Política

PT inicia campanha com os abutres do golpe de Estado

Na histórica Vila Euclides, Lula abriu a campanha cercado por Alckmin, Tebet, Marina Silva e outros representantes da direita que ajudou a derrubar Dilma Rousseff

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu sua campanha à reeleição neste domingo (16), em São Bernardo do Campo, no Estádio Municipal 1º de Maio, conhecido como Vila Euclides. O ato recebeu o nome de “Onde Tudo Começou”, numa referência às grandes assembleias das greves metalúrgicas de 1979 e 1980, realizadas no local e responsáveis por projetar Lula como uma das principais lideranças operárias do País.

Estiveram no estádio militantes do PT e das demais legendas da coligação O Brasil Pronto Pra Mais — PDT, PSB, PCdoB, PV, PSOL e Rede —, além de sindicalistas, integrantes de movimentos populares e caravanas vindas de outros estados.

A campanha procurou explorar a ligação de Lula com o movimento operário do ABC. Um vídeo retomou episódios de sua trajetória entre os metalúrgicos e trabalhadores que participaram da gravação foram chamados ao palco. Fafá de Belém cantou o Hino Nacional diante de uma grande bandeira brasileira aberta nas arquibancadas. Também houve uma homenagem ao pastor e cantor Kleber Lucas, parte da tentativa da campanha de diminuir a vantagem da direita entre os eleitores evangélicos.

O discurso de Lula durou 36 minutos, bem menos que sua intervenção na convenção partidária de 2 de agosto. O presidente falou principalmente de soberania nacional, segurança pública e da necessidade de eleger mais parlamentares aliados. Ao abordar a disputa internacional pelos minerais estratégicos brasileiros, procurou afirmar uma posição independente tanto dos Estados Unidos quanto da China. Também prometeu continuar lutando enquanto estiver vivo.

A tentativa de ligar a campanha de 2026 às greves do ABC, contudo, produz uma contradição. Onde antes se reuniam dezenas de milhares de operários em luta contra a ditadura, o PT colocou na primeira fila de sua campanha uma coleção de políticos da direita burguesa.

Simone Tebet foi a primeira a discursar. Geraldo Alckmin é novamente o vice de Lula. Marina Silva ocupa outro lugar de destaque. Em São Paulo, Márcio França completa a chapa de Fernando Haddad.

É com os representantes da velha direita, inclusive personagens ligados direta ou indiretamente ao golpe contra Dilma Rousseff, que o PT pretende agora combater a direita.

Tebet votou para derrubar Dilma

Simone Tebet, hoje no PSB e candidata ao Senado por São Paulo, abriu os discursos do palanque. Falou contra o bolsonarismo, reivindicou a defesa da família para o campo de Lula e procurou apresentar a coligação como representante do patriotismo contra a submissão aos Estados Unidos.

Dez anos atrás, Tebet estava no Senado votando pela derrubada de Dilma Rousseff. Foi um dos votos que consumaram o golpe de Estado de 2016, colocaram Michel Temer no Palácio do Planalto e abriram caminho para uma enorme ofensiva contra os trabalhadores.

Em 2022, sua candidatura presidencial ainda contou com o apoio formal do PSDB. Agora, tornou-se uma das principais candidatas da coligação petista no maior estado do País.

O PT não apenas aceitou Tebet como aliada. Deu à golpista posição central na campanha, a ponto de caber a ela abrir os discursos no primeiro grande ato de Lula.

A política é particularmente absurda porque a campanha pretende convencer os trabalhadores de que sua tarefa fundamental é barrar a direita. Para fazer isso, o PT pede que votem justamente em uma senadora que ajudou a direita a derrubar o último governo petista antes de Bolsonaro.

Alckmin fincou raízes no governo

Geraldo Alckmin completa novamente a chapa presidencial como candidato a vice. A repetição dos nomes, porém, esconde uma mudança importante entre 2022 e 2026.

Na eleição passada, o antigo governador tucano funcionava principalmente como um fiador de Lula diante da burguesia. Sua presença servia para avisar aos grandes capitalistas que um novo governo do PT não representaria perigo para seus interesses.

Depois de quatro anos, Alckmin está muito mais entranhado no governo.

Além da Vice-Presidência, ocupou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e transformou-se num dos principais canais entre o Palácio do Planalto e o empresariado. O PSB, da mesma forma, deixou de ser um coadjuvante para se tornar um dos principais abrigos da velha direita incorporada à frente ampla.

Em São Bernardo, Alckmin procurou falar como se fosse um velho companheiro das lutas operárias do ABC. Tratou do Pix, da indústria nacional e encheu o discurso de comparações com o futebol. Chegou a trocar a Vila Euclides pela Vila Belmiro.

Durante décadas, Alckmin foi um dos maiores dirigentes do PSDB, partido que comandou a ofensiva contra o PT e esteve na linha de frente do golpe de 2016. Governava São Paulo quando Dilma foi derrubada e apoiou seu afastamento.

Marina esteve com Aécio

Marina Silva é outro caso que desmonta a propaganda da frente ampla.

Hoje ministra do Meio Ambiente e candidata ao Senado por São Paulo, pediu votos no ato para a chapa petista e tratou o bolsonarismo como o adversário a ser derrotado nas eleições.

Em 2014, quando a disputa presidencial chegou ao segundo turno, Marina fez outra escolha. Depois de ficar fora da etapa final, apoiou Aécio Neves contra Dilma Rousseff.

A candidatura tucana daquele ano teve enorme importância para a preparação do golpe. Derrotado nas urnas, Aécio questionou o resultado da eleição e o PSDB passou a trabalhar para inviabilizar o governo eleito. A campanha pelo impeachment cresceu a partir daí até a derrubada de Dilma, em agosto de 2016.

