Poucos filmes na história do cinema fizeram um retrato tão realista da burguesia quanto Pocilga (Porcile, 1969), de Pier Paolo Pasolini, e Os Deuses Malditos (La caduta degli dei, 1969), de Luchino Visconti. Podemos dizer que, em sua forma, são como denúncias sobre o funcionamento dessa classe. Neste texto, faço alguns comentários sobre Os Deuses Malditos.
Na primeira cena, uma tradicional família da aristocracia industrial alemã celebra mais um aniversário do patriarca Joachim Essenbeck. O cenário é um imenso castelo e a cerimônia, com poucas pessoas, é ancorada em tradições. A celebração é interrompida pela rebeldia do jovem herdeiro Martin Essenbeck (Helmut Berger) que, travestido de Marlene Dietrich em O Anjo Azul, faz uma apresentação que visa escandalizar familiares e um exército de criados. Nos bastidores, sua mãe, a condessa Sophie von Essenbeck (Ingrid Thulin), deleita-se com a visão.
A apresentação de Martin é interrompida por uma notícia histórica: o incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, ocorrido em fevereiro de 1933. O episódio foi imediatamente utilizado pelo recém-empossado governo de Adolf Hitler para suspender liberdades civis, perseguir opositores e consolidar poderes excepcionais. Sob o pretexto de combater uma suposta conspiração comunista, o regime nazista acelerou a transformação da Alemanha em um Estado de exceção.
No filme, o incêndio insere-se no enredo para marcar o instante em que a burguesia alemã abandona definitivamente qualquer compromisso com a social-democracia, afundada em suas próprias contradições, e passa a assumir o nazismo como o poder necessário à manutenção de seus interesses.
Esse processo é representado na encenação do jantar. Após a notícia, Joachim decide transferir o comando da siderúrgica da família para Konstantin von Essenbeck, bufão e ignorante, ligado às violentas forças paramilitares SA, afastando Herbert Tallmann, o membro mais moderado e associado à social-democracia. O jantar vira uma briga de poder.
A decisão é simbólica. Joachim não acredita plenamente em Konstantin. Em certo sentido, até o despreza. Mas entende que as circunstâncias exigem a adaptação, pelo bem da siderúrgica. A social-democracia já não tem o poder necessário para preservar os interesses econômicos da família. Herbert é perseguido e foge. Na tentativa de salvar esposa e filhas de Dachau, retorna e se entrega à Gestapo.
Com esses personagens, Visconti mostra também que o nazismo não surge como irrupção irracional das massas, mas como escolha consciente da elite econômica como forma de preservar os seus privilégios a qualquer custo. Naquele momento, a burguesia dos países imperialistas ainda contava os prejuízos da crise de 1929. E a Alemanha mal havia se recuperado da derrota na I Guerra dez anos antes.
Essa talvez seja a grande força política de Os Deuses Malditos. O filme não trata o nazismo como um acidente histórico ou um fato dado. Ao contrário, oferece um enredo didático que ilustra decisões conscientes.
Após a determinação do patriarca, a família começa a se desintegrar. Joachim é assassinado pelo amante pequeno-burguês de Sophie, Friedrich Bruckmann (Dirk Bogarde), e a luta pela siderúrgica ganha contornos nefastos. Todos conspiram contra todos. Seguem mais assassinatos, chantagens, manipulações, relações marcadas pela perversão, pela disputa patrimonial e pelo medo permanente.
A representação visa mostrar a instabilidade política do período. Trata-se de um espetáculo grotesco. A siderúrgica representa a união entre o capital e a reorganização autoritária do Estado alemão em dissolução. O nazismo é o elemento estabilizador necessário para eliminar opositores, contornar a insatisfação social, regular a crise econômica e impedir o avanço das organizações operárias. É uma ferramenta de ordem.
O filme avança sobre outros acontecimentos decisivos. Temos a cena da queima pública de livros, promovida em maio de 1933 por estudantes e organizações ligadas ao regime, simbolizando a destruição da cultura crítica e da autonomia intelectual. Livros são lançados às fogueiras em nome da “purificação” nacional. Mas o filme também mostra a capitulação dos intelectuais, na figura de um professor.
