O Partido Trabalhista do primeiro-ministro Keir Starmer sofreu uma derrota histórica nas eleições realizadas na quinta-feira (7) no Reino Unido. A votação envolveu mais de cinco mil cadeiras de conselheiros municipais na Inglaterra, além das eleições legislativas na Escócia e no País de Gales, e expôs a crise do governo trabalhista menos de dois anos após sua vitória nas eleições gerais.
Na Inglaterra, com 1.615 das 5.066 cadeiras apuradas, o Reform UK, partido de extrema direita liderado por Nigel Farage, aparecia na frente, com 557 cadeiras. Os Liberais Democratas tinham 321, os Conservadores, 296, os Trabalhistas, 283, o Partido Verde, 91, e outras forças somavam 67.
O resultado parcial indicava uma queda expressiva do Partido Trabalhista, que perdeu mais de 1.300 conselheiros em relação à eleição anterior. A extrema direita avançou principalmente em regiões tradicionalmente trabalhistas no norte e no centro da Inglaterra, com uma campanha contra a imigração, contra políticas de energia verde e a favor de cortes de gastos governamentais.
Farage comemorou o resultado e afirmou que sua legenda havia se consolidado na política britânica.
“Estamos assistindo a uma mudança histórica na política britânica”, disse o dirigente do Reform UK.
O próprio Farage declarou ainda que se tratava de “um grande, grande dia” para seu partido e para uma “completa reformulação da política britânica em todos os sentidos”. Segundo ele, o Partido Trabalhista havia sido “varrido”.
A derrota trabalhista, no entanto, não significou uma recuperação dos Conservadores. O partido de direita tradicional também sofreu perdas importantes. Em Suffolk, por exemplo, o Reform UK conquistou 37 cadeiras, enquanto os Conservadores perderam 36. Em âmbito nacional, os Conservadores caminhavam para perder centenas de assentos nos conselhos municipais, além de cadeiras na Escócia e no País de Gales.
O Partido Verde também cresceu, sobretudo em Londres, atraindo setores do eleitorado jovem e comunidades muçulmanas descontentes com a posição do governo Starmer diante do massacre em Gaza. Zack Polanski, dirigente verde, afirmou que a legenda passava a disputar o espaço deixado pelo Partido Trabalhista.
“Eu disse que o Partido Verde substituiria o Partido Trabalhista, e estamos vendo isso em todo o país. A nova política é Partido Verde contra Reform”, declarou Polanski.
Na Escócia, o Partido Nacional Escocês (SNP), do primeiro-ministro escocês John Swinney, obteve ampla vitória, embora sem maioria absoluta. Com 70 das 129 circunscrições contabilizadas, o SNP tinha 55 cadeiras, contra seis dos Liberais Democratas, quatro dos Conservadores, três dos Trabalhistas e duas dos Verdes.
O Reform UK ainda não aparecia com cadeira pelo voto distrital parcial, mas entrava no Parlamento escocês pela primeira vez por meio da repartição proporcional, após superar 20% dos votos em várias circunscrições.
O líder do Partido Trabalhista escocês, Anas Sarwar, perdeu sua circunscrição de Glasgow Cathcart e Pollok para a candidata nacionalista Zen Ghani. O ministro da Economia escocês, Angus Robertson, também perdeu sua cadeira em Edimburgo para a candidata verde Lorna Slater.
Os Verdes ainda conquistaram o antigo distrito da ex-líder nacionalista Nicola Sturgeon, em Glasgow. Swinney apresentou o resultado como um mandato para recolocar em discussão a realização de um segundo referendo de autodeterminação da Escócia, mais de uma década após a derrota da proposta independentista em 2014.
No País de Gales, o resultado foi ainda mais grave para os trabalhistas. O Plaid Cymru, partido independentista galês, tornou-se pela primeira vez a principal força política do país, encerrando 27 anos consecutivos de governo trabalhista desde a criação do Senedd, em 1999.
Com os 96 assentos atribuídos, o Plaid Cymru ficou com 43 cadeiras, a seis da maioria absoluta. O Reform UK conquistou 34, os Trabalhistas ficaram com apenas nove, os Conservadores com sete, os Verdes com duas e os Liberais Democratas com uma.
A primeira-ministra galesa, a trabalhista Eluned Morgan, perdeu sua cadeira em Ceredigion Penfro. Após a derrota, afirmou que o Partido Trabalhista precisa voltar a ser o “partido da classe trabalhadora”.
