O artigo A Odissseia, de João Lanari Bo, publicado no sítio A Terra é Redonda em 23 de julho, esbarra em um velho problema: não se faz crítica de verdade, o que se tem, no máximo, é propaganda.
O texto de Lanari Bo está dividido em três partes e começa dizendo que “o filme A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan, custou US$ 250 milhões para ser produzido – no fim de semana da estreia global, arrecadou US$ 264,1 milhões. Os fundos para a produção vieram predominantemente da Universal Pictures. Projetos desse porte contam com uma complexa engenharia financeira, incluindo investimentos corporativos, adiantamentos de distribuição global e financiamentos estruturados por bancos.”
Essas informações, na verdade, são superficiais, ou seja, não querem dizer nada, o único intuito é induzir o leitor a gostar do filme porque foi caro e teve boa bilheteria. Não existe uma relação direta entre a qualidade de um filme e o quanto foi gasto.
O segundo parágrafo é mais interessante ao mostrar que “o governo grego concedeu um pacote de subsídios de aproximadamente seis milhões de euros para apoiar a produção local, que utilizou cenários naturais na região do Peloponeso, enquanto o Marrocos forneceu apoio estatal para a construção de sets. Na Grécia, registrou-se aumento de vendas do livro, em paralelo ao lançamento do filme.”
Como se viu, o cinema é basicamente uma indústria e isso faz com que sobre muito pouco, ou nada, para a arte. Existe dinheiro estatal no empreendimento, e é muito provável que seja alguma “engenharia financeira”. O filme também movimenta o mercado editorial, de modo que existem muitos interesses em jogo, inclusive políticos, como na promoção do identitarismo.
A primeira crítica, se é que se pode chamar assim, é no trecho que diz que o filme “encarna” – poderia ter dito copia – os filmes hollywoodianos: “O cowboy solitário que cavalga em direção ao pôr do sol é a personificação do guerreiro épico de Homero, movido pela honra, pelo destino e por um código moral próprio.”
Moralismo
Na segunda parte do texto, começam a surgir outras questões relativas ao enredo. O articulista afirma que “a atualização do mito da Odisseia é o ponto central do filme: no original literário, o herói não luta apenas contra ciclopes e deuses, mas contra a sua própria transformação e as consequências de suas escolhas. Na versão cinematográfica, o protagonista interpretado por Matt Damon é atormentado por dilemas humanos, psicológicos e pela culpa, afastando-se do arquétipo do guerreiro invencível. Essa releitura psicológica é o que permite ao espectador moderno se identificar com os mesmos dilemas de ausência, tentação e retorno abordados na Antiguidade.”
Odisseu, ou Ulisses, não foi “atualizado”, é apenas uma versão, para não dizer deturpação do mito grego. Mostra o herói atormentado pela culpa, quando na obra de Homero está descrita a aventura do grego para sua casa.
Os gregos eram guerreiros, sua economia dependia de suas vitórias, seja para a pilhagem, seja para a captura de escravos. A culpa provavelmente não atormentava seus soldados, que estariam mais preocupados com a desonra, desagradar aos deuses, falhar diante do destino, sofrer alguma vergonha pública, morrer sem glória, etc. Apenas 300 anos depois, no teatro grego, com Sófocles, Eurípedes e Ésquilo, a guerra passa a ser retratada também nos seus horrores, o que não aparece na épica de Homero.
Segundo o autor, “Christopher Nolan rejeitou o casting baseado no biotipo europeu estrito, optando por um elenco diverso para os papéis principais e deuses, incluindo atores negros e de origem latina. Suas principais escolhas envolvem um elenco deliberadamente multirracial – como Lupita Nyong’o no papel de Helena de Troia e Clitemnestra, e Zendaya como Atena – e o foco em dinâmicas feministas, destacando o protagonismo de Penélope na tomada de decisões de Ítaca.”
Considerando que existem tantos interesses envolvendo uma produção multimilionária, o identitarismo, impulsionado pelo imperialismo, não poderia ficar de fora. Esse “deliberadamente” é muito discutível, ainda mais em tempos em que inúmeras produções de filmes, propagandas, novelas, séries televisivas estão colocando pessoas negras em seu elenco. Sendo assim, Christopher Nolan apenas cedeu, seguiu a correnteza. E fica a pergunta: existe arte sem liberdade?
Mais propaganda
Na terceira parte, o articulista diz que “o marketing do lançamento de A Odisseia focou no ‘zero CGI’, sem computação gráfica, exceto pequenos ajustes como remoção de cabos, guindastes e as estruturas de suporte das marionetes gigantes, ampliação do turbilhão de água criado pelo monstro Charybdis e proporções dos deuses e dos soldados gigantes em cenas de batalha. O Ciclope utilizado é uma estrutura mecânica e animatrônica real de 18 metros.” Como curiosidade e propaganda, essas coisas funcionam, mas não passam disso.
Adiante, porém, Lanari Bo diz que “no cinema, o realismo ontológico (cunhado e teorizado pelo crítico André Bazin) defende que a própria natureza do cinema é a de registrar a realidade física do mundo. Adaptar um poema repleto de deuses, monstros e feitiçarias exige escolhas estéticas que equilibrem a fantasia e a tangibilidade.” Essa teoria, porém, carrega inúmeras lacunas. Não pode haver “realismo ontológico” de verdade no cinema ou na fotografia. Isso é comprovado todos os dias no telejornalismo. Quando se quer promover uma manifestação esvaziada, por exemplo, basta a câmera ser colocada em determinada posição e enquadramento que o espectador pode ter a sensação de que estava repleta de pessoas. Além disso, o cinema conta com tipos de lentes, filtros, iluminação, maquiagem etc.
O articulista fecha seu texto dizendo que “o poema original de Homero (escrito há mais de 2.500 anos) é a base da estrutura do filme. Sua recepção demonstra como o mito de Odisseu permanece maleável e atual – a jornada do herói grego reaparece em conflitos modernos como culpa, responsabilidade moral e urgência do autoconhecimento, em tempos de crise civilizatória.”
O filme não tem nada de civilizatório, a obra de Homero foi utilizada apenas para fazer dinheiro e discurso identitário. Como há muitos interesses em jogo, ninguém tem coragem de criticar a produção com seriedade.




