Gabriel Araújo

Dirigente Nacional do Movimento Nacional de Luta pela Moradia, Editor da Tribuna do Movimento e do Boletim do Movimento. Militante do Partido dos Trabalhadores e colunista do Voz Operária-Rio de Janeiro.

Coluna

Qual é o tipo de solidariedade que o Brasil deve exercer com a Venezuela?

O Brasil é o maior país da América Latina, com a maior capacidade político-econômica, e precisa agir como tal

A Venezuela foi atingida por dois terremotos consecutivos que causaram graves danos ao país, com a perda de várias vidas e a destruição de diversos equipamentos urbanos e de infraestrutura cruciais para o funcionamento da vida cotidiana dessa nação. Os locais mais afetados foram La Guaira e a capital, Caracas. Também sofreram impactos os estados de Aragua, Miranda, Carabobo, Falcón e Yaracuy.

As informações atuais, divulgadas pelo Ministério do Poder Popular para Comunicação da Venezuela, são de que faleceram 4.333 pessoas, 6.462 pessoas foram resgatadas e 16.740 ficaram feridas. Do total de pessoas atendidas nos hospitais, 91% já receberam alta e se encontram fora de perigo.

Foram afetados 856 edifícios, dos quais 190 estão completamente colapsados. O governo bolivariano disponibilizou 94 acampamentos transitórios, que atualmente atendem a 19 mil pessoas e possuem capacidade para atender até 24 mil.

Os cálculos iniciais do governo bolivariano estimam que será necessário construir 25 mil unidades habitacionais. Para conseguir alcançar esse feito, a presidente Delcy Rodríguez (PSUV) lançou a Gran Misión Venezuela Renascida, que tem a tarefa de reconstruir e recuperar moradias e a infraestrutura.

Essa situação aconteceu em um momento em que o país, no terreno econômico, estava conseguindo superar os bloqueios que o imperialismo lhe impunha por meio de sanções havia vários anos. Essa superação ocorria mesmo após a pandemia da covid-19.

Isso só foi possível porque a Venezuela apostou no fortalecimento das instâncias de deliberação e organização popular, que atuaram na situação político-econômica para superar essa circunstância por meio de um processo de substituição de importações. Ou seja, a Venezuela passou a produzir grande parte dos produtos consumidos internamente, e isso tem feito com que o país alcance sucessivamente resultados significativos de crescimento de seu Produto Interno Bruto (PIB).

Nesse sentido, com essa recente experiência de superação das adversidades impostas pelo imperialismo, podemos esperar que os próprios venezuelanos despendam um enorme esforço interno para superar essa situação. Porém, vale lembrar que, apesar dessa relativa superação, o povo venezuelano e sua Revolução Bolivariana ainda se encontram sob cerco político, econômico e militar por parte do imperialismo, principalmente dos EUA. Uma comprovação disso foi o recente sequestro do presidente Nicolás Maduro (PSUV) e da primeira combatente, Cilia Flores (PSUV), bem como as chantagens que daí decorreram para impedir uma ação militar mais contundente e uma tentativa de acabar, pela força, com o regime político do chamado Socialismo do Século XXI.

O Estado brasileiro, por meio do governo do presidente Lula (PT), vem executando ações de solidariedade com a Venezuela. Essas ações foram divididas em duas etapas: a primeira consiste em respostas emergenciais, que já estão sendo colocadas em prática, e a segunda será voltada para o processo de reconstrução. É sobre essa segunda ação de solidariedade que quero chamar a atenção, porque é ela que poderá conter verdadeiras medidas de solidariedade condizentes com o tamanho de nosso país e com sua responsabilidade perante as nossas nações irmãs.

Que a Venezuela e seu povo possuem capacidade para superar essa situação, principalmente no âmbito da construção civil, nas áreas de produção habitacional e obras de infraestrutura, é algo inegável. Todos têm conhecimento disso, não havendo margem para dúvidas. Mesmo diante do brutal bloqueio econômico ao país e da queda da principal fonte de recursos financeiros, provocada pelas oscilações dos preços dos barris de petróleo, foram entregues mais de 5,3 milhões de unidades habitacionais por meio da Gran Misión Vivienda Venezuela, programa habitacional do governo bolivariano que tem 15 anos de existência.

O governo bolivariano já anunciou que, muito em breve, entregará as primeiras 200 unidades habitacionais às famílias atingidas.

A grande questão colocada é: como facilitar o processo de recuperação das áreas atingidas? De que maneira o Brasil pode contribuir para que sejam reconstruídos os imóveis das famílias desabrigadas, os estabelecimentos comerciais e os equipamentos públicos destruídos?

O Ministério das Cidades, por meio do secretário nacional de Habitação, Augusto Rabelo, e a Caixa Econômica Federal, por intermédio da vice-presidente de Habitação, Inês Magalhães (PT), reuniram-se com a presidente Delcy Rodríguez (PSUV) para prestar solidariedade, colocar-se à disposição para contribuir com a reconstrução das áreas atingidas pelos terremotos e tomar conhecimento da situação dos locais mencionados.

No dia 10 de julho, o presidente Lula (PT) fez uma ligação para a presidente Delcy Rodríguez, tratando justamente das duas etapas das ações de solidariedade do governo brasileiro. Lula também se reuniu com representantes da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que levantaram essas ações e sua importância.

Essas demonstrações públicas de solidariedade e preocupação com a recuperação da Venezuela são ações de grande importância, tendo em vista que se trata de um país sob constantes ataques por parte do imperialismo. Porém, ainda não está bem definido como as ações de maior magnitude serão realizadas, e é necessário chamar a atenção para isso, porque as demonstrações públicas têm de se desdobrar em medidas concretas de solidariedade.

O Brasil precisa disponibilizar recursos financeiros, técnicos, científicos e políticos, por meio do BNDES, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil e de outras instituições, para o processo de reconstrução das localidades atingidas pelos terremotos. Também precisa constituir uma agenda político-econômica bilateral com a Venezuela que possibilite ao país vizinho obter alternativas reais para sair do cerco imperialista e consolidar ainda mais as vitórias construídas pela Revolução Bolivariana.

A vitória do povo venezuelano não se restringe apenas aos seus limites fronteiriços, e isso foi comprovado com a própria derrota relativa do golpe de 2016 aqui no Brasil. A solidariedade e a resistência venezuelanas nesse período foram decisivas para que conseguíssemos obter nosso êxito em 2022 e serão fundamentais para seguirmos avançando neste ano de 2026, com a conquista do quarto mandato do presidente Lula. Isso precisa ser dito para que a questão da solidariedade não se torne algo abstrato e da boca para fora. A solidariedade tem de existir para alcançarmos objetivos comuns e concretos que permitam o avanço da luta dos trabalhadores onde quer que seja.

Por isso, é de suma importância que o conjunto dos membros do Conselho das Cidades atue junto ao Ministério das Cidades na construção de uma agenda político-econômica de solidariedade efetiva e constante com o povo venezuelano, para reconstruir as áreas atingidas e consolidar a vitória da Revolução Bolivariana.

O Brasil é o maior país da América Latina, com a maior capacidade político-econômica, e precisa agir como tal. É nossa responsabilidade cuidar dos nossos irmãos e companheiros, principalmente daqueles que nunca nos abandonaram, inclusive nos piores momentos da vida política recente do país. É tarefa dos revolucionários e patriotas exigir de nosso governo democrático-popular ações concretas e contundentes que contribuam para a recuperação da Venezuela.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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