O filme Odisseia, de Christopher Nolan, tem sido sistematicamente abordado na imprensa de esquerda. Desta vez, temos o artigo “O Odisseia de Nolan e o fardo da masculinidade branca”, de Fábio Frizzo, publicado no sítio Esquerda Online nesta terça-feira (4).
Para a esquerda identitária, a sociedade não está dividida em classes, mas em nichos. O alvo da vez é o “homem branco”. Que homem branco? Não se sabe, ou não importa, pois se trata de um ente metafísico, uma categoria, que separa ‘homens brancos’ dos ‘não brancos’.
Frizzo diz que o filme “já sofreu uma chuva de críticas da extrema-direita, preocupada com a escalação ‘woke’ de intérpretes não brancos ou não binários para papéis mitológicos. Em um tempo em que a Antiguidade tem sido apropriada principalmente como ferramenta pela direita”. A extrema direita é outro problema da esquerda pequeno-burguesa, que a tem usado como espantalho para se unir à democracia liberal, que supostamente combateria o fascismo.
Curiosamente, e não sem razão, a crítica da direita é que os wokes, os identitários, estão se apropriando da antiguidade para imporem sua ideologia.
Com relação ao elenco, uma das críticas mais recorrentes ao filme, o autor considera que a escalação “é perfeita e demonstra um senso de urgência para incorporar mais diversidade no cinema de Hollywood”. O senso de urgência é uma imposição da política identitária, não uma necessidade artística.
Para Frizzo, “escolher adaptar a Odisseia hoje, com este elenco e inserindo temas sobre a decadência da civilização, é uma mensagem clara para a nossa realidade. Os inimigos a serem combatidos com essa adaptação são a xenofobia e a masculinidade tóxica, orgulhosa e violenta da extrema direita, especialmente representadas pelo movimento MAGA de Donald Trump.” Ou seja, o filme é, basicamente, uma tribuna política. Não que isso seja proibido, há excelentes filmes políticos. No entanto, o que se vê nesse caso é que o diretor está a serviço de interesses alheios.
A esquerda pequeno-burguesa anda tão preocupada com Trump que, para combatê-lo, apoiou Joe Biden, um genocida, golpista, que esteve por trás da invasão ao Iraque e no golpe de 2016. Essa esquerda também apoia as democracias liberais, que estiveram com Trump no início da guerra de agressão contra o Irã, e que estão jogando a Ucrânia contra a Rússia, além de reprimir brutalmente as manifestações em favor da Palestina. De modo que a esquerda deveria estar preocupada em combater justamente esses que se dizem democratas.
Deturpação
O articulista escreve que “o Odisseu de Nolan, interpretado por Matt Damon, não é um macho orgulhoso. Pelo contrário, ele é um homem atormentado pela violência da guerra. Um soldado veterano que precisa lidar com a síndrome de estresse pós-traumático enquanto tenta voltar ao lar.” Aqui é preciso dizer que não se trata de uma reinterpretação, mas de outra história, e que o cineasta está apenas vampirizando a obra de Homero.
A economia grega era baseada em conquistas, saques, comércio, aquisição de escravos. O mundo era e continua violento. Não adianta se incomodar com a violência dos antigos se hoje se atira bombas sobre crianças e mísseis sobre escolhas infantis.
Odisseu era um guerreiro e não estava atormentado pela guerra, assim como não pensou duas vezes em massacrar aqueles que queriam desposar Penélope, sua esposa, e tomar seu lugar.
Segundo Frizzo, “mesmo na tentativa de criticar a masculinidade MAGA, Odisseu segue sendo o protagonista masculino branco, incapaz de encontrar saídas para os dilemas do seu mundo, mas sem nunca deixar de recorrer à violência que tanto lhe causa sofrimento psicológico”. A incapacidade de Odisseu se deve ao fato de ser branco? E por que não recorreria à violência quem vive em um mundo violento? Não faz sentido.
Em seguida, o articulista diz que “a escolha estrelada de atores e atrizes não brancos somente arranha o problema da representatividade, uma vez que todas as personagens que interpretam, como bem apontou Emily Wilson, servem apenas para ajudar o protagonista branco. A opção de Nolan por modificar a história original, retirando o desejo sexual de Odisseu, para retratá-lo como um homem de família, fiel à esposa, também vai no sentido de construir esse herói branco da moral burguesa.”
Existe uma verdadeira fixação com o “homem branco”. O mesmo problema que os identitários levantam: homem branco, cis, heterossexual. Mas fica a pergunta: um homem branco pobre, que acredite na moral burguesa, é a mesma coisa que um burguês? Os dois têm os mesmos dilemas? Os dois devem ser combatidos?
Por outro lado, vale lembrar que a fidelidade matrimonial é bem anterior ao domínio da burguesia, ainda que esta tenha pela primeira vez relacionado o amor romântico ao matrimônio e ao ideal de família doméstica.
A representatividade que Frizzo cobra do filme é, na verdade, uma imposição, uma exigência identitária, e quem não a cumprir será criticado. Nesse trecho, o autor diz que os papéis femininos são sempre secundários em relação aos homens.
O ‘homem branco’
Odisseu era grego, portanto, é natural ter sido branco. Dito isso, Frizzo afirma que “o grande drama protagonizado pelo homem branco da Odisseia de Nolan é o colapso da civilização.” Em seguida, acrescenta que “para dialogar com a policrise do nosso tempo, o diretor recorre à tempestade perfeita que pôs fim à Era do Bronze. Na realidade, as sociedades palaciais do Mediterrâneo Oriental (egípcios, hititas, micênicos e outros) foram assoladas por mudanças climáticas, revoltas sociais e migrações forçadas, que destruíram o mundo conectado por redes de intercâmbio econômico, cultural e diplomático.”
Após falar de homem branco, representatividade, papel das mulheres, vem finalmente a questão das mudanças climáticas, o cardápio está quase completo. Pelo menos ninguém vai poder dar a desculpa de que as mudanças eram fruto da atividade industrial humana ou da queima de combustíveis fósseis.
A esquerda pequeno-burguesa não discute arte, não discute futebol, ela faz avaliações políticas e sobretudo morais: se determinado jogador é de direita, basta isso para ser considerado ruim. O contrário também é verdade, se for ‘esquerdista’, está automaticamente perdoado. Esse também é o critério para se falar de obras artísticas. Por isso, há um grande empobrecimento cultural na esquerda, que é incapaz de falar sobre arte ou cultura.





