A presidente do México, Claudia Sheinbaum, denunciou a presença não autorizada de agentes da CIA em uma operação no estado de Chihuahua, no norte do país. O caso veio à tona após a morte de dois norte-americanos identificados como agentes da inteligência dos EUA e de dois policiais mexicanos em um acidente de carro durante uma ação contra laboratórios clandestinos de drogas.
Segundo o Gabinete de Segurança do México, os dois agentes mortos não tinham autorização para atuar em território mexicano. A informação foi divulgada no sábado (25), em meio a uma crise diplomática sobre a atuação de agentes estrangeiros no país.
A operação ocorreu no fim de semana anterior, durante uma ação para desmantelar laboratórios clandestinos em Chihuahua. O veículo que levava os dois agentes da CIA e dois policiais mexicanos saiu da pista, caiu em um barranco e explodiu. Os quatro ocupantes morreram.
De acordo com o governo mexicano, um dos cidadãos norte-americanos entrou no país com visto de visitante, documento que não permite atividade remunerada. O outro apresentou passaporte diplomático. Mesmo assim, o Gabinete de Segurança afirmou que não existia registro nem conhecimento prévio da presença de agentes estrangeiros em atividade operacional no território mexicano.
O comunicado afirmou que as instituições do Gabinete de Segurança e o Ministério das Relações Exteriores “não tinham conhecimento sobre a presença de agentes estrangeiros operando ou planejando participar de qualquer atividade operacional” no país.
Sheinbaum afirmou que a presença dos agentes viola os protocolos de segurança nacional do México e pode contrariar a Constituição e as leis do país. A presidente disse que nem o Exército mexicano nem a chancelaria foram informados sobre a participação estrangeira na operação.
“Evidentemente, a Defesa não sabia que havia pessoas participando que não eram cidadãos mexicanos e que não faziam parte das agências de segurança do estado de Chihuahua”, afirmou Sheinbaum.
A presidente destacou que qualquer operação com participação de agentes estrangeiros precisa ser autorizada pelo governo federal mexicano, em especial pela Secretaria de Relações Exteriores.
“Isso necessariamente deve passar pelo governo federal e, particularmente, pela Secretaria de Relações Exteriores. Está previsto na Constituição e nas leis. Não deve ser tratado com leviandade”, declarou.
O caso diz respeito à Lei de Segurança Nacional, reformada em 2020 durante o governo de Andrés Manuel López Obrador. A mudança restringiu a atuação direta de agentes estrangeiros no México e limitou a cooperação internacional ao compartilhamento de informações, coordenação institucional e apoio técnico.
Em 2025, o Congresso mexicano também aprovou alterações legais impulsionadas por Sheinbaum para endurecer punições contra atividades de espionagem estrangeira. A medida ocorreu em meio à pressão do presidente norte-americano Donald Trump para ampliar a intervenção dos EUA no combate aos cartéis de drogas na América Latina.
A presidente mexicana foi enfática ao rejeitar operações estrangeiras em solo mexicano.
“Não aceitamos participação em campo, em operações. Isso está muito claro”, afirmou Sheinbaum.
Segundo ela, o governo mexicano já comunicou ao presidente Trump que uma intervenção direta dos EUA no país não é necessária.
“Em todos os casos dissemos ao presidente Trump que isso não é necessário. A forma como estamos colaborando tem sido muito boa, e qualquer outro cenário violaria nossa Constituição e nossas leis. Somos muito rigorosos na defesa da soberania nacional”, disse.
Desde a morte dos dois agentes, autoridades dos EUA e do México apresentaram versões divergentes sobre o caso. Inicialmente, o embaixador dos Estados Unidos no México, Ronald Johnson, afirmou que os norte-americanos eram “funcionários da embaixada” e estavam apoiando autoridades de Chihuahua no combate a operações dos cartéis.
O procurador-geral de Chihuahua, César Jáuregui, também afirmou em um primeiro momento que os mortos eram “oficiais instrutores” envolvidos em um curso sobre uso de VANTs. Depois, segundo as informações divulgadas, a versão mudou, e os funcionários passaram a ser descritos como agentes ligados a atividades de apoio técnico na região.
A embaixada dos EUA se recusou a identificar os dois norte-americanos ou informar a qual órgão do governo pertenciam. O Departamento de Estado e a CIA também não comentaram o caso oficialmente. A Casa Branca, por meio da porta-voz Karoline Leavitt, cobrou “um pouco de compaixão” de Sheinbaum após a morte dos agentes.
“Um pouco de compaixão por parte de Claudia Sheinbaum seria bem-vinda após a perda dessas duas vidas norte-americanas, considerando tudo o que os Estados Unidos estão fazendo para conter o narcotráfico no México”, afirmou Leavitt à Fox News.
Informações posteriores indicaram que outros dois agentes norte-americanos seguiam em um veículo separado e tentaram resgatar os ocupantes do carro acidentado, sem sucesso. Também foi informado que os agentes teriam usado uniformes da Agência Estatal de Investigação de Chihuahua para se misturar às forças locais.
O caso levou o governo mexicano a enviar uma nota diplomática de protesto aos EUA, exigindo informações sobre a identidade dos agentes, o propósito da missão e a forma como entraram no país. Sheinbaum também determinou que a secretária de Governo, Rosa Icela Rodríguez, se reunisse com a governadora de Chihuahua, María Eugenia Campos Galván, conhecida como Maru Campos, para esclarecer o caso.
A governadora anunciou a criação de uma unidade especializada para investigar tanto o desmantelamento do laboratório clandestino quanto as circunstâncias do acidente. Ela também foi convocada pelo Senado mexicano para prestar esclarecimentos. Parlamentares passaram a defender sua destituição por suposta colaboração irregular com autoridades norte-americanas.
O Gabinete de Segurança afirmou pesar pela morte das quatro pessoas no acidente, mas reiterou que a lei mexicana proíbe agentes estrangeiros de participarem de operações em território nacional. Segundo o governo mexicano, a cooperação com os EUA deve se limitar ao intercâmbio de informações, à coordenação entre instituições e à colaboração técnica.




