O editorial Só a privatização salva os Correios, do Estadão, publicado nesta quarta-feira (3), mostra o parasitismo dos capitalistas que não investem, mas ficam esperando o momento de se apoderarem de empresas construídas com o financiamento estatal e o suor do povo, que é quem paga os impostos e mantém a sociedade funcionando.
Os Correios são uma empresa formidável, é uma gigantesca rede montada que cobre praticamente todo o território nacional e consegue interligar todas as regiões. Uma empresa privada jamais faria isso, pois as regiões isoladas, ou pouco lucrativas, seguramente ficariam de fora.
Como sempre, a justificativa para as privatizações são os prejuízos, o editorial inicia dizendo que “os Correios fecharam o primeiro trimestre deste ano com prejuízo de R$ 3,16 bilhões, quase o dobro do rombo registrado no mesmo período do ano passado, de R$ 1,72 bilhão. Foi o 14.º trimestre consecutivo de perdas, um resultado que lamentavelmente não surpreende. Nada parece ser capaz de reverter a trajetória acelerada da empresa rumo à ruína.”
A “solução” que apenas agrava os problemas é a de sempre: “o tímido plano de recuperação apresentado no fim do ano passado, centrado em leilão de imóveis ociosos, reestruturação de linhas de entrega e um Plano de Desligamento Voluntário (PDV), não tem sido suficiente para a retomada do equilíbrio econômico-financeiro. A meta era que 10 mil funcionários aderissem ao PDV, mas somente 4.632 aceitaram as condições propostas.” O resultado já é conhecido, a empresa vai diminuir sua capacidade operacional e, na verdade, apenas está se preparando para ser privatizada.
Sucateamento
Há muitas décadas, os Correios são cobiçados e, por isso, vitimizado por políticas sucessivas de sucateamento, e mesmo impedindo que a empresa se modernizasse para se adaptar às transformações que todo mercado sofre.
Os Correios têm potencial para ser uma empresa extremamente lucrativa, e por isso mesmo é alvo de tanta cobiça.
É preciso lembrar que a famosa “Taxa das Blusinhas”, implementada pelo governo Lula, foi um duro golpe nos Correios, que tiveram uma queda acentuada nas entregas
Diante disso, o Estadão diz que “se a redução da demanda por serviços postais tradicionais é um fato inexorável, o mercado de encomendas registra concorrência cada vez maior. Disputá-lo requer a prestação de serviços mais eficientes, ágeis e de qualidade, requisitos obrigatórios para empresas privadas, mas que estatais de estrutura paquidérmica como os Correios têm enorme dificuldade de atingir.”
Se a estrutura estatal é “paquidérmica”, por que os dinâmicos capitalistas não criaram eles mesmos uma empresa similiar?
Isso também se dá no setor energético. Os capitalistas não são capazes de construir uma única usina hidrelétrica, mas são os primeiros da fila a criticar e a querer comprar.
Depois que compram, começam a surgir os inúmeros problemas. A privatização da telefonia no Brasil fez os preços aumentarem em até dez vezes. No setor de águas e saneamento, toda hora aparece alguma questão de desabastecimento, falta de investimentos e preços muito elevados.
Quanto à eletricidade, ocorre uma verdadeira catástrofe: uma simples ventania pode deixar centenas de milhares de pessoas sem energia elétrica por dias. Isso na principal cidade do País: São Paulo.
A Enel demitiu pelo menos 30% dos funcionários da Eletropaulo, não investe, aumenta o quanto quer o preço da energia e remete gordos lucros para o exterior. Mas, obviamente, quando se constata a total inoperância e fiasco das privatizações, a culpa é das “mudanças climáticas”.
Trabalhar até morrer
As privatizações que o Estadão tanto quer, eu que prometem ser o paraíso, conseguem sua “eficiência” submetendo funcionários a condições degradantes de trabalho.
A Amazon, uma das prováveis interessadas na privatização dos Correios, tem sofrido protestos crescentes no mundo inteiro.
Os trabalhadores relatam condições de trabalho insalubres e com risco de lesões. Galpões extremamente quentes no verão, poucas pausas para hidratação mais a pressão constante por metas. Um entregador de Nova Iorque relatou entregar cerca de 300 pacotes por dia. E quanto mais se faz, mais a empresa cobra.
Em 2024, a Amazon foi responsável por 56% dos casos graves de lesão no setor de armazenagem nos EUA.
Existe o controle de um sistema de cotas monitorado por scanners que rastreiam a produtividade em tempo real, e quem leva mais tempo é identificado como problemático.
A equipe de primeiros socorros da empresa (AmCare) é orientada a tratar as lesões internamente para evitar registro de acidentes e afastamento de funcionários.
A Amazon tem um histórico de resistir à formação de sindicatos e, em alguns casos, é acusada de “bargaining in bad faith” (negociação de má-fé). Em Quebec, Canadá, a empresa fechou todas as suas instalações em janeiro de 2025, eliminando cerca de 2.000 empregos, logo após um armazém local ter se sindicalizado e iniciado negociações.
Na noite de 10 de dezembro de 2021, um tornado de categoria EF-3 (ventos estimados em 240 km/h) atingiu diretamente a instalação da Amazon conhecida como DLI4, derrubou uma parede e colapsou um telhado que desabou sobre funcionários, deixando 6 deles mortos.
O detalhe é que vários dos funcionários mortos não deveriam estar no local naquele horário, mas foram pressionados a trabalhar.
Apesar de o serviço meteorológico ter emitido alertas com 36 horas de antecedência sobre o risco de tornados, a Amazon não suspendeu as atividades. Funcionários que sobreviveram relataram em processos judiciais que tentaram deixar o prédio antes da tempestade, mas foram ameaçados de demissão por supervisores caso se retirassem.
Essa maravilha de “serviços mais eficientes, ágeis e de qualidade, requisitos obrigatórios para empresas privadas”, que o Estadão vende para os desavisados, nada mais é que superexploração do trabalho.
Os entregadores dessas empresas são tratados como autônomos ou parceiros, e assim não arcam com os custos dos direitos trabalhistas.
Enquanto as empresas relatam lucros crescentes, os reajustes salariais não seguem sequer a inflação. No Reino Unido, o sindicato Unite destacou que a empresa reportou lucros operacionais de 6,1 bilhões de euros em 2025, mas ofereceu apenas 3% de reajuste aos funcionários.
O que a burguesia quer, e o Estadão não passa de um papagaio de seus interesses, é lucrar bilhões em cima da miséria do trabalhador.
Enquanto empresas ganham montanhas de dinheiro e remetem seus lucros para o exterior, o brasileiro vai perdendo seus direitos, fica cada vez mais pobre e sem seus direitos básicos.





