Poucas coisas são tão incríveis quanto ver um órgão de imprensa que se intitula Esquerda Diário homenagear uma “crônica filosófica contra a opressão” de um regime revolucionário. No texto A despedida de Marjane Satrapi e o legado de Persépolis, o portal do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) choraminga pela morte de uma das mais conhecidas propagandistas da campanha sionista e imperialista contra a República Islâmica do Irã.
O artigo do MRT começa com um tom piegas:
“Aos 56 anos, naquela Paris que adotou como trincheira e exílio, a tinta de Marjane Satrapi ficou sem fôlego.”
Curiosamente, não chamou a atenção do MRT que sua heroína se exilou em um dos países mais opressores que a humanidade já conheceu. Os países da União Europeia servem de asilo para os funcionários do grande capital que atuam para derrubar regimes nacionalistas. É o caso de Gao Xingjian, opositor do regime chinês, e de Marina Ovsyannikova, opositora do regime russo. Ao mesmo tempo, o “libertador” imperialismo francês manteve o revolucionário libanês Georges Ibrahim Abdallah preso por 41 anos.
No período seguinte, o MRT revela o objetivo de sua homenagem a Marjane Strapi:
“A imprensa francesa confirmou a triste notícia através de um comunicado familiar, a autora de Persepólis, a autora que havia sobrevivido aos bombardeios de Teerã e aos fundamentalismos de dois mundos, faleceu hoje.”
O Esquerda Diário derrama suas lágrimas pela romancista iraniana tão somente para criticar o que chama de “fundamentalismos de dois mundos”. O MRT não explica quais seriam os dois mundos. Mas deixa claro que um desses mundos seria o Irã.
O texto segue, dizendo:
“O relato autobiográfico de Satrapi começa ao calor da revolução de 1979, é um dos exemplos de como um movimento de massas com profundas aspirações democráticas e sociais pode ser cooptado por forças reacionárias.”
Aqui, o autor tenta vencer a discussão com um golpe. Não adianta dizer que uma revolução foi “cooptada” sem explicar por quem, como e por quê. Se a revolução foi cooptada, as lideranças da revolução nada tinham a ver com o clero xiita, pois foi o clero quem organizou o novo regime iraniano. Se a revolução foi cooptada, Ruholá Khomeini caiu de paraquedas do movimento. Então, perguntamos: quem são os grandes líderes da revolução iraniana fabricada pelo MRT?
A realidade é muito mais simples. O Irã é um país de esmagadora maioria xiita. A região que engloba o país persa, o sul do Iraque e o Barém se tornou o refúgio dos dissidentes perseguidos pelas ditaduras árabes constituídas após a morte do Profeta Maomé. O clero xiita não é uma burocracia apartada da população, é uma referência política para as massas exploradas. Com a ditadura do Xá Reza Pahlavi, todo um setor deste clero se radicalizou e se insurgiu contra o imperialismo. O recentemente martirizado Aiatolá Saied Ali Khamenei, por exemplo, foi preso e torturado várias vezes pela polícia secreta da época.
Khamenei relata em seu livro, Cela nº 14, a importância da mesquita Karamat, que desempenhou um papel como centro de articulação social e política da oposição islâmica ao xá, sob a liderança de Khamenei. Segundo o próprio relato, após atuar na pequena Mesquita Imam Hasan, ele transferiu suas atividades para a Mesquita Karamat, em Mashhad. O local sagrado ficava próximo ao santuário do imã Reza, aos seminários religiosos (hawza), à universidade e ao bazar da cidade. Isso permitia que grupos sociais normalmente separados passassem a se encontrar no mesmo espaço. Os frequentadores incluíam estudantes dos seminários religiosos, universitários; comerciantes do bazar; jovens militantes islâmicos e intelectuais religiosos. Segundo Khamenei, a importância da mesquita estava justamente em unir esses setores.
Os xiitas não “sequestraram” a revolução dos esquerdistas puros e imaginários que o MRT imagina. O fato é que, na medida em que o Partido Tudeh, a principal organização de esquerda do Irã à época, capitulou vergonhosamente diante da guerra contra o Iraque, ele se tornou um inimigo do regime. Perseguir os inimigos é papel de qualquer regime revolucionário.
O MRT, ao se referir à obra mais conhecida da autora, nos ensina que “em Persepólis vemos o colapso do regime de Xá, o qual foi sustentado pelo imperialismo dos EUA, e a subsequente consolidação da teocracia reacionária de Khomeini, que baseou seu poder na perseguição à vanguarda operária, aos setores críticos e aos partidos de esquerda”.
Conforme o próprio Esquerda Diário admite, o regime do Xá Reza Pahlavi (que o MRT se recusa a chamar de “ditadura”) era “sustentado pelo imperialismo dos EUA”. Como é possível que a sua derrubada dê lugar a um regime “reacionário”? O MRT poderia dizer que o regime iraniano era revolucionário em seu início, mas que se tornou contrarrevolucionário ao longo do tempo, como resultado da luta de classes no país. No entanto, se essa hipótese fosse verdadeira, como explicar que o Irã hoje é o país de capitalismo atrasado que mais infligiu perdas militares aos Estados Unidos? Como explicar que a “teocracia reacionária” fundou e sustenta o Eixo da Resistência, a mais combativa frente anti-imperialista que existe no mundo?
As bombas do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) contra os Estados Unidos e “Israel” são, por definição, anti-imperialistas. A oposição do MRT e de Marjane Strapi ao regime iraniano só pode ser, portanto, pró-imperialista.
O mais curioso é que o que leva o MRT a admirar Strapi não é ter organizado um partido, liderado um movimento, fundado uma imprensa. O autor se admira particularmente porque “escutava bands de rock ocidentais que estavam proibidas (como Iron Maiden), usava tênis por baixo da túnica tradicional e comprava fitas cassete no mercado negro, arriscando sua liberdade para defender seus gostos”. Curiosamente, o autor não menciona os “gostos” das mais de 160 meninas explodidas pelo imperialismo e pelo sionismo em Minab.
A crítica à “teocracia” iraniana é, na verdade, a defesa da “democracia” dos países imperialistas. Essa “democracia”, no entanto, é a mesma que está impondo a censura no mundo todo, que tem prendido pessoas por criticarem o genocídio em Gaza. Na Alemanha, por exemplo, se alguém disser a frase “Palestina livre do rio ao mar”, vai para a prisão. No Reino Unido, mais de 20 mil pessoas foram detidas por se oporem ao massacre de palestinos.
O MRT, ao propagar a campanha reacionária contra a República Islâmica do Irã, está de mãos dadas com os maiores inimigos do povo palestino.





