Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou, no programa Análise Internacional desta quinta-feira (7), no canal do Diário Causa Operária no YouTube, que a ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã fracassou. A edição contou ainda com a participação de Afonso Teixeira, além da apresentação de Victor Assis e João Pimenta.
Ao tratar do anúncio de Donald Trump sobre a suspensão do chamado “Projeto Liberdade”, operação naval que pretendia escoltar navios no Estreito de Ormuz, Pimenta avaliou que o governo norte-americano não tinha alternativa diante do resultado da operação militar contra a República Islâmica.
“Uma coisa é certa, a operação militar fracassou. O Trump está procurando obter alguma coisa, não sei se ele tem ilusão de que ele vai conseguir alguma coisa de fato, através da pressão militar e da negociação diplomática. Mas o que eles foram fazer no Irã é um fracasso, é uma derrota. Não há dúvida nenhuma disso. Pode haver ainda alguma altercação, alguma escaramuça militar, mas eu não acredito que operações em grande escala vão ser retomadas contra o Irã. E isso é um fracasso muito grande do imperialismo.”
Segundo Pimenta, a imprensa internacional procura encobrir a dimensão da derrota norte-americana, dando grande destaque a cada declaração agressiva de Trump. Para o dirigente do PCO, no entanto, a situação do petróleo indica que os capitalistas já consideram que a guerra entrou em refluxo.
“Vamos ter que acompanhar muito de perto isso para ver as consequências desse fracasso. A imprensa internacional procura disfarçar esse fato. Toda vez que o Trump faz alguma bravata, eles dão como notícia. Mas é indisfarçável. A derrota é muito grande. Isso já se comprova pelo próprio valor do petróleo. O petróleo chegou a 120 dólares o barril e agora já está beirando 100. Ou seja, o mercado está consciente de que a treta acabou ou acalmou por um longo período.”
Afonso Teixeira também analisou a situação no Golfo Pérsico e afirmou que a escolta naval norte-americana era inviável. Segundo ele, a ausência de grandes porta-aviões dos Estados Unidos na região mostra que o imperialismo não tem condições imediatas de promover uma nova ofensiva aérea sistemática contra o Irã.
O programa também tratou dos efeitos da alta do petróleo sobre a economia europeia. Pimenta afirmou que a elevação do preço do barril tende a agravar a crise social na Europa, já atingida pela ruptura com o fornecimento russo de gás natural e pelo prolongamento da guerra na Ucrânia.
“Eu acho que sim, que o preço do barril de petróleo tende a ficar mais alto do que estava no começo. Isso vai ser um ônus muito grande para a economia, principalmente a economia europeia, que depende muito da importação de petróleo. Isso daí é mais um elemento que agrava a crise social europeia. Há uma série de fatores que estão transformando essa crise em uma crise potencialmente explosiva. Primeiro teve o conflito com a Rússia. A Rússia era o principal fornecedor de gás natural para a Europa. Aí nós vemos aí o conflito no Oriente Médio, com o Golfo Pérsico. Tudo isso daí vai demolindo a economia europeia.”
Crise do regime britânico
No início da edição, Pimenta analisou a crise do bipartidarismo no Reino Unido. Segundo ele, a política neoliberal aplicada durante décadas pelo Partido Conservador e pelo Partido Trabalhista destruiu a base social desses dois partidos, enquanto a agressão sionista contra Gaza acelerou a desmoralização do trabalhismo perante os setores populares.
“Bom, o motivo dessa crise é óbvio. A política neoliberal que levou a Inglaterra a uma situação de crise social muito grande acabou com os partidos que representavam essa política, o Partido Conservador e o Partido Trabalhista. E finalmente, a crise na Palestina, em Gaza, foi o golpe de misericórdia nesse sistema político. O sistema se aguentava aí com o Partido Trabalhista procurando se dizer democrático, ao lado do povo. A última ilusão sobre isso acabou com a Palestina.”
Pimenta destacou que o bipartidarismo britânico foi, durante décadas, uma forma de controle político do grande capital. Para o presidente do PCO, o fim desse monopólio indica uma crise profunda do regime imperialista britânico.