O líder do Plaid Cymru, Rhun ap Iorwerth, deve negociar com o Partido Trabalhista para formar governo. Ele afirmou que, durante seu mandato de cinco anos, não haverá referendo de autodeterminação, embora pretenda abrir caminho para esse objetivo a médio prazo.
As eleições também abriram uma crise em torno da permanência de Starmer no comando do governo e do Partido Trabalhista. O primeiro-ministro afirmou que não pretende renunciar e que não vai “abandonar” o cargo. Starmer declarou que não iria “sair e lançar o país no caos”, mas admitiu que os resultados foram “dolorosos”.
A pressão interna, no entanto, aumentou. O deputado trabalhista John McDonnell, ex-ministro da Economia, afirmou que o primeiro-ministro precisa avaliar se ainda é útil ao partido.
“Estamos quase na metade do mandato no governo. Uma vez que se supera essa metade de mandato, começa-se a pensar nas próximas eleições. Muitos parlamentares também estão pensando em seu futuro político, e é muito fácil entrar em pânico. Portanto, é melhor ter uma conversa agora sobre como sair dessa situação”, afirmou McDonnell.
O líder do grupo trabalhista no conselho municipal de Hull, Daren Hale, também defendeu uma mudança no comando do partido. Para ele, Starmer não é o dirigente adequado para conduzir a legenda após o resultado eleitoral.
“Não é a pessoa idônea para nos levar ao próximo nível e garantir os benefícios que deveríamos obter de um governo trabalhista”, declarou Hale.
“O Partido Trabalhista, nossos deputados e o Comitê Executivo Nacional do Partido Trabalhista deveriam analisar seriamente estes resultados, e creio que é hora de uma mudança de liderança”, afirmou.
O parlamentar trabalhista Jonathan Brash também declarou publicamente que Starmer não deveria sobreviver politicamente ao resultado das eleições. Entre os nomes citados como possíveis adversários internos estão o secretário de Saúde, Wes Streeting, a ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner e o prefeito da Grande Manchester, Andy Burnham.
Pimenta: bipartidarismo britânico chegou ao fim
O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, pré-candidato à Presidência da República, avaliou que o resultado das eleições britânicas expressa o fim de um ciclo histórico no Reino Unido. Para Pimenta, a derrota trabalhista e o avanço de novas forças políticas indicam uma crise profunda do regime político dominado, durante décadas, por Trabalhistas e Conservadores.
Segundo Pimenta, a causa principal da crise está na política neoliberal aplicada pelos dois partidos tradicionais, que levou a Inglaterra a uma grave crise social. O dirigente do PCO afirmou que a posição do governo britânico diante da Palestina, particularmente da ofensiva contra Gaza, destruiu a última ilusão de que o Partido Trabalhista representava uma alternativa democrática ou ligada aos trabalhadores.
“Bom, o motivo dessa crise é óbvio. A política neoliberal que levou a Inglaterra a uma situação de crise social muito grande acabou com os partidos que representavam essa política, o Partido Conservador e o Partido Trabalhista. E finalmente, a crise na Palestina, em Gaza, foi o golpe de misericórdia nesse sistema político. O sistema se aguentava aí com o Partido Trabalhista procurando se dizer democrático, ao lado do povo. A última ilusão sobre isso acabou com a Palestina.”
Pimenta afirmou que o dado mais importante não está apenas nas causas da derrota, mas nas suas consequências políticas. Para ele, o bipartidarismo britânico garantia ao grande capital um controle muito rígido sobre o regime. Trabalhistas e Conservadores, embora com retóricas distintas, funcionavam como duas alas de uma mesma política imperialista.
“Agora, eu acho que mais importante do que as causas são as consequências disso. Eu acho que muita gente tende a subestimar o acontecimento. O regime bipartidário permite um controle do grande capital sobre o regime muito rígido. Durante décadas, a Inglaterra viveu o sistema bipartidário, quer dizer, os dois partidos do grande capital, do imperialismo, governando um com uma certa retórica social e outro com uma retórica conservadora. Mas basicamente é quase que um regime de partido único, onde os dois partidos se comportam como se eles fossem alas do mesmo partido. Então a quebra desse monopólio político do grande capital é uma derrota e um sinal de crise muito acentuado.”