Marina ficou com Aécio naquele momento. Agora, o PT pede que o eleitorado de esquerda a leve ao Senado.

A chapa de Haddad parece uma restauração tucana

São Paulo concentra a política nacional do PT em sua forma mais acabada.

Fernando Haddad concorre ao governo com Márcio França, do PSB, como vice. As duas candidaturas ao Senado são Simone Tebet e Marina Silva. Acima deles, na chapa presidencial, está Geraldo Alckmin.

Poucos anos atrás, seria difícil imaginar uma composição desse tipo sendo apresentada como chapa da esquerda.

França foi vice-governador de Alckmin e fazia parte da coalizão que governava São Paulo no período do golpe. Seu partido também tem uma ficha bastante clara no episódio: a maioria da bancada do PSB na Câmara votou pela abertura do processo contra Dilma Rousseff.

Tebet votou pelo impeachment no Senado. Marina apoiou Aécio contra Dilma. Alckmin foi um dos principais dirigentes nacionais do tucanato.

O desaparecimento eleitoral do PSDB não eliminou a velha direita tucana. Parte importante dela simplesmente encontrou abrigo na frente ampla do PT.

A chapa paulista permite ver com clareza até onde chegou esse processo. O partido que nasceu das greves do ABC abre sua campanha na Vila Euclides com uma composição política que se parece cada vez mais com uma reconstrução do antigo bloco tucano dentro da candidatura de Lula.

Os golpistas ganharam palanques pelo País

O fenômeno não termina em São Paulo.

O PT terá candidato próprio ao governo em 12 estados. Nos demais, com exceção de Roraima, dividirá ou entregará o palanque de Lula a outras legendas. Entre elas estão PSD, MDB, União Brasil e PP.

Em Sergipe, o PT acertou apoio à candidatura de André Moura, do União Brasil, ao Senado. Moura foi escudeiro de Eduardo Cunha na Câmara, participou da ofensiva contra o governo Dilma e votou a favor do impeachment em 17 de abril de 2016.

Agora, aparece ao lado de Rogério Carvalho, do PT, como integrante de uma chapa apresentada ao eleitorado para sustentar Lula.

No Maranhão, André Fufuca, do PP, também votou pela derrubada de Dilma. Nem por isso deixou de se tornar ministro de Lula e aliado eleitoral do presidente.

Em Alagoas, o palanque passa pelo MDB. Lula gravou material de campanha ao lado de Renan Filho e Renan Calheiros. Este último presidia o Senado durante o processo de impeachment e conduziu os trabalhos que terminaram com a retirada de Dilma da Presidência.

No Rio de Janeiro, o PT abriu mão de candidatura própria para apoiar Eduardo Paes, do PSD.

A direita entrou e passou a mandar

A transformação não ficou restrita às chapas eleitorais. A presença cada vez maior da direita dentro do bloco governista veio acompanhada de uma política também cada vez mais adaptada às exigências da burguesia.

No início do mandato, o governo falava em reindustrialização, retomada do investimento estatal e fortalecimento do BNDES. Fernando Haddad acabou impondo o marco fiscal e a contenção dos gastos públicos.

Os juros permaneceram extraordinariamente elevados. A chegada de Gabriel Galípolo à presidência do Banco Central não trouxe a mudança prometida durante anos pelo PT. Prosseguiram também as concessões de rodovias, ferrovias, portos e outros setores fundamentais da economia.

Nem isso satisfez os grandes capitalistas. Antes mesmo das eleições, o mercado financeiro já prepara a cobrança para um eventual quarto mandato de Lula: mais cortes, novas reformas e até outro ataque à Previdência.

A frente ampla foi apresentada como um instrumento para derrotar a direita. Na prática, deu à direita instrumentos para pressionar o próprio governo.

O mesmo aconteceu no terreno dos direitos democráticos. Sob o pretexto de combater Bolsonaro, o PT aderiu à política repressiva do Supremo Tribunal Federal e passou a aceitar censura, bloqueio de perfis, prisões arbitrárias e o fortalecimento do Judiciário.

Alimentando os próprios carrascos

O caso da Polícia Federal mostra onde essa política pode chegar.

A corporação participou ativamente da Lava Jato, operação que ajudou a preparar o golpe, destruiu parte importante da base política do PT e retirou Lula das eleições de 2018. O atual presidente ficou preso durante 580 dias na superintendência da PF em Curitiba.

Nem essa experiência levou o governo a romper com a política de fortalecimento da corporação.

No fim de julho, Lula sancionou uma lei que amplia os recursos destinados ao Funapol, fundo da Polícia Federal, inclusive com a possibilidade de repasses adicionais do Tesouro Nacional em 2026.

Trata-se da mesma instituição que mantém extensa cooperação com órgãos de espionagem dos Estados Unidos e que já atuou em investigações abastecidas pelo FBI e pelo Mossad. Agora, setores da PF voltam a aparecer em denúncias de interferência política, desta vez em inquéritos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva.

Lula fortalece um aparelho que já foi utilizado para prendê-lo e tirá-lo de uma eleição.

É a mesma cegueira que aparece na frente ampla. O PT concede ministérios, candidaturas e espaço a personagens que ajudaram a derrubar Dilma e depois apresenta essa aliança como barreira contra a direita.

A abertura da campanha na Vila Euclides deixou essa contradição exposta. No lugar das históricas assembleias que projetaram Lula a partir da mobilização independente da classe operária, o presidente iniciou a corrida eleitoral de 2026 cercado pelos abutres do golpe de Estado.

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