Economia

Quase 1 milhão de famílias ganham mais com auxílios do que trabalhando

Levantamento aponta 894,9 mil famílias com recebimentos mensais acima do salário mínimo líquido; dado expõe a crise do emprego e o rebaixamento dos salários no País

Ao fim de 2025, pelo menos 894.900 famílias brasileiras recebiam um salário mínimo líquido ou mais por mês em benefícios sociais, segundo levantamento da empresa DataBrasil repassado ao Poder360. Considerando que o salário mínimo líquido no período era de R$1.404,15, o estudo indica que, para esse contingente, a soma dos auxílios estatais ultrapassava o que receberiam em um emprego formal de baixa remuneração.

O dado foi apresentado como resultado do cruzamento de milhões de registros públicos de programas federais, estaduais e municipais. Segundo o levantamento, essas 894.900 famílias correspondiam a 4,41% do total de beneficiários analisados. Em 259.800 casos, os núcleos familiares recebiam entre R$2.000 e R$2.785 por mês. Em outros 39.200, o total ultrapassava R$2.786.

O estudo sustenta que esse quadro não pode ser explicado apenas pelo valor dos benefícios, mas também pelo rebaixamento brutal da renda do trabalho no Brasil. Ao comparar os auxílios com o salário mínimo líquido, o levantamento mostra que o problema central está no fato de que uma enorme parcela da população encontra, no máximo, empregos mal pagos, instáveis e insuficientes para garantir a sobrevivência.

A própria nota técnica afirma que o debate público costuma ignorar o efeito combinado dos programas sociais. Segundo o documento, assumir um emprego com carteira assinada não significaria apenas perder um benefício isolado, mas comprometer um conjunto de pagamentos que, somados, pode superar a renda líquida de um trabalhador formal com baixa escolaridade.

Em Goiás, por exemplo, o estudo cita o caso de uma mãe com dois filhos adolescentes que poderia acumular R$2.090,53 por mês com a soma de Bolsa Família, Pé-de-Meia, Mães de Goiás, Aluguel Social e Bolsa Estudo. Trata-se de um valor superior ao rendimento líquido de quem recebe um salário mínimo. O caso mostra não uma suposta “vantagem” dos auxílios, mas a profundidade da crise social, num país em que o trabalho formal oferece remuneração cada vez mais baixa.

O levantamento também chama atenção para uma diferença no tratamento dado às rendas familiares. Bolsas de estudo e pagamentos recebidos por menores aprendizes ou estagiários não entram como renda do trabalho para fins de elegibilidade em vários programas. Com isso, uma família pode manter seus benefícios quando o adolescente recebe determinada bolsa ou remuneração, mas perde esse conjunto de auxílios quando o pai ou a mãe ingressa num emprego formal. O problema, novamente, aparece menos como “excesso” de proteção social e mais como sinal da desarticulação do sistema e da incapacidade da economia de oferecer empregos que compensem a perda dos benefícios.

Segundo a DataBrasil, há ainda casos em que a soma de bolsas e auxílios leva a rendimentos mensais bastante superiores ao salário mínimo de forma permitida pelas regras atuais. O estudo menciona situações em que bolsistas de ensino superior ou beneficiários de programas educacionais acumulam pagamentos que passam de R$5 mil mensais.

O estudo afirma ainda que os números disponíveis podem estar subestimados. Isso porque há estados e municípios que não fornecem bases completas de beneficiários. Também ficaram de fora pessoas fora da idade ativa para o trabalho, como idosos incapacitados ou portadores de doenças graves.

O levantamento mostra o tamanho da crise econômica do País. O fato de centenas de milhares de famílias dependerem de uma combinação de auxílios para superar a renda oferecida por empregos formais revela, acima de tudo, a falta de postos de trabalho e o rebaixamento geral dos salários.

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