“Agora, eu acho que mais importante do que as causas são as consequências disso. Eu acho que muita gente tende a subestimar o acontecimento. O regime bipartidário permite um controle do grande capital sobre o regime muito rígido. Durante décadas, a Inglaterra viveu o sistema bipartidário, quer dizer, os dois partidos do grande capital, do imperialismo, governando um com uma certa retórica social e outro com uma retórica conservadora. Mas basicamente é quase que um regime de partido único, onde os dois partidos se comportam como se eles fossem alas do mesmo partido. Então a quebra desse monopólio político do grande capital é uma derrota e um sinal de crise muito acentuado.”
Ao comentar o crescimento de Nigel Farage, Pimenta afirmou que o dirigente da extrema direita britânica representa uma ala mais direitista do conservadorismo tradicional, mas sem a mesma estrutura partidária que sustentou historicamente o Partido Conservador.
“O Nigel Farage seria como a ala de extrema direita do Partido Conservador. Ele nunca de fato rompeu com a política do Partido Conservador. Agora, mesmo assim, vamos supor que ele ganhe a eleição. O partido dele não é o Partido Conservador. É um partido improvisado, é muito mais fraco, muito menos coeso, muito menos coerente do que o Partido Conservador. O que também é um sinal de crise.”
A esquerda na Europa
O debate avançou para a França e para o papel de Jean-Luc Mélenchon. Pimenta comparou a situação francesa com a movimentação em torno da criação de uma nova organização de esquerda na Inglaterra, ligada a Jeremy Corbyn. Segundo ele, há diferenças importantes entre as duas experiências, sobretudo pela relação da iniciativa inglesa com o movimento operário e os sindicatos.
“Acho que há um paralelo entre o partido do Jean-Luc Mélenchon e o partido de esquerda que está sendo criado na Inglaterra. Só que nós temos que entender o seguinte: na Inglaterra, o partido que está sendo criado tem uma proximidade muito grande com o movimento operário inglês e com os sindicatos. E já não é o caso do Jean-Luc Mélenchon, que já é um partido mais pequeno-burguês.”
Pimenta diferenciou essas experiências daquelas que marcaram o surgimento do Syriza, na Grécia, e do Podemos, na Espanha. Para ele, essas organizações eram variantes juvenis da social-democracia e terminaram absorvidas pela crise dos partidos tradicionais da esquerda europeia.
“Importante notar o seguinte: o que nós temos aí com Jean-Luc Mélenchon e o Corbyn na Inglaterra não é a mesma coisa que nós tivemos com o Syriza e o Podemos. O Syriza e o Podemos eram como o PSOL, uma variante juvenil da social-democracia. Eles não se colocavam numa situação de oposição real. Sem falar que, de um ponto de vista programático e político também, esses partidos não tinham nada a oferecer em especial, a não ser demagogia de tipo democrática.”
Ucrânia em decomposição
A guerra na Ucrânia também foi abordada no programa. João Pimenta citou denúncias de corrupção envolvendo o recrutamento ucraniano e rumores de disputas internas no regime de Volodimir Zelensqui. Pimenta afirmou que o regime ucraniano está em decomposição, mas segue sustentado pelo imperialismo e por grupos nazistas ligados à OTAN.
“A situação ucraniana é uma situação extremamente difícil. O regime político ucraniano está em franca decomposição, isso é muito evidente. Ele só não entra em colapso de uma vez porque o apoio do imperialismo é muito grande. Estão sustentando o governo do Zelensqui. Um governo que não chamou eleições, eles estão sustentando o governo assim mesmo.”
O presidente do PCO afirmou que o imperialismo sustenta o regime ucraniano por meio de dinheiro, pressão política e setores fascistas organizados no país.
“Uma coisa que a gente não ouve falar e seria interessante saber, mas eu acredito que é um fator também de sustentação do regime, são os grupos nazistas. Eu acho que esses grupos dão uma sustentação ao regime político. Eles sempre foram muito ligados ao imperialismo, sempre foram sustentados pela OTAN, e eles devem ser possivelmente o fator de sobrevivência do regime até o momento. Isso e o dinheiro do imperialismo.”
Pimenta avaliou ainda que a Rússia tem atuado com cautela no campo militar, buscando desgastar o regime ucraniano sem se expor a riscos maiores. Segundo ele, os russos identificam o enfraquecimento do inimigo e apostam na pressão contínua.
