A deputada federal Tábata Amaral afirmou nessa quarta-feira (29), durante a convenção nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB), em Brasília, que a aliança entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin seria um exemplo de defesa da democracia e da soberania nacional.
O encontro confirmou Alckmin mais uma vez como candidato a vice-presidente na chapa de Lula. Em seu discurso, Tábata disse que os dois antigos adversários teriam demonstrado “grandeza” ao se unirem nas eleições de 2022.
“Lula e Alckmin não são o passado da política brasileira. Eles são mestres do futuro que queremos e vamos construir”, declarou. Uma exaltação da frente ampla – afinal, essa frente serve justamente aos interesses do PSB, do imperialismo e do sionismo no Brasil.
A deputada também defendeu a eleição de uma maioria parlamentar supostamente comprometida com a soberania brasileira. Segundo ela, o PSB estaria preparado para enfrentar políticos que questionam as eleições, apoiam tarifas contra o Brasil e recorrem a governos estrangeiros para atacar o País.
A propaganda esconde o caráter do partido que se tornou um dos principais pilares da famigerada frente ampla. Confirmando seu caráter de partido que agrupa a sombra da burguesia, o PSB não apenas recebeu Geraldo Alckmin e outros políticos da velha direita decadente, como também reúne figuras diretamente vinculadas ao sionismo.
Projeto para censurar críticas a “Israel”
Tábata Amaral é a expressão mais evidente dessa política dentro do partido. Em 26 de março, a deputada apresentou o Projeto de Lei nº 1.424/2026, que pretende incorporar à legislação brasileira a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês).
A definição vem sendo utilizada por organizações sionistas em diversos países para identificar críticas a “Israel” com perseguição aos judeus. Sob o pretexto de combater o antissemitismo, o projeto abre caminho para incriminar os críticos da ocupação da Palestina, do genocídio em Gaza e da própria ideologia sionista.
Segundo reportagem do Intercept Brasil, a StandWithUs participou da articulação da proposta. A entidade é uma organização internacional de propaganda em defesa de “Israel”, dirigida no Brasil por André Lajst, um dos principais defensores do projeto.
O objetivo não é proteger os judeus contra perseguições. A legislação brasileira já pune a discriminação religiosa e racial. A novidade do projeto é dar às organizações sionistas um instrumento para perseguir partidos, jornalistas, movimentos e ativistas que denunciam os crimes cometidos contra o povo palestino.
A parlamentar que subiu à tribuna da convenção para falar em soberania nacional patrocina, portanto, uma proposta elaborada sob a influência de uma organização ligada aos interesses de um Estado estrangeiro. Além disso, ela foi destaque no Fórum Global do Comitê Judaico Americano, um grande evento realizado no ano passado, no qual ela discursou em apoio total ao sionismo em pleno genocídio de Gaza.
Tábata ocupa ainda uma posição de destaque no PSB. Além de ser uma das principais figuras públicas do partido, é casada com João Campos, prefeito do Recife e presidente nacional da legenda. Sua atuação não pode ser apresentada como uma iniciativa isolada ou sem importância para a orientação partidária.
Alckmin, tucano sionista
Geraldo Alckmin também possui relações antigas com as organizações sionistas.
Quando ainda integrava o PSDB, visitou “Israel” acompanhado pelo rabino Henry Sobel. Em atividades promovidas pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), declarou sua admiração por “Israel” e chegou a afirmar que “o sangue judaico está na certidão de nascimento do Brasil”.
A declaração mistura deliberadamente os judeus brasileiros com o Estado de “Israel”, como se uma religião ou uma comunidade inteira estivesse automaticamente ligada ao sionismo. Essa confusão proposital é justamente o que permite às organizações sionistas acusar os críticos de “Israel” de antissemitismo.
Em fevereiro de 2024, quando Lula comparou corretamente o massacre na Faixa de Gaza aos crimes praticados pelo regime nazista, Alckmin evitou defender o presidente contra os ataques do governo de Netaniahu. Limitou-se a declarar que Lula seria um homem comprometido com a paz.
Mais tarde, como presidente em exercício, Alckmin recebeu representantes do sionismo organizado em uma reunião oficial do governo, por iniciativa de Clara Ant.
Esse é o homem apresentado por Tábata – e pelo governo do PT – como exemplo de soberania nacional: um político com relações consolidadas com os representantes brasileiros de um Estado genocida sustentado econômica, política e militarmente pelo imperialismo norte-americano.
Do bolsonarismo ao PSB
A senadora Soraya Thronicke é outro exemplo do tipo de político abrigado pelo partido.
Eleita em 2018 pelo PSL, na onda que levou Jair Bolsonaro à Presidência, Soraya integrou em 2019 a comitiva oficial do governo brasileiro a “Israel”. Também participaram da viagem Flávio Bolsonaro, Bia Kicis e outros integrantes do bolsonarismo.
Na ocasião, Bolsonaro apareceu ao lado de Netaniahu e declarou em hebraico: “eu amo Israel”. A viagem fazia parte da campanha para aproximar o Brasil do sionismo e transferir a embaixada brasileira para al-Quds, nome original de Jerusalém.
Seguindo a política da burguesia, Soraya rompeu posteriormente com Bolsonaro, passou pelo União Brasil e pelo Podemos e chegou ao PSB, onde anunciou apoio à reeleição de Lula. Não há registro de uma revisão pública de sua participação naquela política.
A mudança de partido foi suficiente para que uma senadora oportunista e sionista passasse a integrar o campo apresentado como democrático e progressista.
Abrigo da velha direita
Tábata Amaral é hoje a principal figura pública do sionismo no PSB, mas está longe de ser a única dirigente do partido ligada aos interesses de “Israel”. Ao seu lado aparecem Alckmin e, com uma trajetória anterior no bolsonarismo, Soraya Thronicke.
O problema revela a verdadeira função do PSB. A legenda serve de abrigo para políticos da direita tradicional que perderam espaço ou se desgastaram em seus partidos de origem – ou cujos próprios partidos de origem, como o PSDB, entraram em bancarrota.
Alckmin governou São Paulo pelo PSDB, reprimiu professores, estudantes e trabalhadores e apoiou o golpe contra Dilma Rousseff. Márcio França também passou pelo PSDB e declarou voto em Bolsonaro no segundo turno de 2018. Soraya foi eleita pelo partido de Bolsonaro.
Outras figuras da direita são incorporadas ao mesmo bloco por meio da aliança com o PT, como Simone Tebet, representante do latifúndio de Mato Grosso do Sul, que se filiou ao PSB em março.
O nome “socialista” permite ao PSB apresentar esse pessoal à esquerda como se tivesse sofrido uma transformação política. Não houve transformação alguma. Alckmin não deixou de ser representante dos grandes capitalistas porque trocou o PSDB pelo PSB. Soraya não adquiriu uma política de esquerda porque rompeu com Bolsonaro.
O que mudou foi a embalagem.
Por meio da coligação com o PT, o PSOL e o PCdoB, o PSB infiltra na esquerda os quadros fracassados da direita tradicional. Depois de reciclados, eles recebem ministérios, candidaturas, mandatos e posições centrais na campanha eleitoral. O objetivo é assumir o próprio lugar do PT, resgatando das cinzas os partidos e figuras mais impopulares da história recente do País.
Em vez de apoiar-se nos trabalhadores e mobilizar sua própria base, o PT prejudica sua imagem para reabilitar Alckmin, Márcio França, Soraya Thronicke, Simone Tebet e outros representantes da burguesia. Os fracassados da direita ganham uma segunda vida, enquanto o peso político do PT dentro de sua própria coligação diminui.





