Voto distrital

A campanha reacionária pelo fim dos partidos

Sem partidos fortes que organizem o debate em torno de programas de nacionais, a disputa eleitoral regride para o nível do clientelismo local

No último dia 8 de junho de 2026, a jornalista e comentarista política Dora Kramer publicou na Folha de S.Paulo o artigo Partidos custam bilhões por prestação de mau serviço. Utilizando como pretexto a divulgação dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a partilha do bilionário fundo eleitoral para as eleições de 2026, a autora destila o mais rasteiro moralismo de classe média para atacar a existência do financiamento público de campanha.

A vigarice da análise de Dora Kramer começa na própria formulação de sua tese central, que rebaixa a política a uma mera relação de consumo ou prestação de serviços corporativos. Escreve a colunista:

“Os números são conhecidos, mas a divulgação repõe na agenda o tema desse tipo de financiamento adotado desde a eleição de 2018. Oportunidade para renovar questionamentos sobre como partidos se tornaram sorvedouros de dinheiro público sem que, em contrapartida, prestem bons serviços ao país que os contrata.”

E prossegue:

“A velha história: o representado é obrigado a votar, mas os representantes não se obrigam a cumprir seus deveres e ainda legislam em causa própria. (…) Financiamento público cria uma relação desigual entre o país contratante e os políticos contratados.”

Essa premissa de que o “país” é um “contratante” e os partidos são “prestadores de serviço” que entregam um produto ruim é de um cretinismo monumental. Não faz sentido avaliar o direito à existência ou ao financiamento dos partidos políticos a partir do critério do “retorno sobre o investimento”, como se o parlamento fosse uma empresa terceirizada de limpeza ou segurança. Os partidos políticos existem para canalizar os interesses de forças sociais distintas. Ao colocar a discussão sob o manto da “eficiência do serviço”, Kramer oculta o verdadeiro debate que deveria ser feito a partir de uma perspectiva democrática real: a profunda injustiça nos critérios de distribuição do fundo.

A jornalista não questiona em nenhum momento o caráter excludente e antidemocrático das regras do jogo. A única crítica legítima que se poderia fazer à dinheirama do fundo eleitoral é demonstrar como o mecanismo foi desenhado para perpetuar os partidos que já dominam o parlamento. Os critérios de partilha estabelecidos pelo TSE privilegiam escandalosamente as maiores bancadas da Câmara dos Deputados, asfixiando financeiramente os partidos menores, ideológicos. A chamada cláusula de barreira e a distribuição proporcional baseada em deputados eleitos funcionam como um filtro oligárquico que impede o surgimento e o crescimento de alternativas fora do controle do grande capital. Isso Dora Kramer não questiona; ela prefere atacar o fundo em bloco para sugerir que nenhum partido deveria receber nada.

A hipocrisia da argumentação atinge níveis brutais quando a autora foca nos valores públicos para fingir que a corrupção e o poder em Brasília emanam da existência do fundo eleitoral. O artigo elenca os bilhões do Orçamento com o claro intuito de chocar o leitor médio: “R$ 4,9 bilhões para as campanhas, R$ 1,3 bilhão para as despesas habituais dos partidos e R$ 61 bilhões reservados para as emendas parlamentares”. Ora, a esmagadora maioria do dinheiro real e do poder de mando que corrompe o parlamento não vem do fundo público. Vem dos lobbies corporativos, do poder econômico dos bancos, do latifúndio e dos monopólios, que compram bancadas inteiras de deputados à luz do dia por meio do financiamento por debaixo dos panos, subornos, promessas de cargos em diretorias e jantares de negócios na capital federal.

Ao pintar o fundo público como o “grande vilão” que drena a riqueza da sociedade, a jornalista blinda a corrupção privada institucionalizada. Se o financiamento público for extinto, como deseja a demagogia de direita encampada por Kramer, os partidos operários e de esquerda perderão uma ferramenta que lhes permite imprimir panfletos, alugar sedes e disputar as eleições contra os candidatos milionários da burguesia. Sem o fundo público, a política se torna oficialmente um monopólio exclusivo dos ricos e dos candidatos patrocinados diretamente pelas associações patronais.

Por fim, a colunista deixa cair a máscara e revela o verdadeiro projeto reacionário que a burguesia tenta empurrar goela abaixo do país sob o rótulo de “reforma política”. Escreve Dora Kramer no encerramento de sua coluna:

“O sistema distrital de votação, no qual há ligação direta entre representantes e representados, seria o início de mudança na correlação de forças. Mas, para isso, seria necessária a reforma política, a respeito da qual muito se fala e nada se faz.”

O objetivo do voto distrital é, na prática, dissolver os partidos políticos programmaticos e transformar as eleições gerais em uma disputa fragmentada de “candidatos independentes” e líderes paroquiais. Sem partidos fortes que organizem o debate em torno de programas de nacionais, a disputa eleitoral regride para o nível do clientelismo local e do coronelismo de bairro.

Em um distrito isolado, fica infinitamente mais fácil e mais barato para o poder econômico, para o latifundiário local ou para a corporação monopolista comprar o candidato individual “independente”. A cruzada de Dora Kramer contra os custos dos partidos não é uma defesa do cidadão contra o desperdício; é uma cortina de fumaça ideológica paraa fazer do o regime eleitoral uma feira livre onde o capital financeiro compra a representação política por atacado e no varejo.

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