Trump e as operações teatrais
Outro ponto central do programa foi a política externa de Donald Trump. Pimenta afirmou que o programa original de Trump não era uma sucessão de guerras contra Irã, Venezuela e Cuba, mas que o presidente norte-americano assumiu compromissos com setores militaristas do imperialismo, representados por figuras como Marco Rubio.
“Olha, eu acho que o programa dele não era esse. Guerra com o Irã, Venezuela, Cuba, não era nada disso. Agora, na medida em que ele se tornou presidente dos Estados Unidos, ele teve que estabelecer uma série de compromissos. Embora não seja visível para muita gente, esses compromissos foram feitos com uma ala bastante militarista e belicosa do imperialismo. Todas são militaristas e belicosas. Por exemplo, a presença do Marco Rubio como secretário de Estado é o exemplo mais acabado desse tipo de compromisso que ele fez.”
Segundo Pimenta, Trump busca operações de aparência, com grande barulho político, mas sem a mesma profundidade das guerras promovidas por governos anteriores dos Estados Unidos, como as ofensivas contra a Iugoslávia, o Afeganistão e o Iraque. Ainda assim, o dirigente do PCO ressaltou que isso não transforma Trump em pacifista.
“Não vamos confundir o fato de que ele tenta procurar evitar o problema da guerra com ele ser pacifista, com ele ser legalista, coisa do gênero. O que aconteceu no Irã foi uma coisa criminosa. O assassinato do líder supremo, bombardeio das instalações civis. Foi criminoso e foi tipicamente imperialista.”
Ao comparar Trump com os democratas norte-americanos e os neoconservadores, Pimenta afirmou que estes últimos têm uma política militar mais agressiva e organizada. A diferença, segundo ele, está entre a retórica espalhafatosa de Trump e a profundidade das operações conduzidas por governos anteriores.
“Os falcões, os neoconservadores e os democratas são muito mais agressivos no terreno militar do que o Trump. É que o Trump faz as coisas com maior espalhafato, mas nós temos que separar a retórica dos fatos. O que nós vimos aí é que na Venezuela nem se pode dizer que foi uma operação militar, foi uma operação de infiltração, quase de espionagem.”
Europa explorou derrota de Trump
Na parte de perguntas, Pimenta comentou a atitude de países europeus que se recusaram a apoiar diretamente os Estados Unidos após o fracasso contra o Irã. Para ele, não se trata de uma oposição de princípio ao imperialismo, mas de uma manobra contra Trump depois que sua operação fracassou.
“Acho que a maioria das pessoas não percebeu, mas o imperialismo, quando ele viu que o Trump tinha fracassado, ele se lançou a explorar o fracasso político do Trump. O movimento trumpista tem um caráter internacional. Então, é uma briga política. No primeiro momento, ninguém no imperialismo se colocou contra. Toda vez que acontece uma coisa importante, a primeira coisa que todo mundo tem que ver é qual é a posição da imprensa e dos governos imperialistas, principais porta-vozes do imperialismo. Então, quando começou o conflito, a primeira coisa que a gente foi ver: qual era a posição? Vão ficar contra o Trump? Não, não ficaram. Ficaram a favor.”
Pimenta afirmou que os países europeus apoiaram a ofensiva enquanto parecia possível uma vitória contra o Irã, mas passaram a explorar a derrota norte-americana quando a operação fracassou.
“Aí eles falaram assim: se o Trump for lá, se o Trump derrotar o regime político iraniano, nós vamos apoiar, vamos participar da vitória. Agora, como ele fracassou, eles têm usado isso daí para fazer propaganda contra ele, que é uma propaganda contra os seus inimigos internos em cada país.”
A situação na Venezuela
Ao responder sobre a Venezuela, Pimenta defendeu cautela diante das medidas recentes do governo venezuelano. Segundo ele, o PCO mantém a defesa da Venezuela contra o imperialismo, mas acompanha as medidas que podem ter efeito negativo sobre a Revolução Bolivariana.
“Nós estamos observando. A situação na Venezuela, a nossa política não mudou, a gente continua defendendo a Venezuela contra o imperialismo. Nós estamos notando que estão sendo tomadas medidas que podem ter um efeito negativo, mas daí a chegar [à conclusão de] que o pessoal é todo traidor e tal é uma outra história.”





