Em 1839, o pintor francês Paul Delaroche, ao ver os primeiros daguerreótipos, disse: “A partir de hoje, a pintura está morta.” Quase 200 anos depois, temos a mesma ideia sendo repetida no artigo “Tá no inferno, abraça o capeta” – Sobre o uso de Inteligência Artificial pela esquerda no Brasil, assinada por Edji Elisa Mendonça Dias e publicada no sítio Esquerda Online neste domingo (31).
No parágrafo inicial, o texto diz que “há uma popularização crescente do uso de Inteligência Artificial pela população brasileira. Se antes achávamos que as IAs e o avanço da tecnologia viriam para substituir o trabalho braçal, como ocorreu nas últimas revoluções industriais/tecnológicas, já se tornou óbvio que o que já está sendo substituído é o trabalho artístico, é o trabalho de pensar e escrever, é o trabalho de refletir.”
A ideia é completamente falsa. As IAs podem melhorar a reflexão porque servem como catalisadoras e, com isso, potencializam a escrita e a reflexão. Alguém que esteja escrevendo um determinado texto e se lembre vagamente de uma referência, de algo que leu há muito tempo, pode jogar os parâmetros vagos que as IAs fazem uma pesquisa e muitas vezes acertam, o que economiza um tempo enorme.
Segundo o texto, “É compreensível (mas não deve ser normalizado) que esse uso aumente, tendo em vista que: 1. para uma parcela da população pode ser caro consumir arte ou pagar por um design profissional; 2. o Brasil avança muito vagarosamente em direção a uma educação voltada para os chamados ‘saberes digitais’ e regulamentação da internet; 3. no caso acadêmico, a cobrança por produção de textos é muito alta, ao mesmo tempo que, com a proletarização das universidades através de políticas como cotas e permanência (que são de extrema importância), a quantidade de estudantes que precisam estudar e trabalhar é mais alta, o que diminui seu tempo de dedicação a escrita e pesquisa. Ou seja, a dinâmica universitária não se adaptou à realidade dessas pessoas, ou repensou sua concepção de ‘produtividade’”.
Quanto ao ponto 1, não se trata apenas de consumir, mas de produzir arte. Muitas pessoas têm ótimas ideias e não as desenvolvem porque não tinham os meios, ou daria muito trabalho. Com uma IA é possível dar vida a algumas ideias. O cinema, por exemplo, que é caríssimo, se já estava mais acessível com o advento dos celulares e ferramentas gratuitas de edição, vai ficar acessível a qualquer pessoa.
A “regulamentação da internet”, um tema que aparece toda hora na boca da esquerda, é uma exigência da burguesia, mais especificamente do imperialismo, que está dificultando o acesso e censurando a internet no mundo todo. No final das contas, quem está sendo “regulamentado” é o povo, que pode perder suas contas ou ser preso por postar suas opiniões.
Bicho-papão
Outro tema recorrente – a mesma preocupação que a Igreja teve quando Gutemberg inventou a prensa de tipos móveis – é de que “essa dimensão de como as IAs e Big Techs estão dominando cada vez mais a nossa subjetividade é perigosa, é nítido”.
Durante muito tempo se discutiu os perigos do rádio e, posteriormente, o quão nociva seria a televisão para o desenvolvimento das crianças etc.
A verdade é que a burguesia tem medo de como as informações circulam e precisa estar o tempo todo no controle. O Reino Unido foi bastante ousado no controle estatal da circulação da informação, foi isso que inspirou George Orwell a escrever seu famoso livro 1984. Hoje, na RU, pessoas estão presas por postagens nas redes, especialmente quando apoiam a Palestina ou criticam o governo genocida de “Israel”.
A autora do artigo está preocupada com o uso das IAs pela esquerda, quando isso deveria ser incentivado. Qualquer pessoa vai poder bolar uma charge, ilustrar um folheto, melhorar uma foto em baixa resolução, existem infinitas possibilidades de uso criativo com as inteligências artificiais.
Edji Elisa Mendonça Dias diz que escreve seu texto “pensando na relação de Leon Trotsky com o movimento surrealista, principalmente a partir do manifesto Por Uma Arte Revolucionária Independente (1938). A arte é uma ferramenta revolucionária muito importante. Ela tem a capacidade de fazer a gente sonhar e imaginar um mundo novo.”, mas tira a conclusão equivocada de que “fazer ‘arte de IA’ é não só definhar a capacidade de sonhar, como também desvalorizar quem produz arte, quem trabalha com isso. Fazer ‘arte’ por IA é deixar a IA ‘sonhar’ por você.”
A fotografia, por acaso, matou a pintura? Não. Para muitos, a fotografia até libertou a pintura de ter que reproduzir a natureza com fidelidade; alterou os tipos de cortes, etc.
No texto é citado um trecho de Breton do Manifesto da FIARI que diz que “a oposição artística é hoje uma das forças que podem com eficácia contribuir para o descrédito e ruína dos regimes que destroem, ao mesmo tempo, o direito da classe explorada de aspirar um mundo melhor e todo sentimento da grandeza e mesmo da dignidade humana.”
Ocorre que o trecho acima não está em contradição com as inteligências artificiais, antes o contrário. Ao democratizar o acesso a ferramentas que antes eram impossíveis, a criatividade vai se expandir. Mais e mais pessoas poderão dar vazão à sua criatividade.
O clima, a pedofilia…
Existem temas obrigatórios quando se quer atacar as novas tecnologias, como o clima e a pedofilia.
No que diz respeito ao clima e à natureza, as tecnologias serão cruciais para a preservação. Um exemplo típico, como já dissemos neste Diário, é a necessidade cada vez menor do uso de papel, o que preserva as árvores.
Em um primeiro momento, problemas aparecem, e se não são sanados é por conta do capitalismo que só visa o lucro, não da tecnologia em si.
Pedofilia existe muito antes de haver internet.
A autora termina seu texto, dizendo que “precisamos parar de usar Inteligência Artificial, principalmente na nossa atividade política”, mas é justamente o contrário, temos que potencializar seu uso.
Lamentavelmente, como Igreja fazia com os livros, o texto pede cendura, diz que “precisamos cobrar que essa tecnologia seja regulamentada e restrita”. Isso é um grande retrocesso, um pensamento incompatível com quem é de esquerda.




