A Folha de S. Paulo publicou na quinta-feira (30) um artigo de opinião de Ricardo Lewandowski intitulado A era da pós-verdade e as eleições de outubro, que inicia dizendo que “em 2016, o Dicionário da Universidade de Oxford escolheu ‘post-truth’ (‘pós-verdade’), como a palavra do ano, descrevendo-a como ‘circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais’.”
Com a “pós-verdade”, supostamente, a questão central deixa de ser se uma afirmação é empiricamente verdadeira ou falsa, e passa a ser o quanto ela encontra afinidade emocional com as convicções prévias de um indivíduo ou grupo.
Lewandowski diz em seguida que “embora conhecida há tempos, ela ganhou consistência entre os anos 2015 e 2016, diante de acontecimentos que impactaram a geopolítica contemporânea, com destaque para o referendo britânico sobre a saída da União Europeia e a eleição presidencial dos Estados Unidos.” Mas, de fato, o termo não tem consistência e tem sido utilizado como uma ferramenta para censura, ou para classificar quaisquer opiniões divergentes como irracionais.
Segundo o texto, “a expressão identifica o fenômeno da circulação de informações falsas ou enganosas, emocionalmente apelativas, sobretudo através de mídias sociais, não raro geradas por meio de inteligência artificial, que adulteram ou distorcem a realidade dos fatos.” Porém, o uso (como a viralização de fake news e a polarização nas redes sociais) não passa de embuste, simplificação e uma armadilha conceitual, típica de um ambiente repressivo.
A essa altura, é útil que o leitor se lembre de que Ricardo Lewandowski era ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2016, quando essa corte foi fundamental para o golpe de Estado contra Dilma Rousseff; e também em 2018, quando da Operação Lava Jato, que culminou na prisão de Luís Inácio Lula da Silva em uma das maiores fraudes judiciais de que se tem notícia, onde o que não faltou foi “pós-verdade”.
O ex-ministro escreve que “Hannah Arendt, muito antes, já advertia, em sua consagrada obra ‘Origens do Totalitarismo’, que a destruição sistemática da verdade não busca apenas levar as pessoas a acreditarem em mentiras, mas corrói a própria crença na existência de uma verdade objetiva que pode ser conhecida.” Aquilo que a grande imprensa faz desde sempre.
Para Lewandowski, “o sistemático falseamento da verdade factual, cada vez mais recorrente, faz com que a vida pública perca o seu contato com a realidade e coloque em risco a própria democracia, tornando-a vulnerável a toda a sorte de manipulações.” Então, seria oportuno que ele explicasse, à luz da ‘pós-verdade’, o que foi o julgamento do Mensalão em 2012, ou Ação Penal 470, outra farsa monumental da Justiça brasileira, onde o STF cumpriu o papel de perseguir e tentar destruir o Partido dos Trabalhadores.
“O debate democrático”, prossegue Lewandowski, “depende do compartilhamento de um conjunto básico de fatos entre as pessoas, sobre os quais não pairem quaisquer dúvidas, inobstante possam elas legitimamente divergir no tocante ao significado ou aos valores que encerram, sem que lhes seja lícito tergiversar quanto à sua ocorrência na realidade concreta, sob pena de tornar impossível qualquer diálogo racional.”
Não existe debate democrático. No Brasil, opinião virou crime, existem leis que punem o pensamento, questões subjetivas, sobre as quais é impossível que não se tenha dúvidas. Misoginia, por exemplo, o que isso define exatamente? É um termo que pode dar margem a inúmeras interpretações, mas que pode levar pessoas a serem condenadas à prisão.
O texto de Lewandowski, na verdade, vai gradualmente se encaminhando para a justificativa da censura e utiliza para isso as eleições. Segundo escreve, “a democracia pressupõe plena liberdade de escolha dos governantes, por parte dos eleitores, sendo imprescindível que, ao depositarem os respectivos votos nas urnas, façam suas escolhas a salvo de quaisquer constrangimentos físicos, morais ou psicológicos com o potencial de induzi-los a erro ou deturpar a espontaneidade de sua vontade soberana.” Se isso for verdade, que liberdade tiveram os eleitores após a prisão de Lula? Nenhuma. A Justiça prendeu Lula e o impediu ilegalmente de concorrer às eleições. Além disso, vídeos contendo Lula foram retirados da campanha de Fernando Haddad, o que caracterizou uma ampla manipulação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o pleito.
Finalmente, o autor faz sua pergunta retórica: “Como podem os cidadãos, nessa nova era, defender-se das chamadas fake news, em especial as geradas pela inteligência artificial e impulsionadas por robôs?” Para então responder que “primeiramente, precisam conferir a origem da informação antes de compartilhá-la com terceiros. Depois, têm de identificar a data e o contexto em que foi produzida, abstendo-se de difundir conteúdo duvidoso ou não verificado. Por fim, devem utilizar apenas canais oficiais e fontes confiáveis para formar sua convicção.”
Ninguém tem de ser obrigado a conferir nada se ainda estiver valendo a liberdade de expressão. Além disso, quais são as “fontes confiáveis”, a grande imprensa golpista que atuou com cumplicidade no Mensalão, Lava Jato e linchamento da esquerda?
Lewandowski afirma que é “essencial enfrentar as atuais milícias digitais, que as divulgam”, mas não explica que “milícia digital” é uma invenção muito oportuna para justificar a repressão e a censura nas redes. No País, inclusive, foi aberto um inquérito pelo STF, o das Fake News (assim mesmo, em língua estrangeira), que não tem prazo para encerrar, o que fere flagrantemente a Constituição.
Quando o ex-ministro fala de “evitar” ataques a pessoas e instituições, está, na verdade, informando que é proibido criticar, como já vem acontecendo.
Existe um antigo dito popular que alerta que, quando uma pessoa não para de falar em honestidade, é melhor tomar cuidado com a carteira. Ninguém, portanto, deve levar a sério que haja tanta preocupação com a democracia da parte de representantes da burguesia.
O termo “pós-verdade” sugere no prefixo “pós-” a existência de uma era anterior em que o debate público era guiado estritamente pela razão, pelos fatos e pela imparcialidade. O que não passa de uma grande falsificação. Nunca existiu uma “Idade da Verdade”.
Lewandowski termina seu texto dizendo que “impedir a proliferação de notícias falsas e a naturalização da pós-verdade é dever de todos para a preservação da democracia, único regime que pode assegurar uma convivência minimamente civilizada às presentes e futuras gerações.” Esse falso paternalismo, de ‘defesa da convivência e das futuras gerações’, serve apenas para criar a ilusão de que existe de fato uma preocupação com a verdade, e é só por isso que as leis estão cada vez mais draconianas e repressivas.