O dirigente do PCO comparou a nova situação britânica com a instabilidade política da Itália, onde o grande capital nunca conseguiu impor um regime bipartidário tão rígido. Segundo ele, a fragmentação tende a dificultar o controle direto das decisões parlamentares e do Executivo pelos grandes grupos econômicos.
“A partir de agora ninguém sabe como é que a coisa vai ficar. Nós podemos ver um pouco dessa situação na Itália, onde eles nunca conseguiram impor um regime de bipartidarismo. Sempre foi um regime muito mais fragmentado. E a gente vê que esse regime leva a uma instabilidade política permanente, dificulta o controle do grande capital sobre as decisões no parlamento, do Executivo também. Então, vamos ver agora como é que a coisa vai se manifestar, mas sem dúvida nenhuma é o final de um ciclo político importante, histórico. Já vinha sendo anunciado esse ciclo político há algum tempo, e a Inglaterra entra numa nova etapa da crise política e da crise econômica. A França, por exemplo, já explodiu o bipartidarismo faz tempo.”
Ao comentar o crescimento do Reform UK, de Nigel Farage, Pimenta afirmou que o partido expressa uma ala mais direitista do conservadorismo britânico, mas não possui a mesma solidez do Partido Conservador. Para ele, mesmo o avanço da extrema direita revela a crise do regime tradicional, pois Farage não conta com a mesma estrutura política que sustentou os Conservadores por décadas.
“O bloco do Farage no Parlamento Europeu não era alinhado ao bloco da Marine Le Pen. O Nigel Farage seria como a ala de extrema direita do Partido Conservador. Ele nunca de fato rompeu com a política do Partido Conservador. Agora, mesmo assim, vamos supor que ele ganhe a eleição. O partido dele não é o Partido Conservador. É um partido improvisado, é muito mais fraco, muito menos coeso, muito menos coerente do que o Partido Conservador. O que vai ser também um sinal de crise. Quer dizer, você põe uma pessoa lá que é uma pessoa do Partido Conservador. Tudo bem, é mais direitista do que o normal, mas a base de sustentação não é a mesma. Por isso a importância de um partido determinado, que dê uma base de sustentação real ao regime político.”
Pimenta também relacionou a crise britânica com a situação de outros países europeus. Segundo ele, além da extrema direita, começa a surgir na Europa uma oposição pela esquerda, independente dos partidos social-democratas tradicionais. O dirigente destacou, no caso britânico, a importância da proximidade entre a nova esquerda que se organiza no país, o movimento operário e os sindicatos.
“Acho que há um paralelo entre o partido do Jean-Luc Mélenchon e o partido de esquerda que está sendo criado na Inglaterra. Só que nós temos que entender o seguinte: na Inglaterra, o partido que está sendo criado tem uma proximidade muito grande com o movimento operário inglês e com os sindicatos. E já não é o caso do Jean-Luc Mélenchon, que já é um partido mais pequeno-burguês. Mas, de qualquer maneira, as tendências políticas acabam se manifestando através das organizações que existem. Se a organização consegue ser permeável a um determinado tipo de pressão política, de tendência política, ela acaba expressando essa tendência.”
Para Pimenta, esse fenômeno difere de experiências como Syriza, na Grécia, e Podemos, na Espanha. Segundo ele, essas organizações foram variantes juvenis da social-democracia e acabaram sofrendo a mesma crise dos partidos tradicionais quando passaram a se incorporar aos governos.
“E é muito claro que já há algum tempo nos países da Europa — nos Estados Unidos não apareceu ainda esse fenômeno —, mas nos países da Europa já começa, além da oposição da extrema direita, a aparecer uma oposição pela esquerda, uma oposição que se desenvolve de maneira independente dos partidos social-democratas. Importante notar o seguinte: o que nós temos aí com Jean-Luc Mélenchon e o Corbyn na Inglaterra não é a mesma coisa que nós tivemos com o Syriza e o Podemos. O Syriza e o Podemos eram como o PSOL, uma variante juvenil da social-democracia. Eles não se colocavam numa situação de oposição real. Sem falar que, de um ponto de vista programático e político também, esses partidos não tinham nada a oferecer em especial, a não ser demagogia de tipo democrática, partido horizontal, que ficou provado que era demagogia. No final, isso aí acaba sempre num esquema autoritário. E à medida que esses partidos começaram a se incorporar ao governo, também começaram a sofrer da crise dos partidos tradicionais da esquerda.”




