O artigo Estamos assistindo a política e a polícia riscarem o nome Bolsonaro da urna para presidente, de Aquiles Lins, publicado no Brasil 247 nesta quinta-feira (21), nos faz lembrar que a criminalização da política é uma constante no Brasil.
A esquerda, que historicamente foi perseguida, deveria ter aprendido que abordar a política do ponto de vista da polícia favorece apenas a direita, que controla o aparato de repressão.
Os escandalos que atingem a direita são sempre fruto de choques de interesses. Sendo assim, quando Lins escreve que “a crise envolvendo Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro se transformou rapidamente numa ameaça estrutural ao projeto político do bolsonarismo em 2026”, é preciso pensar: quem se favorece com isso?
Bolsonaro foi eleito, em 2018, porque a burguesia não conseguiu emplacar um candidato de terceira via. O único candidato que se restava era Jair Bolsonaro que vinha com um inconveniente, tinha uma base política e, portanto, seria difícil de ser controlado.
Com a reeleição de Lula o problema se recolocou para a burguesia: o Brasil segue polarizado entre Lula e Bolsonaro, e isso atrapalha o plano do candidato próprio da burguesia.
A solução encontrada foi: prender Bolsonaro e negociar sua soltura em troca do apoio do candidato escolhido. O ex-presidente, no entanto, dobrou a aposta e indicou seu filho, Flávio Bolsonaro, para concorrer em seu lugar e transferindo a ele seus votos.
O escândalo com o Banco Master mostra que a burguesia ainda pretende colocar um candidato seu na presidência. E esse candidato terá como missão aprofundar as políticas neoliberais para que o imperialismo possa sangrar ainda mais as riquezas do País, a exemplo do que se vê na Argentina.
O efeito
Até o momento, o áudio vazado do pré-candidato com Daniel Vorcaro tem surtido efeito. Como diz o artigo, “parlamentares afirmam que, quando o caso Master começou a circular em Brasília após o Carnaval, Flávio minimizou internamente qualquer risco político. Inclusive fez uma longa viagem pelo exterior. Publicamente, negou relações com Vorcaro mesmo depois de seu telefone aparecer na agenda do banqueiro. Hoje, diante da sequência de revelações — áudios, encontros pessoais, negociações financeiras e suspeitas sobre financiamento do filme Dark Horse — a avaliação interna é de que o senador tentou apenas ganhar tempo até atravessar o prazo de desincompatibilização sem concorrência”.
A grande imprensa tem dado destaque e contribuído para o escândalo, pois é porta-voz da burguesia e interessa tirar votos de Flávio Bolsonaro. Se este fosse o nome escolhido pelo grande capital, seguramente estaria protegido.
A imprensa de esquerda também tem dado destaque, mas por motivo diferente: pensa na reeleição de Lula enquanto a burguesia manobra pela terceira via.
Não é difícil de acreditar que “a consequência foi catastrófica para o partido. Em vez de administrar a crise preventivamente, o PL foi jogado numa posição defensiva pela imprensa e pelas investigações que avançam em Brasília”, o caso está sendo bastante explorado.
Segundo o artigo, e pode ser que aconteça, existe “a possibilidade de novos áudios, novas revelações financeiras ou novas conexões emergirem nas próximas semanas”. A mesma polícia que já protegeu os Bolsonaros no passado, serve agora para incriminá-los. Diante disso, como escreve Lins, “as pesquisas já começam a registrar os primeiros efeitos concretos da crise. O levantamento AtlasIntel/Bloomberg mostrou queda expressiva de Flávio Bolsonaro, que perdeu mais de cinco pontos percentuais em apenas um mês. Dentro do PL, consolidou-se um “prazo implícito” de 10 a 15 dias para avaliar se o senador conseguirá conter a deterioração política”.
Polarização
Embora a esquerda esteja festejando a queda de alguns pontos de Flávio Bolsonaro, a verdade é que falta bastante ainda para as eleições. A história tem mostrado que políticos envolvidos com a lei podem ser beneficiados, como aconteceu com Lula, que se reelegeu, e mesmo Donald Trump, que viu seu apoio crescer após uma avalance de processos e tentativas de prisão.
Muita gente na esquerda tem a ilusão de Flávio Bolsonaro, ou Ciro Nogueira, estão tendo problemas porque são corruptos, mas não é disso que se trata. A corrupção é inerente ao capitalismo e isso se infiltra em todos os setores do Estado.
A esquerda, de modo geral, não consegue enxergar a manobra atrás da divulgação da conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Caso o pré-candidato saia da disputa, como seu pai, é muito provável que a oposição se una contra Lula, o que pode diminuir suas chances de vitória.
Para Aquiles Lins, “a grande questão agora é saber se Flávio Bolsonaro conseguirá romper essa dinâmica de desgaste antes que o próprio partido conclua que sua candidatura se tornou um risco eleitoral grande demais para ser carregado até 2026. Com isso não teremos um Bolsonaro nas urnas para a disputa presidencial. Um golpe fatal e uma resposta triunfal da democracia”.
O que está acontecendo está longe de ser um golpe fatal contra o bolsonarismo, muito menos uma reposta triunfal da democracia. É preciso insistir nesse ponto, pois não vivemos em uma “democracia”. A “resposta triunfal” nada mais é que a burguesia se utilizando, desta vez contra um elemento de direita, a polícia, o Judiciário e a imprensa como elementos para manipular as eleições.





