Reforma eleitoral

PT negocia voto distrital misto como recompensa para Moraes e o Centrão

Edinho Silva admite negociar a proposta de Kassab e Moraes no momento em que o Centrão tenta aprová-la antes da posse dos novos deputados

Gilberto Kassab ameaçou expulsar do PSD quem votar contra o voto distrital misto. Alexandre de Moraes defendeu o modelo em público. Hugo Motta quer submetê-lo ao Congresso ainda em 2026. Diante dessa movimentação, o presidente do PT, Edinho Silva, declarou que prefere o voto em lista, mas aceita negociar o distrital misto. O partido oferece seus votos para uma reforma promovida por seus aliados da direita tradicional e pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), fundamentais para a sua reeleição.

A proposta ganhou urgência após a eleição para a Câmara. O PL conquistou 121 cadeiras, enquanto partidos do Centrão perderam espaço. Em Minas Gerais e São Paulo, as votações de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato ajudaram a eleger outros candidatos da mesma legenda. Os dirigentes derrotados querem mudar a regra antes da posse da bancada eleita. A Folha de S.Paulo descreveu expressamente a iniciativa como uma reação ao avanço do PL.

Kassab apontou os dois deputados do PL ao defender sua proposta. Para o presidente do PSD, candidatos que recebem votos em municípios de todo o estado não teriam compromisso com os eleitores dessas localidades. Seu remédio é reservar parte das cadeiras a disputas em distritos. A extensa rede de prefeitos e políticos regionais de seu partido teria, assim, um papel maior na eleição de deputados. Não se trata de uma preocupação recém-descoberta com a representação popular. Trata-se de recuperar, por meio da manipulação das regras eleitorais, o terreno perdido na eleição.

Moraes defendeu a passagem ao distrital misto em agosto. Disse que o sistema proporcional havia falido e atacou parlamentares que, em sua avaliação, se dedicam mais a transmissões pela Internet do que ao trabalho legislativo. Ele realmente não consegue parar de se intrometer nos assuntos do Legislativo. Depois da eleição, essa crítica encontrou os interesses do Centrão: diminuir o efeito das votações de candidatos ligados ao bolsonarismo. O PT, que apresenta Moraes como fiador da democracia, dispõe-se agora a negociar também a reforma eleitoral desejada pelo ministro.

A história da disputa entre Eduardo Cunha e Kassab ajuda a esclarecer o caráter dessas propostas. Em 2015, Cunha tentou aprovar o distritão, que daria as cadeiras aos candidatos individualmente mais votados. O PSD de Kassab se opôs à iniciativa e defendeu a manutenção do sistema vigente. Hoje, os dirigentes reunidos em torno de Motta discutem justamente um distritão misto para 2030 como transição ao distrital misto, previsto para 2034. O que separava Cunha e Kassab era a vantagem que cada fórmula oferecia às suas forças políticas. O mesmo cálculo comanda a negociação atual.

Esse plano também põe à prova o suposto limite anunciado por Edinho. O presidente do PT disse aceitar negociar até o distrital misto. Mas o roteiro apresentado pelo Centrão inclui, antes dele, uma eleição sob outra regra: no distritão misto, parte das cadeiras caberia aos candidatos mais votados individualmente em cada estado e parte seria distribuída por listas partidárias. Edinho abriu a negociação sem enfrentar publicamente essa etapa da proposta.

A adoção de distritos ainda daria mais peso às máquinas locais e ao dinheiro capaz de sustentar candidaturas em cada território. Como já apontou o DCO, esse tipo de disputa favorece o clientelismo e dificulta a atuação de partidos organizados em torno de um programa nacional. A direção do PT conhece os promotores da reforma, o calendário que estabeleceram e o resultado eleitoral que pretendem neutralizar. Sua disposição de negociar comprova a sua dependência diante do Centrão e de Moraes, pois o PT deve a eles e à Rede Globo a reeleição de Lula.

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