Décadas depois, essa dimensão permanece atual. O anti-intelectualismo crescente, o ataque às universidades, a simplificação do debate público, a censura e a transformação permanente da política em espetáculo revelam sintomas semelhantes do esgotamento das estruturas sociais, engolindo tanto a direita como a esquerda.
Uma das cenas mais intensas é a representação da Noite das Facas Longas. Em 1934, Hitler ordena o assassinato da liderança das SA, Ernst Röhm. A organização paramilitar de extrema-direita havia se tornado grande, caótica e imprevisível demais para setores do exército e da burguesia alemã. Estima-se que, na época, contava com mais de dois milhões de membros e ameaçava sobrepujar a força militar oficial. A elite não quis a concorrência dos bárbaros e cobrou uma solução. O resultado foi a traição e o expurgo dos que incomodavam.
Visconti recria o massacre em dois momentos. Primeiro, expõe os membros da milícia na intimidade, com festas, bebedeiras e os famosos relacionamentos homossexuais. Konstantin está entre eles. Depois, com a chegada das tropas da SS, no início da manhã, os assassinatos. Na trama, o ataque é organizado por Bruckmann e pela SS. Aqui, o fato histórico se mistura com a narrativa para mostrar ao público como a crise institucional consolidou o nazismo na Alemanha após a eleição de Hitler. O resultado foi conseguido pela subjugação das forças de oposição ou de insatisfação.
Essa consolidação é preenchida pela trajetória do herdeiro Martin, o protagonista. O enredo narra sua conversão de garoto mimado e medroso em oficial nazista implacável. Essa conversão é muito mais assertiva do que o oportunismo de sua mãe e de seu padrasto. Jovem, pedófilo e sádico, é a imagem de Martin fazendo o famoso gesto da saudação nazista que encerra o filme.
O mérito de Os Deuses Malditos está em ser uma representação dos mecanismos históricos que consolidam o nazismo na Alemanha entre 1933 e 1934. A degenerescência social é evidente. O filme é pesado, difícil e muitas vezes cruel. O núcleo familiar funciona como um microcosmo de uma classe dominante incapaz, inútil, violenta, assassina e perversa, que mantém o poder apenas pela força do dinheiro e da propriedade privada.
Com quase 60 anos, sua atualidade é excepcional. Realizado 25 anos depois do fim da Guerra, nos convida também a olhar para o ambiente político da década de 1960. Àquela altura, era fato que muitos membros das SS haviam sido incorporados às grandes corporações, aos organismos internacionais como a OTAN e às instituições estatais. Apesar da carnificina, nada de fato mudou. Nota-se a necessidade do autor de expressar, por meio do cinema, tamanhas contradições.
O enredo acaba tendo forte semelhança com as tragédias gregas e shakespearianas. Talvez aí esteja o segredo para entendê-las. É possível representar a classe dominante de qualquer era de outra forma? Associando os personagens aos fatos históricos e às decisões que definiram os rumos da Alemanha, ao mesmo tempo que usa uma edição elíptica, o filme evita o melodrama escatológico, mantendo a representação histórica como um alerta.
Nós, que vivemos a contemporaneidade, também percebemos a decadência do sistema econômico e de sua casta. Os Konstantins, Herberts e Bruckmanns estão todos aí, agora com novas palavras para as mesmas ideias. As traições, os assassinatos, as disputas de poder, o fundamentalismo religioso, o fundamentalismo identitário, a falência das instituições de Estado, o lobby econômico, a censura, o uso da propaganda e das milícias militares para controle das massas operárias: todos são sintomas do mesmo declínio. Com o capitalismo, inevitavelmente, sempre chegamos ao mesmo dilema. Pena que aqueles que deveriam liderar as classes trabalhadoras para acabar com esse espetáculo grotesco continuem longe de compreender essa possibilidade.





