O Plantão Irã, programa diário da Causa Operária TV (COTV) em parceria com o Diário Causa Operária (DCO), foi ao ar nesta quarta-feira (27) com comentários de Victor Assis e Pedro Burlamaqui sobre a guerra no Oriente Próximo. A edição tratou das negociações envolvendo a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos, dos ataques de “Israel” contra o Líbano e a Faixa de Gaza, do assassinato de Mohamed Odeh, novo comandante das Brigadas Al-Qassam, e de uma reportagem do The Intercept sobre baixas norte-americanas ocultadas pelo Pentágono.
No início do programa, Burlamaqui destacou informações divulgadas pela imprensa iraniana sobre um rascunho preliminar de acordo, chamado de “Quadro de Islamabade”. O documento, segundo a televisão estatal iraniana, apresentaria 14 pontos para o fim da guerra. Entre eles, estavam a retirada das forças militares norte-americanas da região, a suspensão do bloqueio naval, a restauração do fluxo comercial no Estreito de Ormuz em até 30 dias e a gestão da passagem pelo Irã em cooperação com Omã.
Os Estados Unidos negaram a autenticidade do documento. Donald Trump, por sua vez, afirmou que não haveria alívio de sanções contra o Irã e ameaçou “terminar o trabalho” caso a República Islâmica não aceitasse as imposições norte-americanas.
Victor Assis avaliou que as declarações de Trump demonstram a fragilidade da posição dos Estados Unidos. Segundo ele, se o imperialismo norte-americano tivesse condições de impor uma vitória militar rápida, não estaria arrastando a guerra por dois meses.
“Se o Trump só está perdendo com a guerra, qual que é o motivo dele estar esperando aí, pacientemente, que o Irã vá lá, aceite o que o Trump está pedindo? Não faz sentido nenhum. Porque, se esse é o problema, se o problema é que o Irã é teimoso e não quer aceitar o que os Estados Unidos têm condições de impor, o Trump teria ido lá e resolvido a situação. Teria destruído o país, como ele já prometeu várias e várias vezes.”
Assis afirmou que a guerra prejudica Trump internamente, pois o presidente norte-americano se elegeu prometendo encerrar as “guerras sem fim” e acabou colocando os Estados Unidos em uma nova crise militar.
“O único resultado concreto da guerra é que o Estreito de Ormuz, que antes estava aberto, agora está fechado. O que parece é que essas ameaças são parte dessa encenação toda, visando um acordo.”
A história do Irã
O programa também trouxe um bloco sobre a história iraniana, em preparação para o curso A história do Irã e da República Islâmica, que será realizado pela Universidade Marxista entre os dias 27 de junho e 5 de julho.
Victor Assis comentou um artigo publicado pelo DCO em 30 de abril de 2026, intitulado A ditadura que criou a maior classe operária do Oriente Próximo. O texto trata do desenvolvimento econômico iraniano durante a ditadura do xá Reza Pahlavi e da formação de uma classe operária poderosa, que teve papel decisivo na Revolução Iraniana de 1979.
Segundo Assis, a população urbana do Irã saltou de 31% para 47% entre 1953 e 1978. No mesmo período, o número de estudantes quadruplicou, chegando a 300 mil.
“Importante destacar só para reforçar o que nós estamos falando: o desenvolvimento econômico não vem de uma política nacionalista, mas vem do próprio imperativo do desenvolvimento do capital. O golpe foi dado, entre outros motivos, mas principalmente pelo fato de que o petróleo foi nacionalizado.”
A ditadura que criou a maior classe operária do Oriente Próximo
‘Israel’ ataca o Líbano
Na sequência, Burlamaqui tratou dos ataques de “Israel” contra a cidade libanesa de Tiro, uma das maiores do país, com cerca de 200 mil habitantes. A entidade sionista emitiu ordens de retirada e, cerca de duas horas depois, iniciou bombardeios contra a região. Segundo Burlamaqui, a ordem não tinha o objetivo real de proteger civis, pois seria impossível retirar uma população desse tamanho em tão pouco tempo.
Victor Assis afirmou que a responsabilização do Hesbolá pelo conflito não se sustenta. Ele lembrou que o partido libanês foi fundado para expulsar os invasores sionistas do Líbano.
“O Hesbolá foi criado para expulsar os invasores sionistas do Líbano. Não foi criado para agredir o Estado de ‘Israel’, agredir outro país. Ele foi criado porque se estabeleceu que o Estado de ‘Israel’ iria invadir sistematicamente os seus países vizinhos, a mando do imperialismo, obviamente.”
Assis também denunciou as ordens de evacuação como uma política de terror contra a população libanesa. Para ele, o objetivo de “Israel” é provocar deslocamentos em massa, criar caos interno e tentar quebrar o apoio popular ao Hesbolá.
Assassinato de Mohamed Odeh
O tema principal do programa foi o assassinato de Mohamed Odeh, novo comandante das Brigadas Al-Qassam, braço armado do Hamas. Odeh foi assassinado por “Israel” em um bombardeio contra um prédio residencial no bairro de Rimal, na Cidade de Gaza. Sua esposa e seus três filhos também foram assassinados no ataque.
Segundo dados do hospital Al-Shifa citados no programa, pelo menos seis pessoas foram assassinadas e 20 ficaram feridas. O bombardeio ocorreu em três ondas, enquanto a população se preparava para o Eid al-Adha, uma das principais festas islâmicas.
Burlamaqui destacou que Odeh havia assumido recentemente a liderança das Brigadas Al-Qassam. Ele ingressou nas brigadas em 2000, durante a Segunda Intifada, comandou um batalhão em Jabalia, atuou na fabricação de armas e teve papel importante na inteligência militar da resistência palestina.
Victor Assis avaliou que os assassinatos de dirigentes da resistência se tornaram uma política de “Israel” durante o cessar-fogo.
“‘Israel’ era capaz de fazer isso antes, poderia ter feito em dezembro, janeiro, fevereiro. Finalmente, é a grande especialidade deles, o assassinato. Eles estão assassinando agora, estão assassinando porque eles têm algum objetivo.”
Para Assis, uma das hipóteses é que a entidade sionista esteja tentando provocar o Hamas a romper o acordo de cessar-fogo e iniciar uma nova etapa da guerra. Outra possibilidade seria pressionar o partido palestino nas negociações. O comentarista afirmou, porém, que essa política não abala a direção do Hamas nem a população palestina.
EUA ocultam baixas
O último tema da edição foi uma reportagem do The Intercept, repercutida pela Hispan TV, sobre a ocultação de baixas norte-americanas durante a agressão militar na região. Segundo Burlamaqui, os números oficiais registravam 423 mortos e feridos, mas a reportagem apontou a omissão de casos de soldados e marinheiros atingidos.
Entre os episódios citados, está o caso de um oficial de comunicação da Guarda Nacional eliminado em março no Cuaite, confirmado pelo Departamento de Polícia de Nova Iorque, mas não incluído na lista oficial. O programa também mencionou o incêndio na lavanderia do porta-aviões USS Gerald Ford, que deixou mais de 200 marinheiros com problemas respiratórios e lesões, sem que esses casos fossem contabilizados como baixas.
Victor Assis afirmou que a reportagem reforça a avaliação de que Trump atua por meio de bravatas porque a situação militar norte-americana é ruim.
“Você entrar em guerra, gastar muito dinheiro, criar todo um clima de tensão mundial. Você não ganhar a guerra e você ainda voltar para casa com centenas, talvez milhares de cidadãos mortos. Nenhum governo consegue justificar isso daí.”



