (10), incorre em alguns erros dos quais se pode de pronto apontar dois: 1) mistifica o poder das IAs levantando um medo infundado e, 2) é antidemocrático.
Oliveira Machado inicia seu texto dizendo que “a democracia não se realiza apenas nas instituições formais. Ela depende também das condições materiais de circulação de informação e de formação da opinião pública”, e comete aí um erro que compromete todo seu texto: supõe que a democracia se realize nas instituições formais. E essas instituições são exatamente as que conformam o Estado burguês, o que o tornariam democrático, e isso é falso.
Com o advento da internet e novas tecnologias eletrônicas, a circulação de informação, ao contrário do que propõe o autor, ficou muito mais democrática, pois barateou a produção de conteúdo.
Segundo o texto, “as eleições brasileiras de 2026 ocorrem em um contexto de intensificação da mediação tecnológica da política. A incorporação de sistemas de inteligência artificial às campanhas eleitorais e à circulação de informações não representa apenas uma inovação técnica, mas uma transformação nas condições materiais de produção da opinião pública.” Ocorre que essas transformações são positivas, pois dentro do Estado burguês os principais meios de comunicação estão nas mãos da burguesia.
Conforme Oliveira Machado sustenta, o “artigo parte da hipótese de que a inteligência artificial, ao ser integrada ao processo eleitoral, não apenas amplia a circulação de desinformação, mas reorganiza estruturalmente as relações de poder que atravessam a democracia contemporânea”. Ocorre que a ampliação é geral, tanto para a desinformação quanto para a desinformação, isso precisa ser dito.
No que diz respeito à “reorganização das relações de poder”, principalmente na produção de informação, é isso que preocupa a burguesia, que até outro dia monopolizava o setor. Hoje, qualquer pessoa com um celular é capaz de produzir conteúdo e postar nas redes sociais.
O autor se deixa ofuscar pela produção de desinformação e não consegue ver que a produção de informação é proporcional. Para ele, “o problema deixa de se restringir à falsidade do conteúdo e passa a envolver a desigualdade na capacidade de produzir visibilidade, influenciar percepções e disputar sentidos no espaço público”.
Essa situação é curiosa, pois as grandes empresas de comunicação sempre se beneficiaram da capacidade de produzir visibilidade e isso para ele não parece ser um problema, mas deveria.
O que pretende o artigo
Oliveira Machado diz que seu texto se propõe a fazer uma “revisão bibliográfica crítica, com base em contribuições da teoria do Estado e da sociologia da comunicação”. Fazer documental de normativas eleitorais, com destaque para a Resolução nº 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral”, e “dialogar com evidências empíricas recentes oriundas de pesquisas científicas e relatórios de organismos internacionais” sobre “tecnologia como mediação social inscrita em relações de poder e disputa hegemônica” – com base no materialismo dialético – “um esforço de apreensão das relações entre Estado, capital e infraestrutura digital como totalidade histórica em movimento”.
Mais adiante, explica que “o artigo organiza-se em quatro momentos. [1] relação entre Estado, democracia e infraestrutura informacional. [2] a inteligência artificial como tecnologia de governo da visibilidade. [3] os impactos específicos no processo eleitoral brasileiro. [4] os limites da regulação democrática diante dessas transformações”.
“A análise das eleições na era da inteligência artificial”, escreve o autor, “exige retomar uma questão clássica da teoria política: a relação entre Estado e poder. Como argumenta Norberto Bobbio (1987), o Estado moderno não se reduz a um aparato jurídico-administrativo, sendo antes uma forma histórica de organização das relações sociais e políticas”.
Em seguida, temos que “na tradição marxista, essa compreensão é aprofundada. Nicos Poulantzas (2019) concebe o Estado como condensação material de relações de força entre classes e frações de classe. Claus Offe (1984), por sua vez, evidencia os limites estruturais da ação estatal em sociedades capitalistas, destacando sua seletividade institucional”.
Para simplificar a discussão, como disse Karl Marx, na sociedade capitalista, o Estado (o que inclui suas instituições) é o “comitê executivo” que gere os negócios comuns de toda a burguesia.
Portanto, se “a inteligência artificial não deve ser analisada como instrumento neutro, mas como parte de uma infraestrutura informacional controlada por grandes corporações, inserida em relações globais de poder”, a restrição que o Estado está tentando fazer com relação ao uso dessas tecnologias atende aos interesses das classes dominantes.
Assim como no mito de Prometeu, que roubou o fogo (a tecnologia) dos deuses e a entregou aos homens e por isso foi punido, o uso das tecnologias pela classe trabalhadora cumpre o mesmo papel, assalta o Olimpo e por isso as instituições querem restringir, punir, ou mesmo proibir sua utilização.
Não é verdade que as novas tecnologias estão abalando a “organização do Estado”. As grandes empresas capitalistas dependem do aparato estatal para se viabilizarem.
“Democracia”
Segundo o articulista, a “democracia depende da circulação de informação e da formação da opinião pública” que sempre foi monopolizada, mas o texto não discute essa questão. Em vez disso, sustenta que “a questão central, portanto, não se limita ao exercício do voto, mas envolve o controle das condições de visibilidade que estruturam o debate político”.
O que está sendo proposto é que o Estado controle as “condições de visibilidade”, o que só pode favorecer os grandes grupos de comunicação da burguesia, dado que o Estado é burguês.
Seria possível refutar também todos os pontos levantados por Thiago de Oliveira Machado, mas é desnecessário, pois o problema, como foi dito acima, está na origem. Tudo o que autor pede é que em nome da “defesa da democracia”, quer que o Estado enfrente “não apenas os efeitos da tecnologia, mas as bases materiais que sustentam as novas formas de poder informacional”, que é uma forma disfarçada de exigir a proibição do uso de IAs e a censura.





